Páginas

quarta-feira

Sopro fogo
E acende em mim
um pavio curto
do molotov-bumerangue
Afundo água
E no meu raso
um dreno-vórtice
Cuspo ar
E meu hálito
estreita o nada
dentro do pulo-gravidade
Gero grão
meus caroços-dunas
chovem desbarrancando
a moviola
numa sala de cinema

quinta-feira

As Mulheres Negras
um homem branco
ele nega
ElasSão

Elas Somos
Elas Sãs
um homenzinho só
Elas Não

Elas negam
ele nada
ele mata
Elas Sim

Mulheres Negras
homem branco
Giro, pele de tambor
ele nada e morre na praia

quarta-feira

ausência de doenças
eu sou o vírus
eu sou a peste
faltam crenças
eu sou o cristo
o sudário ungido
pelo espírito
não tem tempestade
não tem cor
eu sou a catarse
a fama, a fúria
a festa, a fome
eu sou o cordão
amarro bem
tudo que verte
das minhas palavras
lanço ao mar
eu sou o sal


ausência de peixes

note

soul placid
so quiet
soul hard
so slowly

sou só
soul me
nota sol
and rain into myself

quinta-feira

Biópsia

Minha religião é o silêncio dos homens
Minha cor é o rouge das putas
Minha profissão é a grade dos viveiros
Minha formação é na rua que não é minha
na casa de muro caído
na pista dos rastros mancos

Meu manto é toda minha doença

A última puta

Foram todos embora
Fiquei na casa vazia depois da festa
Única convidada, última conviva
Nenhum perigo ao redor
Nenhum abismo
Só uma solidão malvestida mostrando os dentes
Me convidando a dançar com ela
Me pega pela mão esquerda
Agarra minha cintura
Minha solidão tem cheiro de puta feliz
Ando sem saco
para poeminhas
Não carrego
mais isqueiros
nem aceito drinks
Não faço convites
Não vou
Ando sem saco
para pássaros
Não coleciono
mais penas
nem sambo
nem preciso girar
para ficar tonta
Não vou
Ando sem saco
para a hora certa
Eu me adianto
no atraso
Nem olho mais
o ponteiro
dos minutos
Não volto
Não vou
Ando sem saco
para alegrias
e lágrimas
e surpresas
Ando sem saco
para gente boa
para gente má
para gente bela
para gente feia
para gente
Bicho eu tolero
Bicho até quero
Mas não vou
Ando sem saco
pra rima rica
rima pobre
pra futebol
pra música ao vivo
música morta
Cantar eu gosto
Mas não vou

Meus sentidos
Esgotaram
Não quero
Não vou

ChuvEU

Nada cinza. Naquele dia estava tudo chumbo e branco. Ela só segurou minha mão, segurou e foi. Confiou e eu chorei porque ela confiou, chorei porque não sabia quando ia poder ver os olhos dela de perto de novo, nem quando poderia ouvir sua voz alegre pela manhã, nem quando poderia sentir de perto de novo o cheiro dela que era o mesmo da minha vó que já se foi. Eu queria poder cuidar dela mais um pouco, mas não estava mais podendo me por em pé sozinha.
Eu comecei a adoecer da cabeça e então segurei na mão dela e ela foi.
Me disseram que eu fiz muito, mas não cri.
Me disseram que ela seria bem cuidada mas não cri.
Me disseram que tudo ficaria bem mas não cri.
Eu chovo, mãe. Verto água, adentro as águas de Oxum, procurando você na natureza. E até na minha natureza eu te procuro, minha natureza ruim adoecida agora de não saber o que fazer de mim.

domingo

Preferi
Tirar o dia
Pra ver
Como o menino
Habita o céu
Da pipa

Preferi
Tirar a tarde
Pra boiar
Com o curumim
Rente à pele de Nanã
Solta n'Oxum

Preferi
Tirar a dor
Com água
Sem sabão
Pra ficar suja
De mim

Porque se eu for pelo ralo
Vai ser solitário demais
Um traço em falso
Por folhas tortas
Risco descalço
Canetas-portas

Eu te desenho
Rascunho chaves
No fino engenho
Transpiro agave

Um ponto, um traço
Corre a caneta
Estico o braço
Da letra preta

Mas não alcanço
O ideograma
O papel é manso
Surdo anagrama

Então apago
Teu corpo escrito
Meu verso gago
De tão bonito