Uma palavra não me define.
De quantos filósofos masculinistas precisamos para concluir que a única conclusão é a morte? Sei lá. Não passei no vestibular pra filô e meus estudos autodidatas nesse sentido não andam quantitativos, conquanto acho significativo o que tange ao afetivo.
Posto que tava pensando essa semana sobre amor e paixão. Nunca sei o que responder quando perguntam se estou apaixonada. Isso incomoda um pouco.
Diz que paixão tem aquela do messias na cruz, o sofrimento extremo de dar a vida pelo outro. O ápice da compaixão e do amor por todos os serhumaninhos. E aí as coisas dão uma pulada aleatória nas ligações neurotransmissoras da eletricidade cerebral aqui; reza a cartilha das neurociências que somos impulsos elétricos, que tudo é comandado pelas informações que passam de um neurotransmissor a outro e talz e quando o encaixe dessas celulinhas não orna, o dito impulso não passa direito, ou a eletricidade não flui, rola um curto-circuito, coisas assim. Um lance de quebra-cabeças eletrostático - perdoem a morbidez do humor na lembrança das milhares de cabeças que foram quebradas e estudadas até chegar nissaê.
Pois bem, nessa lógica aprendi que paixão no sentido popular (não o do messias) referia-se a impulsos elétricos, sudorese, fogo no olhar... não exatamente localizada no cérebro, mas mais embaixo, podendo nascer no plexo solar da caixa do peito ou (descendo ainda mais da goiabeira) na pelve mesmo. E aí as ciências divergem se é o cérebro que mandou os impulsos pra baixo ou se os impulsos subiram e mandam na cabeça, tronco e membros. Mas tudo isso é contr@verso porque nem mesmo se concluiu ainda se a tal da psicanálise é ciência.
De experiência própria, só sei que minha (boa?) educação me disse que era errado apaixonar-se pelas pessoas e que isso só prestava pra sofrer e escrever poesia. Bom mesmo era amar, porque no amor já não cabe eletricidade nenhuma, nem em cima ou embaixo (essas hierarquias bestas), nem corpo repartido, nem (com)ciência. Porque quando a gente ama já não existe mais ego-eu. Quando a gente ama é agente. Ainda que eu tentasse ser uma aluna aplicada em tudo, sempre fui medíocre e não contrariei as estatísticas, tendo me apaixonado inúmeras vezes (desde a idade de 6 anos) até hoje. Na maioria das vezes por pessoas do sexo oposto, mas várias vezes por mulheres da minha idade. Só que daí vem a treta. Apaixonar-se já estava errado em tese. Por pessoas do mesmo sexo parecia ainda mais errado. Mas na minha casa onde só convivi com mulheres, nada mais natural que gostar de mulheres, não? Talvez não.
Só sei que mesmo anarquista convicta, hierarquizei as paradas: amor vale mais, paixão vale menos. Até que li o Manuel Bandeira:
"Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não."
Como eu só tenho este corpo - estreito corpo - para entender o amor e a paixão parei com a tal divisão, hierarquização e separação. Parece que o amor vem mesmo do corpo. Mesmo aquele do messias. Tanto que as pessoas comem o corpo dele. Li também que para ser poeta (e artista) é preciso estar disposto a experimentar tudo. É ter um corpo disponível. Daí que eu sempre estive disponível para os mundos das ideias e nunca das práticas, então quando atravessei a derradeira portada da adolescência - e entenda-se aqui adolescer como um florescer sexualmente, no mundo dos corpos que se entendem - tentei parar de escrever poemas ruins para viver o incomunicável. Aquilo que não cabe nem na palavra esmerilhada de poeta.
Abro grande parêntesis
E é bom já ir deixando claro que acho hipócrita e falta de empatia com a Damares que sofreu abuso sexual na infância ficar chamando ela de histérica e louca. Claro que um messias, um buda, um anjo, orixá ou qualquer ser de luz subiria na goiabeira para consolar uma criança em tal estado de sofrimento mental. Também sofri abuso sexual na infância e quem cometeu foi outra criança. Não cabe hierarquizar de novo porque não se mede sofrimento nem desgraça: o nome já diz que ali não está a graça do amor, das deusas, das musas ou do que seja. Ali os corpos não se entendem, nem as almas. Damares não reagiu com ódio, onde Eros não está está Thânatos. Ela escapou para inaugurar a era do rosa-azul. Eu escapei para sair do armário para minha família evangélica.
