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sexta-feira

Não perca sua imagem

No espelho me olha ainda a menina que se lembrava de tudo

No espelho me olha ainda a velha que esqueceu pouco a pouco quem era sua mãe

Atrás do espelho me olha ainda o homem que não me viu crescer

Atrás de mim, no espelho, vejo ainda o homem que trocou cigarros por balas

Frente ao espelho estou com cada cabelo branco e cada ruga 

Frente ao espelho estou na minha beleza e na minha grandeza

Frente ao espelho, cada fragilidade submersa

Toco a superfície

As imagens confusas. Não sou mais eu

Preciso enfiar a mão para me tirar lá de dentro

Preciso não me afogar numa confusão de seres

Preciso não me perder de vista

Pois uma mestra me disse:

´´Não perca sua imagem´´


Para todas

O cotidiano, sempre ele arrastando os pés manso e vivo sobretudo nas manhãs.
Em comum: pariram e tem ganas de vida e felicidade.
Vejo o cotidiano marcando sua terra com uma urina pegajosa e ácida, corroendo as paredes, mas o amor não.
O amor vem sobretudo do ventre e é ele que elástico espreguiça o dia.
Uma convive com a dor física, sobe, desce, corta as unhas do menino, aprende o que não sabia, trabalha, toma remédios, caminha pela rua com seu passo curto e constante, mas envelhece mais sem a presença dele. O pai vivo era a menina em pé.
A outra arde, se banha nas águas geladas, cria meninas independentes e se consome por um moço que ela chama de menino, mas já é um homem feito. Bem feito. Envelhece mais sem a presença dele enquanto o pai dedilha cotidianos ao piano.
O cotidiano é um gato que se lambe enquanto assiste como envelhecem as mulheres.

sábado

Berlim - Control C

Viajei para outro país pela primeira vez no ano passado. O país escolhido foi a Alemanha. Escolhido talvez não seja uma boa palavra, sorteado cabe melhor.
O primeiro país que resolvi conhecer foi o meu. Até entrar na universidade eu mal tinha ido até a praia. "Viajar é pra rico". Turismo é pra quem tem pelo menos tempo livre. Na universidade descobri o incrível mundo da carona e dos tais encontros e congressos: conheci Minas Gerais, Bahia, Goiás, Rio de Janeiro, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Maranhão e Paraná. Tantas viagens pelo chão e dentro dos parques de diversões da cabeça, poderiam ser a explicação para eu nunca ter me formado. Depois da universidade viajei até o Pará de ônibus e a minha primeira viagem de avião na vida foi para o Acre.
Daí decidi que minha primeira viagem para fora do Brasil seria rumo à Argentina, ver um show do Pixies com uma amiga, mas já dizia Bezerra da Silva "bolso de otário é nas costas virado de boca pra baixo"; tomei um calote da companhia que se dizia representante da TAM pela internet. Somando o que perdi de dinheiro nesta ocasião, com o que juntei tempos depois quando decidi ir pra Alemanha, mas emprestei a um amigo viciado em pedra, mais o que juntei pra viajar pra Pernambuco com minha mãe, mas perdi pra um conhecido de um amigo alcólatra que trabalhava na TAM, tudo isso somado, com juros e correção, deve dar o tanto que gastei no ano passado para conhecer Berlim e Colônia. E, na verdade, se fosse pra somar quanto custaria oficialmente sem carona nem hospedagens alternativas, todas as viagens que fiz pelo Brasil, capaz que fosse bem próximo deste mesmo valor.
Mas deu que de repente tive uma noite de insônia e conversa pela internet com uma amiga e sonhamos com Berlim. Ela mais que eu. Literalmente ela sonhara com as ruas, as paisagens da cidade antes de pisar lá. Eu o que sabia da Alemanha até então era meia dúzia de filmes, algumas peças de teatro e três palavras em alemão, das quais eu não tinha muita certeza sobre a pronúncia.
E eis que estou no avião atravessando o oceano. Tomei todo vinho que pude, tentei dormir, pratiquei posturas de alongamento tanto quanto pude dentro do restrito espaço do meu acento e o oceano não acabava nunca de ser atravessado. Deu tempo de pensar nas caravelas e em todos os filmes com desastres de avião que eu conhecia.
Ano passado eu andava muito decidida, resolvi não me apaixonar no começo do ano, mas falhei. Como o rapaz não quis namorar comigo, casar, nem sair pelo mundo fazendo música e teatro pra crianças, decidi que estava namorando um outro moço que gostava de mim faz tempo. Decidi namorar este moço em agosto e minha viagem foi em setembro. Então meu namorado oficial e esta 'paixonite' de ano novo, me acompanharam a Berlim, mas precisei chegar lá e tomar o primeiro porre de cerveja alemã numa noite de versos íntimos, conversando muito abertamente sobre relacionamentos com os meus melhores amigos pra descobrir que na verdade eu não gostava do moço que eu decidi que estava namorando, mas do outro por quem tinha decidido não me apaixonar nunca mais.
E esta é só uma parte da história. Moral de parte da história: eu queria, como uma alemã (ou como imaginava que deveria ser uma alemã)... queria ter o controle daquilo que sinto, mas bastou chegar no estrangeiro pra começar a querer perder o controle de tudo.
"She lost control".
Again

