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quinta-feira

E quem se apaixona pela travesti?

Uma palavra não me define.
De quantos filósofos masculinistas precisamos para concluir que a única conclusão é a morte? Sei lá. Não passei no vestibular pra filô e meus estudos autodidatas nesse sentido não andam quantitativos, conquanto acho significativo o que tange ao afetivo.
Posto que tava pensando essa semana sobre amor e paixão. Nunca sei o que responder quando perguntam se estou apaixonada. Isso incomoda um pouco.
Diz que paixão tem aquela do messias na cruz, o sofrimento extremo de dar a vida pelo outro. O ápice da compaixão e do amor por todos os serhumaninhos. E aí as coisas dão uma pulada aleatória nas ligações neurotransmissoras da eletricidade cerebral aqui; reza a cartilha das neurociências que somos impulsos elétricos, que tudo é comandado pelas informações que passam de um neurotransmissor a outro e talz e quando o encaixe dessas celulinhas não orna, o dito impulso não passa direito, ou a eletricidade não flui, rola um curto-circuito, coisas assim. Um lance de quebra-cabeças eletrostático - perdoem a morbidez do humor na lembrança das milhares de cabeças que foram quebradas e estudadas até chegar nissaê.
Pois bem, nessa lógica aprendi que paixão no sentido popular (não o do messias) referia-se a impulsos elétricos, sudorese, fogo no olhar... não exatamente localizada no cérebro, mas mais embaixo, podendo nascer no plexo solar da caixa do peito ou (descendo ainda mais da goiabeira) na pelve mesmo. E aí as ciências divergem se é o cérebro que mandou os impulsos pra baixo ou se os impulsos subiram e mandam na cabeça, tronco e membros. Mas tudo isso é contr@verso porque nem mesmo se concluiu ainda se a tal da psicanálise é ciência.
De experiência própria, só sei que minha (boa?) educação me disse que era errado apaixonar-se pelas pessoas e que isso só prestava pra sofrer e escrever poesia. Bom mesmo era amar, porque no amor já não cabe eletricidade nenhuma, nem em cima ou embaixo (essas hierarquias bestas), nem corpo repartido, nem (com)ciência. Porque quando a gente ama já não existe mais ego-eu. Quando a gente ama é agente. Ainda que eu tentasse ser uma aluna aplicada em tudo, sempre fui medíocre e não contrariei as estatísticas, tendo me apaixonado inúmeras vezes (desde a idade de 6 anos) até hoje. Na maioria das vezes por pessoas do sexo oposto, mas várias vezes por mulheres da minha idade. Só que daí vem a treta. Apaixonar-se já estava errado em tese. Por pessoas do mesmo sexo parecia ainda mais errado. Mas na minha casa onde só convivi com mulheres, nada mais natural que gostar de mulheres, não? Talvez não.
Só sei que mesmo anarquista convicta, hierarquizei as paradas: amor vale mais, paixão vale menos. Até que li o Manuel Bandeira:

"Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não."

Como eu só tenho este corpo - estreito corpo - para entender o amor e a paixão parei com a tal divisão, hierarquização e separação. Parece que o amor vem mesmo do corpo. Mesmo aquele do messias. Tanto que as pessoas comem o corpo dele. Li também que para ser poeta (e artista) é preciso estar disposto a experimentar tudo. É ter um corpo disponível. Daí que eu sempre estive disponível para os mundos das ideias e nunca das práticas, então quando atravessei a derradeira portada da adolescência - e entenda-se aqui adolescer como um florescer sexualmente, no mundo dos corpos que se entendem - tentei parar de escrever poemas ruins para viver o incomunicável. Aquilo que não cabe nem na palavra esmerilhada de poeta.

Abro grande parêntesis
E é bom já ir deixando claro que acho hipócrita e falta de empatia com a Damares que sofreu abuso sexual na infância ficar chamando ela de histérica e louca. Claro que um messias, um buda, um anjo, orixá ou qualquer ser de luz subiria na goiabeira para consolar uma criança em tal estado de sofrimento mental. Também sofri abuso sexual na infância e quem cometeu foi outra criança. Não cabe hierarquizar de novo porque não se mede sofrimento nem desgraça: o nome já diz que ali não está a graça do amor, das deusas, das musas ou do que seja. Ali os corpos não se entendem, nem as almas. Damares não reagiu com ódio, onde Eros não está está Thânatos. Ela escapou para inaugurar a era do rosa-azul. Eu escapei para sair do armário para minha família evangélica.
Fecho parêntesis

Voltando à fruta comum: maçã. Eva, Lilith, serpente e tudo mais... Mordi. Chupei. Comi. Demorou, mas gozei. Impulsos elétricos. Meus estudos mostram que a neurociência acertou. O amor, a paixão, o ódio, a morte... tudo isso se converte em energia que segue por dutos dentro da gente e flui e nos torna o que somos.
Mas isso não me faz responder com precisão ao "está apaixonada?". Sempre tendo a dizer que sim. Eu sou aquela que se apaixona pela travesti, pela puta. Mitifico antes de tocar. Platonizo ainda. Se beijar então... VirgemdosmeusDesejos!!! Mas cultivo os amores hoje e as paixões com o mesmo esmero.
Gosto de tocar e ser tocada e de estar perto. Tanto minha alma como meu corpo, Bandeira, hoje parece que entendem mais disso.