Fecho parêntesis
Voltando à fruta comum: maçã. Eva, Lilith, serpente e tudo mais... Mordi. Chupei. Comi. Demorou, mas gozei. Impulsos elétricos. Meus estudos mostram que a neurociência acertou. O amor, a paixão, o ódio, a morte... tudo isso se converte em energia que segue por dutos dentro da gente e flui e nos torna o que somos.
Mas isso não me faz responder com precisão ao "está apaixonada?". Sempre tendo a dizer que sim. Eu sou aquela que se apaixona pela travesti, pela puta. Mitifico antes de tocar. Platonizo ainda. Se beijar então... VirgemdosmeusDesejos!!! Mas cultivo os amores hoje e as paixões com o mesmo esmero.
Gosto de tocar e ser tocada e de estar perto. Tanto minha alma como meu corpo, Bandeira, hoje parece que entendem mais disso.
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quinta-feira
terça-feira
Onde dói a força
Ela me contou que ganha mil reais e paga seiscentos de aluguel. Que criou o filho até sua primeira infância sem receber pensão pra provar que podia. Ela cuida da mãe, trabalha quarenta horas semanais, cuida da casa, vai no samba e está sempre online. Ela namora, cozinha, vende, provê, organiza, cura, ora, dirige, fala pelos cotovelos, mas cala bem onde dói.
Ela me contou que no começo era conhecida por ser a irmã dos meninos. Depois que cresceu virou a irmã do cara da banda. Depois que casou virou a mulher do hômi. Depois que teve filho virou a mãe da menina. Ela nunca foi ela. Ela faz arte, sabe fazer partos, produzir artistas, cozinha, lava, organiza, cura e gargalhando conta que seu bom humor é mau. Mas cala bem onde dói.
Ela me contou que está sem paciência pra ele porque é tudo novo agora com as crianças e ele é lesado e não tem noção de nada. Não quer morar com ele, não quer depender dele pra nada. Quer provar que pode criar as filhas sozinha. Estuda, trabalha, amamenta, ajuda a mãe, organiza, faz arte, vende, cozinha, dança, pesquisa. Mas cala bem onde dói.
Ela me contou que a mãe batia e o pai não dizia nada, que sua filha tem depressão, que o namorado traiu, mas agora ela não tá mais nem aí. Ela já se aposentou mas ainda trabalha, cozinha, faz dieta, artesanato, fotografa, fala pelos cotovelos. Tem dias que cala bem onde dói.
Ela me contou que se apaixonou, mas que ele quis uma relação aberta. Ela ficou com ciúmes e se sentiu culpada pelo apego e por não ser espiritualmente evoluída pra aceitar ele com outras pessoas. Ela chorou quando doeu e depois foi embora. Jogou suas roupas fora, doou seus livros, vendeu os discos e o carro e comprou passagem só de ida.
Ela me contou que só muito tarde é que teve um orgasmo na vida, que conta nos dedos os namoros que teve e que seu coração agora está vazio. E cala bem onde dói.
Ela me contou que ainda sente vontade de transar com ele, mesmo depois do abuso e das outras agressões. Ela saiu solteira pra beijar homens e mulheres, mas como só tinha ele na cabeça ficou só.
Ela escreveu uma declaração de amor pra si mesma.
A outra deixou o filho com o pai e saiu solteira pela noite enluarada.
Uma ainda fez o mapa astral todinho do rapaz pra ver se combina com o seu.
Eu ouvi tudo calada, suspirando bem onde dói.
(não há personagens fictícias neste conto)
Ela me contou que no começo era conhecida por ser a irmã dos meninos. Depois que cresceu virou a irmã do cara da banda. Depois que casou virou a mulher do hômi. Depois que teve filho virou a mãe da menina. Ela nunca foi ela. Ela faz arte, sabe fazer partos, produzir artistas, cozinha, lava, organiza, cura e gargalhando conta que seu bom humor é mau. Mas cala bem onde dói.
Ela me contou que está sem paciência pra ele porque é tudo novo agora com as crianças e ele é lesado e não tem noção de nada. Não quer morar com ele, não quer depender dele pra nada. Quer provar que pode criar as filhas sozinha. Estuda, trabalha, amamenta, ajuda a mãe, organiza, faz arte, vende, cozinha, dança, pesquisa. Mas cala bem onde dói.