segunda-feira

Berlim - impressões

Um homem ri quando acendo um cigarro de tabaco e alecrim.
Caminhar sem pressa pelas ruas de outro país é parecido com voltar ao bairro da sua infância vinte anos depois.
Um pedaço de muro não derrubado para lembrar o que já esteve separado. Colar advérbios de tempo neste muro e ir embora.
Um duo. Música ecoando nas paredes. Uma garota sentada, desenha.
Sair à noite sozinha. Algo como uma puta tímida.
Dois mendigos abrem seu sorriso pra mim. Um deles não tem metade dos dentes. O outro pede a flor que carrego nos cabelos.
Escrever cartas em outro país é como tentar fugir do exílio.
Crianças são crianças em qualquer lugar do mundo.
Falar alto e rir alto incomoda as pessoas. Necessidade de marcar presença: vontade de falar português bem alto.
Flores. Calçadas largas. Exercícios de memória e reconstrução por toda parte.


domingo

Habitando o Solar e o castelo

Queria só escrever como quem bebe um copo d'água.

Vertigem de olhar pra dentro.

Dançar a coisa que não tem palavras.


Já faz alguns meses que estive lá. Algo da experiência diluiu, algo se concentra nas pontas dos dedos; lembranças me desconcentram enquanto estou tentando trabalhar, ou antes de dormir.
Eu gostaria de fugir de alguns castelos. Na adolescência eu era a rapunzel e minha mãe a bruxa que me mantinha presa na torre. Minhas incursões feministas mostraram que bruxas eram seres fascinantes.
O castelo da inveja me paralisa. O pecado da preguiça torna minha força um espelho fininho, fácil de quebrar e trazer sete anos de má sorte.
Engasgo. O que me incomoda nas conversas são as pausas. O que eu tenho que fazer com as mãos e os olhos enquanto não estamos dizendo nada? Realmente não estamos dizendo nada? Timidez não é pecado.
Trazer no corpo o drama dos meus ancestrais: isso me interessa. Complexo de vítima? Perda de tempo.
Chorar e rir sem muitas regras. Tem vezes que chorar é força e rir é fraqueza.
Culpa: não sei ser boazinha o tempo todo. É mesmo tão difícil não alimentar mentiras?
Eu li na parede do Solar a poesia de alguém. Decidi encontrar aquela força em mim naquele dia. Não havia muito que fazer senão deixar transbordar aquela energia maravilhosa. Eu sempre soube que ela brotaria dançando. Algumas vezes, ela escreve. É uma luz que canta. É o galope de uma onda. É o silêncio, o som e a fúria que pode habitar qualquer pessoa.

Sim, quero habitar meu palácio. Sim, quero deixar os castelos que aprisionam. Quero voltar ao Solar.
Quero ver no espelho a rainha descalça e nua. Quero vê-la dançar assim em cima de uma montanha, pertinho das nuvens, do jeitinho que ela fez há alguns séculos.

Coreografia para ele

Dancei e te mandei embora.
Daquele filme inteiro eu só guardei a frase da moça: "O pai é o primeiro homem na vida de uma garota".
A vida inteira eu fiquei esperando você voltar. Nunca me ocorreu te mandar embora. Depois parece que ficou mais fácil respirar. Deixar você ir. Deixar-me aqui, olhando você ir. Sem mágoa.
Ficaram perguntas que não servem para nada.
O que eu posso fazer de bonito com isso agora? Me ocorreu que seria legal pensar em você toda vez que eu dançar. Dançar pra você mais vezes. Dançar celebrando que eu te deixei ir e que você foi.
Dançar em cima desse meu "complexo de rejeição". Dançar em cima daquilo que realmente eu tenho de feio. Sapatear bem até isso virar barro e fundação de uma casa bem bonita.
Você foi e eu deixei. Você queria ir e eu compreendi. Já era tempo. Já era outra estação.
O segundo e o terceiro homem na vida de uma garota. Eu já não sou uma garota. Faz tempo. Já é outra estação, eu sei.
Cada passo meu te chamou até ali, só pra você ir embora. E você foi.
O vazio é bom porque pode ser qualquer coisa, pai.
Havia algo de sensual quando eu dancei pra você. Mas era só pra você ficar desgostoso- como homem- de estar se apartando de mim.
Não sou uma boa menina. Sou uma mulher que dança para mandar seu pai embora.
Sou uma mulher que carrega parentes por dentro.
Meus ancestrais cantavam e dançavam e isso era sério e sagrado. Isso fazia a vida presente suportável e agradável.
Com essa memória ancestral no corpo eu danço. E toda vez é bom.

sexta-feira

Ensaio Primeiro sobre o Estrangeiro

Deus é um boi dormindo
Levei para o estrangeiro
um ipê branco dentro do peito
Me revirei por cima das nuvens tomando vinho tinto
O oceano que nos separa é imenso
Mas a distância é uma ilusão