Você é bi mas não é dois

Você se assume bi e pensa que todos os problemas vão acabar. Ok, é um alívio sem tamanho sair do armário - pelo menos pra mim foi - mas daí tu te descobre um pouco solitária com alguns estigmas que não lhe pertencem:
1) Que você não sabe o que quer sexualmente falando.
Eu sei sim. Quero o fim do patriarcado e do machismo. Pelo menos entre 4 paredes (ou onde quer que a gente se dê) vamos ser livres? Gratiluz, viu!?
2) Que você é volúvel, portanto não é alguém "pra casar".
E pra acabar com minha reputação ainda nasci sob o signo de Aquário, com Vênus em Áries... de Oxumaré. Pois é. Toooda cagada? NÃO! Aquarianas são muito criativas nos rolê de relacionar-se e pessoas cheinhas de amor universal, daí que quando se jogam num lance, segura o Tcham! Só não amarra o Tchans que aqui é Oxumaré e serpente é lisa e passa nas frestas.E esse Áries aí só vem colocar fogo no ar que Aquário me deu.
Em suma, não sou volúvel, bi, mas você precisa saber riscar o fósforo perto de mim.
3) Que você é pegadora e/ou pegajosa.
Se não é isto, é aquilo, se não é aquila é issa. E enquanto a gente vai levando essa fama, deita na cama com gente nada a ver até sacar que pode ser pegadora, pegajosa, pecadora, domadora, bregona, passivona, ativona, solteirona... o que quisermos ser. E até solteira sim, sozinha sim, contrariando a diva pop. São tantas possibilidades, então pra que limites, bi?
4) Que se você está sozinha há algo muito errado com você, porque afinal, seu "cardápio" é muito maior nesse mundo mundial.
#sqñ O que há de errado é o patriarcado e o machismo em todos os seus matizes e raízes. Claro que isso perpassa nossas vidas também porque, né?
Escolher pessoas como num menu de restaurante é algo meio bléqui mírror pra mim. Já tentei, mas não obtive o mesmo sussexo que no téte-a-téte.
Apenas amo e me apaixono por pessoas não por sua genitália. Ponto.
5) Que você é confusa, em cima do muro... que vai trocar o boy por uma mina ou a mina por um boy a qualquer momento.
Ser bi não é uma opinião política, migs.
E eu não vou mudar de time pra torcer por quem está ganhando o campeonato. Issae é uma questão de caráter. Não é por ser bi que não tenho caráter, caráleos!
#ProntoFalei
Afffffmariajesuixesprito!!!
Amém?

Esta voz despenteada pela manhã

Eu quero agradecer ao Temer pelos golpes. Graças a eles vi muita esquerda, direita e até centrão sair de seu lugar de conforto e ir pra rua, pro boteco, pra esquina, pro acampamento, pra Brasília de novo.
Eu quero agradecer ao Bolsonaro pela sua colostomia reversa desde antes da facada. Precisávamos muito de alguém pra expôr a merda e pra todo mundo parar de achar que é branco e classe média, quando na real tamo tudo no mesmo balaio faz tempo.
Mas eu quero agradecer mais é pros griôs erês que frequentam aqui. Quero agradecer aos pastores, mas agradeço mais às pastoras que não querem me converter em ninguém que não sou e que me respeitam quando vou na igreja rezar, mesmo eu já tendo avisado que sou budista macumbeira. E gay. E artista.
Eu quero agradecer a todo mundo que disse não porque a fase da negação faz parte do processo, mas agradeço mais a quem disse sim porque é do sim que nasce a empatia e a compaixão e o abraço e o afeto.
Eu quero agradecer todo mundo que me doou comida, dinheiro, preces, carinho, amizade, visitas, presença e que me ajudou a cuidar da minha mãe. Mas agradeço ainda mais a ela por sobreviver a mim, quando nem eu sei como sobrevivi até aqui.
Eu quero agradecer pelas curas nas quais tropeço todos os dias.
Agradeço até pelo mato que cresce pra me lembrar que tudo ao meu redor tem força, uma força que espelha a minha.
Agradeço por todos os trabalhos, mas especialmente por poder fazer arte em tempos duros.
Se depois de Auchwitz a poesia não faz mais sentido, que eu deixe minha forma humana-palavra para habitar outra coisa... este devir que parece só fumaça soprada pelo fogo que me transformou.

sexta-feira


Papel para escrever para ser palpável.
Conheci uma moça de olhos claros. Era esguia e doce demais e seus estudos versejavam sobre profecias. O muro de sua casa era baixo naquele tempo e Campinas parecia colocada no caminho da gente de propósito para encher o coração de destinos e as linhas das mãos de rasuras.
Pois a moça disse que chegaria um tempo em que seria raro quem escrevesse a mão. Tive um sentimento embrulhado, que nem quando na beira do roçado minha vó disse que chegaria um tempo em que as sementes seriam feitas para dar planta, mas não fruto e haveria muita fome.
Conheci uma mulher de olhos escuros, nariz redondo, rosto moreno, fumava feito homem e dava para uma sereia de calças. Suas leituras miravam um horizonte desenhado numa tal de ficção científica feminista.
Fiquei pensando no tempo em que todos os profetas encarnaram mulheres, nos ventres que pariram armas em vez de gente, quando a voz das pessoas deixou de sair porque não precisava mais e o instinto deixou de ser medicado.