Ela me contou que a mãe batia e o pai não dizia nada, que sua filha tem depressão, que o namorado traiu, mas agora ela não tá mais nem aí. Ela já se aposentou mas ainda trabalha, cozinha, faz dieta, artesanato, fotografa, fala pelos cotovelos. Tem dias que cala bem onde dói.
Ela me contou que se apaixonou, mas que ele quis uma relação aberta. Ela ficou com ciúmes e se sentiu culpada pelo apego e por não ser espiritualmente evoluída pra aceitar ele com outras pessoas. Ela chorou quando doeu e depois foi embora. Jogou suas roupas fora, doou seus livros, vendeu os discos e o carro e comprou passagem só de ida.
Ela me contou que só muito tarde é que teve um orgasmo na vida, que conta nos dedos os namoros que teve e que seu coração agora está vazio. E cala bem onde dói.
Ela me contou que ainda sente vontade de transar com ele, mesmo depois do abuso e das outras agressões. Ela saiu solteira pra beijar homens e mulheres, mas como só tinha ele na cabeça ficou só.
Ela escreveu uma declaração de amor pra si mesma.
A outra deixou o filho com o pai e saiu solteira pela noite enluarada.
Uma ainda fez o mapa astral todinho do rapaz pra ver se combina com o seu.
Eu ouvi tudo calada, suspirando bem onde dói.
(não há personagens fictícias neste conto)
quinta-feira
Quer chá de quê?
Queria fazer uma poesia com o tempero da sua comida
Uma coleção de rimas em troca da sua coleção de discos
Queria respirar dentro da sua boca debaixo da água
Um pranayama e um mudra soprado na nuca da tempestade
Quero me oferecer para ser bebida
Em um rito bem laico nas glândulas lotadas de hormônios hermafroditas
Uma coleção de rimas em troca da sua coleção de discos
Queria respirar dentro da sua boca debaixo da água
Um pranayama e um mudra soprado na nuca da tempestade
Quero me oferecer para ser bebida
Em um rito bem laico nas glândulas lotadas de hormônios hermafroditas
Você é bi mas não é dois
Você se assume bi e pensa que todos os problemas vão acabar. Ok, é um alívio sem tamanho sair do armário - pelo menos pra mim foi - mas daí tu te descobre um pouco solitária com alguns estigmas que não lhe pertencem:
1) Que você não sabe o que quer sexualmente falando.
Eu sei sim. Quero o fim do patriarcado e do machismo. Pelo menos entre 4 paredes (ou onde quer que a gente se dê) vamos ser livres? Gratiluz, viu!?
2) Que você é volúvel, portanto não é alguém "pra casar".
E pra acabar com minha reputação ainda nasci sob o signo de Aquário, com Vênus em Áries... de Oxumaré. Pois é. Toooda cagada? NÃO! Aquarianas são muito criativas nos rolê de relacionar-se e pessoas cheinhas de amor universal, daí que quando se jogam num lance, segura o Tcham! Só não amarra o Tchans que aqui é Oxumaré e serpente é lisa e passa nas frestas.E esse Áries aí só vem colocar fogo no ar que Aquário me deu.
Em suma, não sou volúvel, bi, mas você precisa saber riscar o fósforo perto de mim.
3) Que você é pegadora e/ou pegajosa.
Se não é isto, é aquilo, se não é aquila é issa. E enquanto a gente vai levando essa fama, deita na cama com gente nada a ver até sacar que pode ser pegadora, pegajosa, pecadora, domadora, bregona, passivona, ativona, solteirona... o que quisermos ser. E até solteira sim, sozinha sim, contrariando a diva pop. São tantas possibilidades, então pra que limites, bi?
4) Que se você está sozinha há algo muito errado com você, porque afinal, seu "cardápio" é muito maior nesse mundo mundial.
#sqñ O que há de errado é o patriarcado e o machismo em todos os seus matizes e raízes. Claro que isso perpassa nossas vidas também porque, né?
Escolher pessoas como num menu de restaurante é algo meio bléqui mírror pra mim. Já tentei, mas não obtive o mesmo sussexo que no téte-a-téte.
Apenas amo e me apaixono por pessoas não por sua genitália. Ponto.
5) Que você é confusa, em cima do muro... que vai trocar o boy por uma mina ou a mina por um boy a qualquer momento.
Ser bi não é uma opinião política, migs.
E eu não vou mudar de time pra torcer por quem está ganhando o campeonato. Issae é uma questão de caráter. Não é por ser bi que não tenho caráter, caráleos!
