Páginas

quinta-feira

Encantamento

Encantamento deveria ser isso, esse deslumbre, essa sensação de coisa que desmancha se alguém tocar.
Ia quase que sem pisar a calçada. Nunca mais precisaria sofrer. O encantamento tomava conta de tudo, até dos barulhos da cidade que viravam um zumbidinho de abelha.
O mundo todo parecia um berço, uma rede que balangava sozinha.

Cartas em caixas

Começo
Nunca desenhei uma linha de partida com régua.
Vontade
Um mar rebentando dentro.
Lua
Coisas que a gente olha quando quer estar quieto.
Assimétricas
O perfume de uma é o fedor de outra.
Retalho
Culturalmente sou só remendo.

Exposição

De taça em taça, mesmo o vinho frisante sobe. Este é bom. Italiano. O assunto do coquetel já deixou de ser o artista e suas obras, já passou a ser a vida alheia.
Os garçons observam o comportamento desta gente fina. Os seguranças cuidam do patrimônio. Mais ou menos.
Puxar conversa com um ou com outro já não é mais problema. Todo mundo está alegrinho. Há alguns bicões enturmados com amigos do artista. Ali a palavra 'exótico' é muito pronunciada. Há um grupo de peruas rindo alto. Há crianças pedindo coca cola e adolescentes dispostos em lados opostos da sala separados por serem mais ou menos 'vips'.
Sim, há pessoas de classes sociais distintas, afinal o dinheiro público é que paga este evento. A classe operária vai ao paraíso que fica exatamente ao redor da mesa de doces e salgados finos.
Um senhor veste um terno puído. Chegando perto percebe-se que tanto ele como o terno cheiram a naftalina.
Uma mulher muito elegante faz algumas pessoas espirrarem perto dela por causa de seu perfume.
Um garçom boceja escondido, ninguém percebe.
Há um fotógrafo juntando gente e pedindo poses falsas. Por causa do vinho, ele até consegue registrar alguns sorrisos verdadeiros.
Tem uma taça em cima de uma escultura que um garçom ao passar retira discretamente.
Uma mulher de cabelos prateados reclama de algo que caiu no seu vestido.
Há também ratos no recinto. Não a vista, mas sob o assoalho. Ratazanas gordas e prenhas e canundongos peludinhos. Esperam pacientemente que todos saiam dali para invadir a galeria como fazem todas as noites. Urinam e defecam sobre as obras de arte. A moça da limpeza já reclamou, mas nada foi feito.
Numa das obras mais festejadas, o artista usou guardanapos sujos que os bichos estão roendo; mas ficou até bonito, ele disse.
O evento acaba ainda mais tarde do que era esperado. Dá um trabalhão juntar toda a louça na cozinha. O resto dos quitutes finos são embrulhados em pacotinhos para os filhos de um e a mãe do outro: "Se deixar aqui, os ratos comem!"
Ninguém se preocupa de acabar de limpar tudo antes de sair, está tarde.
Mais um evento bem sucedido.

terça-feira

Sobre horizontes que se compartem...

Pode ser que Paulo Coelho seja realmente um boçal, mas por via das dúvidas, cuido sempre de olhar o horizonte e evitar as palavras ásperas e a tristeza.
Indo na casa de alguns amigos meus, um dia eu comecei a entender que a gente não precisa ficar se preocupando o tempo todo em fazer coisas importantes, a gente pode só ir vivendo e tentando "compartir" (compartilhar, repartir) isso que é tão simples: a comida, a bebida, os braços, os sonhos... Isso é tão bom. É o que realmente importa.
E com minha família, entendi que aprender as coisas não dá tanto trabalho, não.

Uns dias atrás fiquei pensando neste Macunaíma que me acompanha. Acho que isso não é um encosto, é um motor.