Para todas

O cotidiano, sempre ele arrastando os pés manso e vivo sobretudo nas manhãs.
Em comum: pariram e tem ganas de vida e felicidade.
Vejo o cotidiano marcando sua terra com uma urina pegajosa e ácida, corroendo as paredes, mas o amor não.
O amor vem sobretudo do ventre e é ele que elástico espreguiça o dia.
Uma convive com a dor física, sobe, desce, corta as unhas do menino, aprende o que não sabia, trabalha, toma remédios, caminha pela rua com seu passo curto e constante, mas envelhece mais sem a presença dele. O pai vivo era a menina em pé.
A outra arde, se banha nas águas geladas, cria meninas independentes e se consome por um moço que ela chama de menino, mas já é um homem feito. Bem feito. Envelhece mais sem a presença dele enquanto o pai dedilha cotidianos ao piano.
O cotidiano é um gato que se lambe enquanto assiste como envelhecem as mulheres.

segunda-feira

Flui para dentro no ar que respiro toda coragem que desejo. Vaza para fora no suspiro o desespero.
Escore dentro quando engulo o que me mantém acesa, como acesos são os dias e a cidade viva. Verte para fora quando cuspo um grito que calei por cansaço.

Meu batom e meu esmalte desbotam. Meu caráter não.
Meu juízo e meus movimentos gastam, minha doutrina não.
Meu cabelo cai, meus dentes se perdem mas não meus princípios.
Enquanto isso minha essência dilui no ar e vaga errante, escapa debaixo da porta de algum desavisado.

Fui seduzida pela paisagem
Pisei o chão que foi rocha líquida um dia
Vi as flores caírem, vi o gelo derreter
Senti o vendaval sair no meu sopro
E saltei no ar mesmo ainda sendo lagarta.