#ProntoFalei
Afffffmariajesuixesprito!!!
Amém?
1) Que você não sabe o que quer sexualmente falando.
Eu sei sim. Quero o fim do patriarcado e do machismo. Pelo menos entre 4 paredes (ou onde quer que a gente se dê) vamos ser livres? Gratiluz, viu!?
2) Que você é volúvel, portanto não é alguém "pra casar".
E pra acabar com minha reputação ainda nasci sob o signo de Aquário, com Vênus em Áries... de Oxumaré. Pois é. Toooda cagada? NÃO! Aquarianas são muito criativas nos rolê de relacionar-se e pessoas cheinhas de amor universal, daí que quando se jogam num lance, segura o Tcham! Só não amarra o Tchans que aqui é Oxumaré e serpente é lisa e passa nas frestas.E esse Áries aí só vem colocar fogo no ar que Aquário me deu.
Em suma, não sou volúvel, bi, mas você precisa saber riscar o fósforo perto de mim.
3) Que você é pegadora e/ou pegajosa.
Se não é isto, é aquilo, se não é aquila é issa. E enquanto a gente vai levando essa fama, deita na cama com gente nada a ver até sacar que pode ser pegadora, pegajosa, pecadora, domadora, bregona, passivona, ativona, solteirona... o que quisermos ser. E até solteira sim, sozinha sim, contrariando a diva pop. São tantas possibilidades, então pra que limites, bi?
4) Que se você está sozinha há algo muito errado com você, porque afinal, seu "cardápio" é muito maior nesse mundo mundial.
#sqñ O que há de errado é o patriarcado e o machismo em todos os seus matizes e raízes. Claro que isso perpassa nossas vidas também porque, né?
Escolher pessoas como num menu de restaurante é algo meio bléqui mírror pra mim. Já tentei, mas não obtive o mesmo sussexo que no téte-a-téte.
Apenas amo e me apaixono por pessoas não por sua genitália. Ponto.
5) Que você é confusa, em cima do muro... que vai trocar o boy por uma mina ou a mina por um boy a qualquer momento.
Ser bi não é uma opinião política, migs.
E eu não vou mudar de time pra torcer por quem está ganhando o campeonato. Issae é uma questão de caráter. Não é por ser bi que não tenho caráter, caráleos!
#ProntoFalei
Afffffmariajesuixesprito!!!
Amém?
Esta voz despenteada pela manhã
Eu quero agradecer ao Temer pelos golpes. Graças a eles vi muita esquerda, direita e até centrão sair de seu lugar de conforto e ir pra rua, pro boteco, pra esquina, pro acampamento, pra Brasília de novo.
Eu quero agradecer ao Bolsonaro pela sua colostomia reversa desde antes da facada. Precisávamos muito de alguém pra expôr a merda e pra todo mundo parar de achar que é branco e classe média, quando na real tamo tudo no mesmo balaio faz tempo.
Mas eu quero agradecer mais é pros griôs erês que frequentam aqui. Quero agradecer aos pastores, mas agradeço mais às pastoras que não querem me converter em ninguém que não sou e que me respeitam quando vou na igreja rezar, mesmo eu já tendo avisado que sou budista macumbeira. E gay. E artista.
Eu quero agradecer a todo mundo que disse não porque a fase da negação faz parte do processo, mas agradeço mais a quem disse sim porque é do sim que nasce a empatia e a compaixão e o abraço e o afeto.
Eu quero agradecer todo mundo que me doou comida, dinheiro, preces, carinho, amizade, visitas, presença e que me ajudou a cuidar da minha mãe. Mas agradeço ainda mais a ela por sobreviver a mim, quando nem eu sei como sobrevivi até aqui.
Eu quero agradecer pelas curas nas quais tropeço todos os dias.
Agradeço até pelo mato que cresce pra me lembrar que tudo ao meu redor tem força, uma força que espelha a minha.
Agradeço por todos os trabalhos, mas especialmente por poder fazer arte em tempos duros.
Se depois de Auchwitz a poesia não faz mais sentido, que eu deixe minha forma humana-palavra para habitar outra coisa... este devir que parece só fumaça soprada pelo fogo que me transformou.
Eu quero agradecer ao Bolsonaro pela sua colostomia reversa desde antes da facada. Precisávamos muito de alguém pra expôr a merda e pra todo mundo parar de achar que é branco e classe média, quando na real tamo tudo no mesmo balaio faz tempo.