Recebo a visita de um rei
Alles in butter
Pra que ficar esperando decepções
se você pode ir embora no ápice?
Seria mais fácil se soubesse quando terminar
Mas eu não sou uma equação

Tropofobia
Ultramagnetic man
Levei para o estrangeiro
todas as músicas do meu País
Impressas na minha pele
Saudade de comer feijão

Visito um príncipe
A catedral faz eco dentro de mim
O mais estranho é acordar sob outro céu,
ouvir o canto de outros pássaros
As imagens vem em ondas, como o som
O sabor da comida parece a cara das pessoas

Minha casa são meus amigos
Estrangeiro é sentir distância
Estou quilômetros acima
mas posso sentir as vibrações do oceano
Minha língua me protege
Meu passo é largo e firme


quinta-feira

Uma aventura em Belém - Parte 2: A caminho

23 de janeiro - 20h20 - Ônibus de luxo com ar condicionado, café e geladeira. Somos apenas 12 pessoas, quase todos mais jovens que eu, a maioria estudantes. Além desses, uma senhora que trabalha com saúde pública e o dono de uma loja de artigos indígenas.
Obviamente nossa saída de Santana atrasou um monte e tenho dor de estômago porque só comi um risoli, uns pães de queijo e uma banana. Na parada do posto, comi um pão com ovo, um pingado e uma cerveja. Vamos para o Rio e depois pra Palmas, pegar um pessoal, só depois rumamos pro Pará.
A Vanessa, que está no ônibus conosco, distribui uns jornais "Brasil de Fato" que logo vão virando lixo. Eu tenho paciência de ler um artigo sobre o Sarney. Recorto trecho curioso:

"No Maranhão ninguém duvida pois é lá que está o cerne da questão. Enveredando pela gratuidade da filigrana jurídica, vê-se que existe o dedo alheio. E é o maior de todos, não o mindinho. Quem dedou tem poderes para fazê-lo e fez.
O dedo do caso de Lago é o mesmo que ceifou a trajetória dos mandatos. O dedo tem nome e atende por José Sarney, o mesmo que pretende a presidência do Senado para dar uma mãozinha ao filho (...)"
- É um artigo acusando o Sarney de tentar tirar o Jackson Lago do governo e colocar a filha Roseana. Quem assina João Capibaribe do PSB, ex-senador. O paralelo é genial: dedo, mãozinha.Lembrou-me a performance do Pantomime Jazz a que assisti que trazia bizarras figuras de terno e com cabeças de relógio e polegar. Também lembrei de um texto do Henfil que adaptamos para teatro e encenávamos com os dedos em riste sobre um tal "DEduardo" Vilela.
Na Dutra, recebemos revistinhas supercoloridas da "Nova Dutra" com um monte de propaganda, entre elas um protetor de pneus para evitar xixi de cachorro. Afinal, não há realmente nada que preste pra ler e não trouxe nenhum livro.
Dormi de SP a Guaratinguetá e agora quero "economizar o sono".
Perto de meia- noite chegamos ao Rio. O ônibus encosta perto do Teatro Municipal e enquanto mais doze pessoas embarcam eu e o Piteco saímos à caça de um boteco. Encontro um onde como o melhor caldo de mocotó da minha vida. Seguimos viagem noite adentro.

sábado

Uma aventura em Belém - Parte 1: De carona para o Fórum

Introduza aqui: Pois foi assim, mesmo. Em janeiro deste ano visitei pela primeira vez o norte deste país com céu de anil. Na ocasião, cheguei em Belém de ônibus para o Fórum Social Mundial. A seguir, o início desta saga, de acordo com os relatos de meu diário de bordo.
20 de janeiro - Ainda não sei como vamos para o Fórum em Belém. Tenho que entrar no orkut pra pesquisar as caronas saindo do interior ou de São Paulo.
21 de janeiro - Corro pra fazer meu exame demissional da escola. O médico com sotaque latino pergunta se durmo bem, se vou ao banheiro todos os dias e se me sinto bem e me atesta saúde perfeita. Meu cartão do banco está bloqueado. Apareceu uma carona saindo do Espírito Santo antes do meio- dia. - 16h30 - Me ligam, eu tinha deixado meu telefone de casa disponível no orkut. Sai um ônibus amanhã de SP. Vou nesse.
22 de janeiro - Meio-dia ligo de Sampa pra minha mãe e ouço pelo telefone o cachorro latindo no quintal. Metrô norte/ sul rumando para o norte. É meio dia e o vagão vai vazio até o Paraíso e depois da Luz. Fazia tempo que eu não pegava essa linha. Dia nublado desses brancos de doer na vista. E só trouxe uma blusa na bagagem, pensando no calor de 40 graus de Belém. Durmo na casa de uma amiga que é perto de Santana de onde sai o ônibus amanhã. Vou pra Augusta beber com mais dois amigos. Acabo a noite na casa da Rê com ela me mostrando sua performance de seduzir viado: a vagabunda na parede.