in dependência

Eu, Daniela Soledade, a persona artística de Daniela da Silva, venho por meio deste escrito, fazer um relato de experiência.
No outono de 2013, morando em São Carlos/SP iniciei um curso no Espaço Satyros em São Paulo/SP. Viajava cerca de 300 km por via terrestre uma vez por semana, sob o mote inicial de aprofundar meus estudos sobre performance, rever minha cidade natal e conviver com pessoas afins. Perto da efeméride do 7 de setembro, suposta data da independência brasileira das garras da vilania portuguesa, nosso orientador do Satyros lançou o desafio de elaborar uma ação coletiva composta de várias ações performáticas individuais no Parque da Independência. Sabendo da minha não possibilidade de estar presente na data, elaborei uma ação individual planejada para acontecer em 7 de setembro de 2014. Escolhi 7 amigos brasileiros - entre 30 e 39 anos - que vivem fora do país, na Noruega, Argentina, Alemanha e Holanda . Através da rede social operante na ocasião, pedi que eles me enviassem imagens ou palavras que remetessem à ideia de independência no intervalo deste 1 ano a fim de realizar uma ação performática usando este material como tema. Uma pessoa na Alemanha sugeriu o filme “La Belle Verde”.
Assisti ao filme uma vez só numa madrugada de insônia. Após algumas horas de sono, amanheci com os seguintes sintomas: ânsia de vômito, suor, calafrios, diarreia. O filme me provocou uma sensação similar à de uma limpeza, num trabalho de santo daime e ayuhasca. Nestes rituais, por vezes o participante vomita, evacua, urina, chora e estes canais de saída limpam o corpo daquilo que se sente como peso. Tive esta mesma experiência, mas sem fazer uso do chá, nem participar do ritual, tudo foi povocado apenas pelo mergulho de ver o filme. O alívio posterior foi igualmente equivalente e a sensação de paz e harmonia com a natureza também.
A pessoa que vive na Noruega trocou mensagens comigo que me carregaram exatamente para os últimos lugares onde estivéramos juntas nas últimas vezes que nos vimos. Me vi diante de quem eu era e quem me tornei. Quase nos encontramos em São Paulo, mas um contratempo de saúde na família, impediu que nos víssemos e não nos comunicamos mais.
Mudei de cidade, um distrito da cidade de Brotas/SP, num lugar isolado entre estâncias turísticas, plantações de cana-de-açúcar, eucalipto, laranja e alguma mata nativa (Cerrado).
Dentro da minha proposta eu deveria ficar 7 dias antes e 7 dias depois do 7 de setembro sem usar nenhuma “droga” (nenhum fármaco permitido pela lei brasileira, nem alopático, nem fitoterápico, nem homeopático). Nenhuma “droga” não permitida pela legislação brasileira, nenhum tipo de cigarro, nada de álcool, nada de açúcar e nenhuma carne. Tentei preparar meu corpo e minha mente durante um ano e me treinar para abandonar meus próprios vícios (açúcar, álcool e tabaco). Elaborei uma ação que realizaria no dia 7 de setembro em São Carlos que consistia em limpar a fachada de uma agência de um Banco do Brasil com uma réplica barata da bandeira brasileira nas imediações da avenida onde se realiza o desfile da independência. Contudo, cerca de 5 dias antes da ação, meu corpo começou a dar sinais de alerta. Havia deixado de tomar inclusive os remédios fitoterápicos que me tratam da ansiedade e rinite alérgica. Um tempo antes de ficar sem consumir açúcar de nenhum tipo por 14 dias, eu havia feito pequenas experiências de alguns dias; meu apetite e paladar, minha disposição física e concentração mudaram consideravelmente. Perto do período menstrual a necessidade orgânica que eu sentia era por cacau, não açúcar. Mas os sinais de alerta se apresentaram no meio do processo dos 14 dias, novamente aqueles sintomas dando a sensação de que o corpo queria lançar fora uma porção de substâncias ao mesmo tempo. Meu suor, minha urina, minha fome e meu paladar eram outros. Mas entre o quinto e o sexto dia acabei prostrada. Bebia água apenas. Sentia náuseas o tempo todo e fiquei sem me alimentar de nada além de água por 3 dias inteiros. Cabe ressaltar que fez bastante calor e a umidade relativa do ar esteve abaixo do nível esperado. Então veio a fraqueza física e um estado de apatia que me impedia de dar conta das tarefas cotidianas. Também experimentei uma dor de cabeça constante que suportei por 2 dias até quebrar a regra de não tomar medicamentos, quando tomei algumas gotas de dipirona monossódica. A dor passou, mas o abatimento não. Então uma amiga me deu uma solução de cloreto de sódio, cloreto de potássio, citrato de sódio e glicose. O apetite voltou, pude voltar a comer sem sensação de enjôo e a prostração foi me abandonando ao longo dos dias.
Não realizei a ação no 7 de setembro em São Carlos, mas permaneci os demais dias seguindo as regras que me impus, exceto que voltei aos fitoterápicos (passiflora alata, cúrcuma longa e extrato de própolis) antes do dia 14 de setembro.
Na elaboração da ação que se deveria realizar em São Carlos, meu personagem seria a mulher negra que lava pelo lado de fora a fachada da igreja. Tenho a pele clara e cabelo liso, meus avós maternos eram negro e branca e herdei mais da pele dela que dele. Muito embora isso, a morte de meu avô preto foi a primeira que presenciei na família e marcou todos nós com a tinta do inesperado. Em respeito a isso carrego comigo amor pelo povo preto. Essa força e esta presença é que estariam comigo na ação. Porém o que eu deveria lavar não seria uma fachada de igreja, mas a fachada de um dos Bancos do Brasil, que ficam nas imediações da avenida onde ocorre o desfile cívico. A proposta era para mim: abandonar os vícios e abandonar o ódio, apenas limpando humildemente pelo lado de fora este lugar estranho e do qual somos dependentes, o banco. Vestida de branco numa referência à pureza e depois de purificar o corpo. Essa ação pretendia também evocar a faxineira, aquela que ganha a vida, sustenta sua família e sua independência sendo invisível e tirando da frente dos olhos das pessoas aquilo que se considera sujo.
Aparentemente o ódio também causa dependência, pois decidi realizar esta limpeza usando uma bandeira do Brasil, este lugar que me acolhe e me ensina tantas histórias. Eu sempre desconfiei das histórias do Brasil que me contaram e até hoje não acredito nem nos mapas. Meus professores de geografia, geopolítica e educação moral e cívica não disseram mentiras, mas para mim, tudo que pude assimilar, não faz o menor sentido. O Brasil não é nada disso, muito menos uma bandeira. Acho que o meu povo tenta entender como é que gente gerada por estupros possa ainda assim ser capaz de tanta beleza, tanta força e tanta alegria. Eu queria era independência para ser capaz de ter fé nas forças das naturezas do meu País. Eu gostaria de afirmar que minha família e minha origem são fruto apenas do amor, mas isso não é verdade. Eu quis limpar o ódio, a mágoa e a injustiça de que meus antepassados mortos (e vivos) foram sujeitos, com um gesto. Eu quis resumir tudo e ter domínio sobre minha vontade.
Talvez tenha sido muita informação de uma vez, ou talvez eu devesse ter adotado o método de relatos diários, ou outro método qualquer para elaborar e reelaborar a ideia da ação. Talvez eu devesse ter desenhado. Talvez eu tenha só perdido a coragem para realizar tudo isso. Fato é que me senti desamparada pois esperava que as sete pessoas acionadas me falassem sobre o Brasil, ou sobre os países onde hoje vivem. Mas talvez os sete escolhidos também estejam desamparados no estrangeiro, ou tão felizes que nem tem tempo de sentir de saudades daqui.
Cabe dizer que, a meio caminho, pessoas que vivem no Brasil, mas já estiveram em outros países, se interessaram em participar da ação de alguma forma.
Cabe dizer também que esta ação me fez repensar tudo que eu tinha elaborado, experimentado e lido até então sobre drogas lícitas e ilícitas. Eu me peguei pensando que é possível e saudável manter-me fora do álcool e do tabaco, mas tendo colocado a restrição quanto aos remédios incluí até mesmo os chás caseiros. Eu deveria sobreviver sem nenhuma “dependência”, nem mesmo psicológica de remédios. Eu queria sobreviver só de alimentos e água por 14 dias. Talvez eu deva ainda experimentar fazer isso e limpar a “memória” desta maneira, sem a interferência coisas como bandeiras ou ícones vazios de qualquer gênero.
Suportar a dor de cabeça foi quase um exercício de meditação. Um enfrentamento entre a minha força e a força da dor. A intensidade da dor não era muita, a constância é que me venceu. O exercício de auto observação foi profundo, um auto-exílio. Foi como se eu me propusesse o desafio: e se me restasse só meu corpo, comida e água? Afinal só preciso disso para viver. Constatei minha “dependência psicológica” ou “fé” nos remédios - maior que minha fé em deus. A despeito disso, tenho plena ciência de que se me restasse só meu corpo, comida e água, poderia viver e bem por longos anos, tantos quanto ainda houvesse, sem remédios. Com ou sem deus. Deus não enfrenta a dor física por mim, embora possa aliviá-la se ativarmos um acordo amoroso entre nós - caso exista de fato esta separação semântica que obrigue ao uso de mais de um pronome (eu, ele, nós) ou caso a máxima “Vós sois deuses” seja falsa.
Finalizo este relato no outono brasileiro de 2015, ainda buscando liberdade e domínio sobre a vontade. Ainda sem compreender com o corpo palavras como “vício”, “virtude”, “dependência”, “independência”, “remédios” e “cura”. Ainda com saudades de brasileiros que vivem em outros países e por demais saudosa da história do Brasil que escreverei no/com meu corpo.