Mas eu quero agradecer mais é pros griôs erês que frequentam aqui. Quero agradecer aos pastores, mas agradeço mais às pastoras que não querem me converter em ninguém que não sou e que me respeitam quando vou na igreja rezar, mesmo eu já tendo avisado que sou budista macumbeira. E gay. E artista.
Eu quero agradecer a todo mundo que disse não porque a fase da negação faz parte do processo, mas agradeço mais a quem disse sim porque é do sim que nasce a empatia e a compaixão e o abraço e o afeto.
Eu quero agradecer todo mundo que me doou comida, dinheiro, preces, carinho, amizade, visitas, presença e que me ajudou a cuidar da minha mãe. Mas agradeço ainda mais a ela por sobreviver a mim, quando nem eu sei como sobrevivi até aqui.
Eu quero agradecer pelas curas nas quais tropeço todos os dias.
Agradeço até pelo mato que cresce pra me lembrar que tudo ao meu redor tem força, uma força que espelha a minha.
Agradeço por todos os trabalhos, mas especialmente por poder fazer arte em tempos duros.
Se depois de Auchwitz a poesia não faz mais sentido, que eu deixe minha forma humana-palavra para habitar outra coisa... este devir que parece só fumaça soprada pelo fogo que me transformou.
sexta-feira
Para todas
O cotidiano, sempre ele arrastando os pés manso e vivo sobretudo nas manhãs.
Em comum: pariram e tem ganas de vida e felicidade.
Vejo o cotidiano marcando sua terra com uma urina pegajosa e ácida, corroendo as paredes, mas o amor não.
O amor vem sobretudo do ventre e é ele que elástico espreguiça o dia.
Uma convive com a dor física, sobe, desce, corta as unhas do menino, aprende o que não sabia, trabalha, toma remédios, caminha pela rua com seu passo curto e constante, mas envelhece mais sem a presença dele. O pai vivo era a menina em pé.
A outra arde, se banha nas águas geladas, cria meninas independentes e se consome por um moço que ela chama de menino, mas já é um homem feito. Bem feito. Envelhece mais sem a presença dele enquanto o pai dedilha cotidianos ao piano.
O cotidiano é um gato que se lambe enquanto assiste como envelhecem as mulheres.
Em comum: pariram e tem ganas de vida e felicidade.
Vejo o cotidiano marcando sua terra com uma urina pegajosa e ácida, corroendo as paredes, mas o amor não.
O amor vem sobretudo do ventre e é ele que elástico espreguiça o dia.
Uma convive com a dor física, sobe, desce, corta as unhas do menino, aprende o que não sabia, trabalha, toma remédios, caminha pela rua com seu passo curto e constante, mas envelhece mais sem a presença dele. O pai vivo era a menina em pé.
A outra arde, se banha nas águas geladas, cria meninas independentes e se consome por um moço que ela chama de menino, mas já é um homem feito. Bem feito. Envelhece mais sem a presença dele enquanto o pai dedilha cotidianos ao piano.
O cotidiano é um gato que se lambe enquanto assiste como envelhecem as mulheres.
segunda-feira
Bicho de Estimação
Os médicos diziam que era bronquite. Que podia ter sido provocada pela convivência com um gato ruivinho e branco que me adotou quando eu era criança. Ele apareceu lá em casa. Vinha na janela e esperava eu acordar.
Minha vó dizia que eu tinha fraqueza. Antes de morrer, queria fazer pra mim um remédio pra me curar da tal bronquite. Bem que me curou só pela intenção.
Eu tive uma cachorra que dormia comigo na cama. Antes de morrer, ela me esperou chegar da escola. Se levantou, abanou o rabo pra se despedir e morreu. Não chorei. Enterrei ela no quintal e plantei uns pés de feijão lá depois.
Nesse mesmo quintal, minha mãe matou um gato uma vez com pauladas na cabeça. Matou porque o bicho circulava por ali e deixava os cachorros latindo feito doidos.
Esse lugar não existe mais.
Minha vó dizia que eu tinha fraqueza. Antes de morrer, queria fazer pra mim um remédio pra me curar da tal bronquite. Bem que me curou só pela intenção.
Eu tive uma cachorra que dormia comigo na cama. Antes de morrer, ela me esperou chegar da escola. Se levantou, abanou o rabo pra se despedir e morreu. Não chorei. Enterrei ela no quintal e plantei uns pés de feijão lá depois.