domingo

A mulher de papel vive

Uma mulher entra derrubando tudo. Tem sotaque, óleo nos cabelos, batom vermelho e perfume demais, tem gordura localizada, bafo de cigarro e peitos já meio gastos na contra luz. À revelia, não é uma mulher desagradável e seus gestos soam numa elegância de epílogo adiado. Contudo o que chama mesmo a atenção é que se trata de uma mulher de papel.
Sinfonia número dois. Acorde perdido numa pilha de diários femininos.



Eu sou a mulher de papel e escrevo meu destino com minha pena. Minha pena versa, reversa, mas não conversa porque tenho coceira em lugares impróprios quando estou no meio de gente de carne e osso, mesmo gente vegetariana me coça aqui e ali. A gente passa, eu sou.
Fibra e tinta. Pena e trança vegetal, num engenho maravilhoso que desemboca no meu corpo papel em branco, em desenho e em palavra. Se me queimarem, gesto. Se me rasgarem, gozo. Se me pintarem, mudo. Se me dobrarem, vinco. Se me molharem, absorvo.
Nasci, pari e morri incontáveis vezes fora do tempo dos homens, esse tempo dos relógios e das religiões. Respiro nas ervas das bruxas, danço com as rainhas negras, as brancas e as santas. Canto na voz das concubinas, as amantes e as putas e as mães. Como minha placenta de papel feito bicho. Visto e dispo, fora do estado de disputa e de palavra da geografia dos homens. Sem honra, sem moral, sem estética e sem estática. Sou a frágil e eterna figura de papel, com cheiro e textura sem notícia.
Sou a paisagem imóvel e ignorante. Sou o contorno da letra feito a carvão. Meu grito é extinto como a seiva que correu na folha. Minha fotossíntese é meu alfabeto extinto. Sou a mulher de papel e cheguei agora aqui sem arquitetura, sem nau, sem noivo, nem nada, só eu e meu corpo dentro desta anunciação, só para lhe dizer que estou viva.

A mulher de papel

Uma mulher sai porta afora. Não tem dinheiro nem roupas, nem grandes ambições. Como é feita de papel teme a chuva, o vento e a tinta. Move-se com graça, quase flutua. Seu rosto é copiado de uma cartilha; seu corpo é colorido com aquarela e seus cabelos são de origami. Os órgãos da página 3 estão rasgados ou rasurados, por isso ela vai sem pressa. Não voltará jamais. Ignora que mulheres de papel são feitas para não ter destino algum. Sorte a sua.
Apud Ópera de Pano, Blues literário escrito por um menino de gelo

A boa educação dita que não devo mencionar certos assuntos. Escatologias, sexo, genocídios e bichos gosmentos seriam portanto proibidos. Sobretudo na hora do almoço. A boa educação dita que não devo ser gregária, devo andar em bando, de preferência constituir família com alguém do sexo oposto a quem devotarei minha vida até que a morte ou uma tragédia de outra sorte nos separe por toda a eternidade e mais uns dias. A etiqueta versa acerca de como devo me vestir e me portar em determinados ambientes. Como devo me dirigir a pessoas que tenham autoridade em assuntos que ignoro, ou que simplesmente tenham uma força maior que a minha.
Daí eu uso o cinto de segurança, utilizo o corrimão, cedo meu lugar, reciclo o lixo, economizo água, vou de bicicleta, sorrio para a foto, escovo os dentes antes de dormir e rezo, oro, medito, tento evitar cigarro e álcool e açúcar em excesso, pratico atividades físicas, mantenho minhas notas acima da média, minhas roupas e unhas limpas, pratico caridade, tenho compaixão por outros seres vivos, não mantenho armas em casa, olho antes de atravessar na faixa de pedestres, procuro ser gentil, pago o que devo, evito o cartão de crédito, mantenho-me conectada às redes sociais sem expor minha vida íntima, procuro ler bastante, desenvolvo minhas habilidades manuais, mantenho meus exames médicos em dia e doo sangue, evito embalagens descartáveis, não jogo lixo no chão, pechincho e economizo dinheiro, procuro ser pontual, como verduras e legumes de maneira equilibrada, respeito idosos e crianças, ofereço flores, evito vícios de toda ordem, uso o fio dental, sento-me no assento que corresponde à minha passagem, uso o condicionador adequado ao meu tipo de cabelo, evito tanto quanto posso a inveja, a gula e a preguiça, sou fiel em meus relacionamentos e cultivo as boas amizades e companhias, levo o guarda- chuva, evito palavras ásperas, confiro o troco, costuro as roupas rotas, evito gordura, tenho zelo e ética no meu trabalho, lavo o banheiro com capricho, desligo o celular em espetáculos públicos, uso filtro solar, não piso na grama, rego as plantas, felicito os aniversariantes e vencedores, esqueço as mágoas, me comovo com as tragédias, sei a hora de falar e de ouvir, durmo e como o suficiente, sou precavida com a luxúria, os jogos de azar e videogame, não entro sem ser convidada, desconfio de alguns jornais e alguns programas de TV, tenho o suficiente para viver, planto o livro, escrevo o filho e faço a árvore, aceito os presentes, tenho alguma sorte, evito o orgulho, o rancor e os transtornos psicossomáticos, contemplo o nascer da lua e o desabrochar das flores, colho os frutos no tempo e não uso defensivos agressivos ao ambiente, tenho fé no milagre das ciências e na lógica das religiões.
Mas tudo que eu queria era ser uma mulher de papel. De um papel delicado desenhado com uma grafia caprichosa, num alfabeto primitivo e morto. Um papel colorido com o qual a criança pobre pudesse fazer seu pipa que acabaria preso no galho mais alto da árvore velha. Daí a minha profissão e incumbência única seria deixar-me dobrar e rasgar e recortar com a tesoura.
Tudo que eu gostaria de ser era a mulher de papel. Então minha obrigação seria virar folha de rascunho e recados. Ir parar dentro de um livro de receitas meio sujo de farinha e manteiga. Deixar-me estar lá esquecida e sem nenhuma importância.
Ser a mulher de papel onde se anota o telefone ou o bilhete que é preciso queimar. O lenço contaminado num hospital. O livro antigo sem capa.
Sem gozo, nem futuro, nem família. Ignorar por completo a solidão e a liberdade.
Por isso, se hoje eu encontrar o gênio da lâmpada, meu único pedido será: quero ser a mulher de papel, nua e vulnerável a qualquer mão, qualquer líquido, qualquer cesto de papeis.

sexta-feira

Conto expresso de sacanagem

Lia revistas, livros caros, vídeos raros, todos sobre o mesmo assunto: sexo!
Mas só foi feliz mesmo no dia em que escaneou o pau e colocou no jornal.

terça-feira

A terra não é cenário pros desenredos da gente

As cordas da viola caipira alastram feito raiz braba tangendo para longe tudo que desenfeita o luar do sertão. O poeta sertanejo embola no pandeiro o som que embala cada batida da sua enxada na terra seca nordestina. Uma senhora dança tão viva que pega parecença com rio.
Artistas do mato não faltam. Tem escultor, pintor, escritor, cantador, uma fartura! Natureza inspira arte, fluência, encantamento. Arte cria naturezas novas na pessoa que não se deixa endurecer pelas pedras das cidades. Se a natureza adoece, a arte se manifesta. A Terra não é só cenário pros desenredos da gente. Ela é uma coisa viva dançando linda no espaço; dum só sacolejo dela morrem e brotam milhões de criaturas.
Daí veio essa mania de falar em “meio ambiente”, “ecologia” como se fossem coisas que estão pra fora da gente. Em caboclo de verdade até cresce mato dentro. A gente é solo fértil pra tudo, se não arar as ervas daninhas alastram.
Os filhos desta Terra pegaram de viver torto, onde já se viu colocar cerca até em semente? O nome é até sonoro “monopólio”, “transgenia”, mas sabe-se lá o que é isso?! Nesta selva das cidades onde um engole o outro, o valor que as pessoas tem não pode ser impresso em papel moeda. Se o valor que a gente tem é de mudar as coisas, que se mude para o bem.

(texto originalmente publicado no jornal A Caipora da Escola CAASO)