Nesse mesmo quintal, minha mãe matou um gato uma vez com pauladas na cabeça. Matou porque o bicho circulava por ali e deixava os cachorros latindo feito doidos.
Esse lugar não existe mais.
sexta-feira
Meus subtextos - parte 1
Em teatro o termo técnico “subtexto”, pretende designar aquilo que o texto não diz com palavras. O texto de teatro é só um amontoado de linhas escritas até que aconteça a luz, o corpo, o gesto, o público, a voz...
Minha experiência com teatro data dos 14 anos, quando freqüentava a Federação Espírita do Estado de São Paulo que oferecia, trabalhos de evangelização aos finais de semana para turmas separadas por idade como classes de uma escola – minha turma: Sementes do Amor – e também grupos de atividades artísticas e lúdicas, a saber: Coral, Artes (trabalho com artes plásticas) e Jogos (jogos cooperativos e brincadeiras). O trabalho era muito bem estruturado, de modo que as turmas maiores, a partir de 13 anos, freqüentavam estes grupos e ofereciam as atividades para as turmas menores. Eu escolhi participar do grupo de Jogos, pois até então, era uma garota retraída e espinhenta com muitas expectativas e medos. Esperava que participar deste grupo me subtraísse um pouco da timidez enorme que chegava a me atrapalhar na escola. Além de estudar sobre jogos, fazer dinâmicas de grupo e aprender a difícil arte de trabalhar coletivamente, estudávamos textos a respeito de desenvolvimento humano, psicologia, educação e a doutrina espírita. Realmente a primeira vez que entrei numa sala de crianças de 5 ou 6 anos para conduzir um jogo (sempre íamos em 2 ou 3 pessoas) minhas pernas bambearam bastante, mas sobrevivi. As avaliações constantes e a convivência nesse grupo com pessoas de tantas idades e experiências profissionais e de vida diversas (havia psicólogos, técnicos, micro-empresários, universitários e nós, adolescentes cheios de hormônios!) enriqueceu-me muito como pessoa e me fez acreditar que planejamento, organização, responsabilidade e união, eram capazes de transformações maravilhosas. De fato, eu me transformava a cada dia, física e emocionalmente.
Pelo meio do ano, começava o trabalho com teatro, com a finalidade de desenvolver uma apresentação final para todas as turmas de estudantes do evangelho, seus pais, parentes, os evangelizadores e quem mais freqüentasse a casa. Resolvi encarar o desafio. E que desafio! Uma pena não me lembrar mais o texto mas, parece-me, era a história do nascimento de Jesus sob a ótica de um personagem não convencional. Havia três narradores na história e eu seria uma delas. Como eu disse aceitei o desafio o que implicava em não apenas decorar o texto, mas falar muito alto (a apresentação era no enorme Salão Bezerra de Menezes) e principalmente vencer minhas travas corporais. Acabei sendo uma das narradoras principais pois demonstrei facilidade para decorar o texto, mas todas as travas ainda estavam lá. A exposição ao público, era mostrar a todos minha magreza, minhas espinhas, minha coluna sem postura e minha voz que eu achava feia. Ao mesmo tempo, era tudo isso que eu queria superar no palco, meu próprio corpo. Eu não queria que as pessoas me vissem, mas a outra pessoa que eu poderia ser no palco. Foi assustador e mágico, como costuma ser tudo em teatro. A montagem ficou boa e recebemos convite até para duas apresentações em outra cidade, Botucatu. Uma para trabalhadores rurais (gente muito simples e bela) e outra num teatro de verdade no centro da cidade. Duas experiências inesquecíveis.
E foi assim que debutei antes dos 15 anos. Depois vieram os papéis de Bicho- Preguiça e Bobo da Corte, este último rendeu-me uma experiência terrível de medo e “branco” em cena e a certeza de que com os erros aprende-se muito.
Desse modo, quando fui fazer o curso de Magistério era inspirada nessa idéia de que poderia ensinar às pessoas e aprender com elas. Muito embora gostasse tanto das artes – eu desenhava, gostava de teatro e sonhava em fazer cinema – era preciso sobreviver e estudar algum curso técnico para buscar oportunidade de emprego e ajudar minha mãe.
Foi no Magistério minha segunda experiência com teatro. Na escola Derville Allegretti, organizavam-se apresentações teatrais para todas as turmas a cada dia 8 de março. Cada turma do magistério (eram 4, uma de cada ano do curso) escrevia uma peça e apresentava para as outras turmas e mais alguns alunos que escapavam dos outros cursos como Prótese Dentária ou Edificações e iam comemorar o Dia Internacional da Mulher no auditório da escola.
Além disso, como muitos prestavam vestibular depois dos cursos, organizavam-se montagens das obras de leitura obrigatória para o fim do ano. Foi assim que montamos Vestido de Noiva, apresentada no teatro Alfredo Mesquita, ao lado da escola, comigo na iluminação, auxiliada pelo moço que trabalhava no teatro. Foi uma experiência bem diferente nesse grupo, pois tinha mais cara de profissional, o diretor era de fora, conhecido de alguém. Gostei de operar a mesa de luz.
Praticamente o mesmo grupo permaneceu no ano seguinte, quando montamos Dom Casmurro. Novamente fiquei com a parte técnica: divulgação apenas, se bem me lembro.
No último ano de curso, surgiram dois jovens e belos diretores, amigos da Denise (Prótese, 4º. ano). Montaram o grupo a partir de uma seleção com alunos da escola inteira. Para a seleção, devíamos apresentar um trecho de Shakespeare (que sei de cor ainda hoje), Mackbet. O grupo ficou bem seleto, incluindo inclusive alunos do noturno e um menino tímido com problemas de dicção que cresceu bastante dentro do grupo. Começamos a ensaiar aos finais de semana, uma colagem de textos de Luiz Fernando Veríssimo, a partir do seu livro Histórias da Vida Privada. A montagem ficou se chamando “Uma surpresa para Daphne” (nome de um dos contos do livro) e, em um ou dois meses tínhamos tudo pronto, inclusive figurinos. Meu texto junto com o de outras meninas, era uma seqüência que falava de modo engraçado sobre sexo. Apresentaríamos também no Alfredo Mesquita e eu estaria finalmente no foco das luzes e não mais por trás delas. A apresentação nunca aconteceu pois uma pessoa da escola, não reconheceu a legitimidade do grupo, uma vez que não havia nenhum professor acompanhando. Foi bem frustrante, mas valeu enquanto exercício.
Depois disso, só voltei a tomar contato com teatro na Faculdade. A disciplina de improvisação cênica previa uma apresentação final para todas as turmas de Imagem e Som e montamos uma leitura dramática de “Computa, computador, computa!” de Millôr Fernandes. Meu professor sugeriu que eu largasse a Imagem e Som e fosse para a Unicamp estudar teatro. Cogitei a possibilidade, mas não... meu sonho de estudar cinema! Eu sempre gostei muito de animação. Foi esse mesmo professor, Magno Bucci que disse impossível a criação coletiva em teatro. Durante muito tempo, minhas práticas tentaram provar para mim (e para ele indiretamente) o contrário.
Desde então, Brecht, mamulengos, Poronga, Henfil, teatro na rua, na escola, no auditório, na praça...tantas experiências. E o desafio enorme de dirigir adolescentes e crianças. Dar aulas dessa coisa que ainda tenho tanto por descobrir e que experimento de todos os lados, escrevendo, atuando, ensinando, estudando, dirigindo e digerindo.
Minha experiência com teatro data dos 14 anos, quando freqüentava a Federação Espírita do Estado de São Paulo que oferecia, trabalhos de evangelização aos finais de semana para turmas separadas por idade como classes de uma escola – minha turma: Sementes do Amor – e também grupos de atividades artísticas e lúdicas, a saber: Coral, Artes (trabalho com artes plásticas) e Jogos (jogos cooperativos e brincadeiras). O trabalho era muito bem estruturado, de modo que as turmas maiores, a partir de 13 anos, freqüentavam estes grupos e ofereciam as atividades para as turmas menores. Eu escolhi participar do grupo de Jogos, pois até então, era uma garota retraída e espinhenta com muitas expectativas e medos. Esperava que participar deste grupo me subtraísse um pouco da timidez enorme que chegava a me atrapalhar na escola. Além de estudar sobre jogos, fazer dinâmicas de grupo e aprender a difícil arte de trabalhar coletivamente, estudávamos textos a respeito de desenvolvimento humano, psicologia, educação e a doutrina espírita. Realmente a primeira vez que entrei numa sala de crianças de 5 ou 6 anos para conduzir um jogo (sempre íamos em 2 ou 3 pessoas) minhas pernas bambearam bastante, mas sobrevivi. As avaliações constantes e a convivência nesse grupo com pessoas de tantas idades e experiências profissionais e de vida diversas (havia psicólogos, técnicos, micro-empresários, universitários e nós, adolescentes cheios de hormônios!) enriqueceu-me muito como pessoa e me fez acreditar que planejamento, organização, responsabilidade e união, eram capazes de transformações maravilhosas. De fato, eu me transformava a cada dia, física e emocionalmente.