Terapeuta

Terapia I


Não vá. Preciso muito falar com vc. Eu amo falar com vc. Não entenda isso como uma cobrança, mas vc leu o que eu te escrevi?... Me desculpe. Acho que eu sou muito invasiva. É que quase não consigo conversar com ninguém. Acho que, na verdade, a maioria dos meus namorados serviam mais pra conversar. Essa coisa de sexo acho que eu até desenvolvi bem quando separei do amor, mas agora pra juntar de novo tá foda.
Senta aí, vamos comer alguma coisa, por favor. Então, na verdade não era pra falar de sexo, mas... ou melhor era sim, mas não tenho coragem. ...É, agora já comecei. Eu não sei conversar sobre nada eu só disfarço muito bem, ou muito mal. Nem mentir eu sei. ... Tô. Tô tentando mudar de assunto. (suspiro) Mas pra ser sincera me incomoda sua recusa. Eu ainda não entendi bem se é uma recusa mesmo mas suponho que sim. É que eu nem sei como vc é para essas coisas, mas eu sou muito complexada ainda e sempre acho que é algo errado comigo... sabe eu vi um filme uma vez... Encontros e Desencontros, já viu? Eles nem se beijam, mas precisam se encontrar toda noite e conversam... Acho que é isso. Não lembro quando é a primeira vez que eles se tocam, mas foi parecido com o sonho que eu tive com vc...tive vergonha de te contar essa parte... é, eu não contei todo. Tinha um pedaço em que eu estava muito cansada, com muito sono e tinha uma galera dormindo no salão social e já era segunda-feira e ia ter sua aula, enfim. A gente ficava lá e vc chegava para dar aula e vinha conversar comigo e eu te contava o que tava acontecendo, mas eu tinha acabado de acordar e tava com muito sono. Daí vc deixava eu encostar no seu ombro e cochilar e vc tinha um cheiro parecido com o daquele incenso. Era isso... Por que eu tive vergonha? Ah,... Eu . .. Eu acho... Acho que porque fiquei pensando que vc não deixaria de verdade eu fazer isso e porque eu penso que vc tem um pouco de medo de mim, às vezes. Eu construí essa imagem pras pessoas de porra-louquice e eu não sou assim. Às vezes eu preciso de socorro e não sei pedir... desculpa. Que vergonha, chorar na sua frente... É. Você tem razão. Nossa! Que merda! Desculpa. Se você for embora... é, eu já disse isso uma vez. Eu fico triste mesmo quando você vai embora, eu queria ficar mais tempo perto de você. Naquele dia eu queria ter falado com você, mas eu sou uma idiota bêbada. Eu começo a perceber que beber tira a minha coragem, não existe beber pra criar coragem. Eu fujo do amor das pessoas também, eu sei como é. .. Não. Você me entendeu mal. Realmente vc tem razão quando diz que eu viajo, eu costumo confundir as coisas. Fala vc agora. ... A minha voz? A sua voz no rádio eu nunca ouvi, mas deve ficar bonita. Eu não gosto da minha voz. ... Vc ficou assistindo a gente naquele dia. Parecia mal, mas eu fiquei sem jeito de perguntar. Quando eu tô bêbada tenho medo de dizer alguma coisa que possa te constranger ou me constranger. ... Tipo o quê?! Agora vc me constrangeu. ... Claro que tem um monte de coisas que eu falaria pra vc bêbada que eu não falaria sóbria. ... Agora eu estou sóbria. ... Tá bom. Deixa eu pensar naquele dia especificamente. Por exemplo naquele dia, eu fiquei a fim de pedir pra dormir na sua casa, mas eu imaginei que vc ia dizer que não dava e eu poderia te falar alguma coisa sobre vc ter medo ou não confiar em mim, sei lá. Eu nem sei se vc ainda gosta dessa mulher de quem vc me falou naquele dia por exemplo. Eu tenho alguns homens que eu amo também e com quem não resolvi as coisas direito ainda. ... Estão longe, vc tá aqui. ... É que eu já tentei algumas vezes. Sei lá. Acho que eu tô te cansando. ... Já falei sim. ...Vamos. Eu te deixo na porta da sua casa.


Terapia II

Agora sua lembrança para mim é um cheiro.
Eu prolongo a aspiração de sua lembrança.

Terapia III

Sim. Se é pra responder tua pergunta, sou uma mulher romântica sim. Você é que não é nada galante. Procura minha amiga e foge de mim. Naquele dia eu tinha conversado já com o primeiro cara que eu pedi em casamento. Ele riu da minha sinceridade.
Acho que eu preciso ser sincera mais vezes. Essa história de romantismo faz a gente mentir pra caralho. Sobretudo pra nós mesmos.

Terapia IV

Foi ridícula sua pergunta. Eu vou até você. Fico ao seu lado sem conseguir sair fora até umas horas. Depois, sem alternativa sua – traumatizado com mulheres que bebem - vou embora e transo a noite inteira com o cara que é a fim de mim. E pela manhã vc pergunta onde eu estive? Sou romântica, mas vá se foder!
Ao menos aprendi com vc o que é uma acelga.

Terapia V

É que imagino que seria um pouco melhor com vc, só isso. Agora já estou melhor, mas vc me fez mal...

Terapia VI

Me disseram para vir até aqui pra gente conversar. Eu não sei o que devo dizer. Esqueci o que devia te falar. Já disse que não sei conversar. Pra falar a verdade, meu amor por vc é leve. Só fiquei chateada com aquela história de bebida. De beber e ficar rude.
É, acho que só fiquei chateada porque a gente, quando sente desejo e ouve um não, não sabe o que fazer do corpo. Logo vc que me orienta sobre meu corpo. Acho que meu corpo associou vc àquele cheiro de incenso e te assimilei diferente. E também preciso dizer de quanto contente fiquei de segurar sua mão, mas isso vc já sabe. Era só isso que eu tinha pra falar.

Terapia VII

Agora a gente conversa tranqüilo e te encontrar namorando não me ofende os sentidos. Vejo você fazendo tudo que eu queria fazer ao lado de alguém como vc, enquanto que eu sigo só e seguia ainda quando estava junto da minha última companhia. Obrigatória e escolhidamente só. Fico feliz por vc, mas um pouco frustrada. Penso que deveria parar de beber mesmo. Não dá pra comportar mais em mim isso que me deixa frágil e forte, talvez até rude mesmo, como vc disse. Aquilo que parece deixar-me livre e me prende em mim e nas minhas palavras mais sinceras. Ninguém quer saber de sinceridade nesse mundo.

segunda-feira

Entrevista

Já fui musa sim. É legal. Pessoas interessantes querem se aproximar de você e dizem coisas interessantes.
(...)
Já. Já fui feia também. Dá um certo trabalho porque você faz um esforço pra ficar bonita. Perde um tempo nisso e tal. Mas a parte boa é encontrar pessoas sensíveis. Pessoas que passam muito tempo tentando mudar sua imagem e tentando agradar aos outros são possuidoras de uma vaidade digna, né? Pelo menos nos soa assim.
Mas você pergunta isso por quê? A feiúra, as deformações do corpo incomodam você?
(...)
É. Eu percebi uma coisa maravilhosa... que a liberdade não tem nada a ver com recusar ser como um líder, um mestre. Liberdade é não ter nenhum guru, nenhum mestre fora. Porque você não precisa. Tudo que você precisa está dentro.
Isso parece de um egoísmo extremo, não é? É uma sabedoria que as crianças tem.
(...)
Eu já atravessei uma cidade só pra ouvir o que uma pessoa ia dizer. Eu já atravessei um oceano pra tomar uma cerveja com uma amiga. São feitos maravilhosos. Posso chamar isso de obra.
(...)
Não sei como te responder isso. A sexualidade é a coisa mais viva em qualquer cultura. Veja bem que eu disse cultura. Não falei em civilização.

Fascistas

Conheço fascistas. Eles dão um jeito de entrar na sua casa. Roubam seu tempo. Tentam te engravidar. Fazem você se sentir menos. Vão embora como se nada tivesse acontecido.

Tempo relativo

Pouco tempo.
Ter o próprio dinheiro. Sepultar os mortos. Festejar os encontros. Lamentar as desgraças. Proteger as crianças.
Muito tempo.
Sepultar o dinheiro. Proteger os encontros. Lamentar os mortos.Festejar as crianças. Ter a própria desgraça.

domingo

Ele e ela

Ele vem até minha casa. Segura minha mão devagar e diz que sente saudades.
Ele não responde minhas cartas. Evita falar comigo e diz que mereço conhecer alguém melhor.
Ele acorda de madrugada pra me atender chorando ao telefone.
Ele não diz que me ama, simplesmente me beija.
Ele dança comigo entregue. Rodopia no ar e morde meu pescoço.
Ele me manda mensagens pornográficas pelo celular, mas acha sexo algo sujo.

Ela sente ternura e nostalgia.
Ela tem ciúmes e raiva.
Ela escreve poemas sem nexo.
Ela quase foge.
Ela quase comete uma loucura.
Ela manda flores.

terça-feira

este tempo que me apraz

Me aprazem tempos como estes que ora vivemos
Quando de repente alguém se dá conta de que Lennon tinha razão e realmente todos precisamos é de amor, não de guerra. Quando uma criança aparece na televisão fumando craque e diz coisas com muito mais coerência que qualquer presidente. Quando alguém vê a polícia levar os pertences de um mendigo e se comove e decide fazer alguma coisa. Quando a poesia está em todas as partes, seja no rap, seja nas crianças.
São tempos de mudança, são ventos de mudança sim. Mas, não se iluda. Mudança só acontece com vulcão e tempestade. Com miséria e riqueza de novo jogadas pra cima. Por que mudança só acontece mesmo é dentro. Tempo só existe mesmo é dentro - pelo menos por enquanto aqui nesta vida. Mudança não é novo começo. Começar de novo a mesma merda, dá na merda de sempre.
São tempos de virar, mexer... cutucar de verdade, enfiar o dedo na ferida, tascar o beijo na boca antes que a gente acabe. Que, como dizia minha vó, "O mundo não acaba. O que acaba são as pessoas"
"É pracabá!"
Nesse mundão de meu deus cadeia é pra hôme, fogão é pra mulher. E poder é uma palavra gasta. Só isso.
Aqui quem vos fala sou eu, a voz desta androginia perdida. Aquela-aquele que busca o elo que está para além do encaixe bonito do sexo. Aquele-aquela que voltando a ser um, terá finalizado a odisséia.
Aqui quem vos fala é quem anseia o silêncio, o grande silêncio da Morte.
O silêncio de quem não é jamais silenciado. O silêncio infinitesimal entre uma nota e outra.
A abolição das palavras, essa prisão invisível de última geração! Aprisionou os saberes. Aprisionou o verdadeiro lado racional do homem, este bípede implume. Nunca uma definição foi tão acertada.

Me aprazem tempos como este de agora. Onde os segundos são contados no seu banco de horas. Porque embora eu seja péssima de matemática, adoro ficar contando. Sou péssima de lógica porque tenho preguiça de prestar atenção. Prestar atenção é um serviço muito sério que deveria ter pagamento previsto no banco de horas de todo mundo.
Estes tempo me apraz só porque estou viva dentro dele. Viva, em pé e nua. Não quero parecer bonita, não quero parecer útil. Estou aqui. Sozinha. Dentro deste tempo que me apraz.


sexta-feira

Separação

Ela abriu a porta e desceu a escada. Viu os jornais em cima da mesa. Controlou a vontade de vomitar e daí ficou esperando passar olhando as paredes brancas.
Ele chegou em seguida, tentando não fazer barulho e tropeçando nos degraus. Não conseguiu dormir pensando nela. Deitado de costas lembrava do cheiro da roupa dela e do suor.
Ela desligou o telefone e apagou a luz. O mal estar tinha passado e sentiu o sono se aproximar.
Horas depois ela sonhava com cisnes mortos num lago enquanto ele tentava ler um artigo sem conseguir se concentrar. Tinha havido pelo menos ternura.
Agora estavam separados por quatro cidades, dez dias e duas cápsulas de remédio.