Pelo meio do ano, começava o trabalho com teatro, com a finalidade de desenvolver uma apresentação final para todas as turmas de estudantes do evangelho, seus pais, parentes, os evangelizadores e quem mais freqüentasse a casa. Resolvi encarar o desafio. E que desafio! Uma pena não me lembrar mais o texto mas, parece-me, era a história do nascimento de Jesus sob a ótica de um personagem não convencional. Havia três narradores na história e eu seria uma delas. Como eu disse aceitei o desafio o que implicava em não apenas decorar o texto, mas falar muito alto (a apresentação era no enorme Salão Bezerra de Menezes) e principalmente vencer minhas travas corporais. Acabei sendo uma das narradoras principais pois demonstrei facilidade para decorar o texto, mas todas as travas ainda estavam lá. A exposição ao público, era mostrar a todos minha magreza, minhas espinhas, minha coluna sem postura e minha voz que eu achava feia. Ao mesmo tempo, era tudo isso que eu queria superar no palco, meu próprio corpo. Eu não queria que as pessoas me vissem, mas a outra pessoa que eu poderia ser no palco. Foi assustador e mágico, como costuma ser tudo em teatro. A montagem ficou boa e recebemos convite até para duas apresentações em outra cidade, Botucatu. Uma para trabalhadores rurais (gente muito simples e bela) e outra num teatro de verdade no centro da cidade. Duas experiências inesquecíveis.
E foi assim que debutei antes dos 15 anos. Depois vieram os papéis de Bicho- Preguiça e Bobo da Corte, este último rendeu-me uma experiência terrível de medo e “branco” em cena e a certeza de que com os erros aprende-se muito.
Desse modo, quando fui fazer o curso de Magistério era inspirada nessa idéia de que poderia ensinar às pessoas e aprender com elas. Muito embora gostasse tanto das artes – eu desenhava, gostava de teatro e sonhava em fazer cinema – era preciso sobreviver e estudar algum curso técnico para buscar oportunidade de emprego e ajudar minha mãe.
Foi no Magistério minha segunda experiência com teatro. Na escola Derville Allegretti, organizavam-se apresentações teatrais para todas as turmas a cada dia 8 de março. Cada turma do magistério (eram 4, uma de cada ano do curso) escrevia uma peça e apresentava para as outras turmas e mais alguns alunos que escapavam dos outros cursos como Prótese Dentária ou Edificações e iam comemorar o Dia Internacional da Mulher no auditório da escola.
Além disso, como muitos prestavam vestibular depois dos cursos, organizavam-se montagens das obras de leitura obrigatória para o fim do ano. Foi assim que montamos Vestido de Noiva, apresentada no teatro Alfredo Mesquita, ao lado da escola, comigo na iluminação, auxiliada pelo moço que trabalhava no teatro. Foi uma experiência bem diferente nesse grupo, pois tinha mais cara de profissional, o diretor era de fora, conhecido de alguém. Gostei de operar a mesa de luz.
Praticamente o mesmo grupo permaneceu no ano seguinte, quando montamos Dom Casmurro. Novamente fiquei com a parte técnica: divulgação apenas, se bem me lembro.
No último ano de curso, surgiram dois jovens e belos diretores, amigos da Denise (Prótese, 4º. ano). Montaram o grupo a partir de uma seleção com alunos da escola inteira. Para a seleção, devíamos apresentar um trecho de Shakespeare (que sei de cor ainda hoje), Mackbet. O grupo ficou bem seleto, incluindo inclusive alunos do noturno e um menino tímido com problemas de dicção que cresceu bastante dentro do grupo. Começamos a ensaiar aos finais de semana, uma colagem de textos de Luiz Fernando Veríssimo, a partir do seu livro Histórias da Vida Privada. A montagem ficou se chamando “Uma surpresa para Daphne” (nome de um dos contos do livro) e, em um ou dois meses tínhamos tudo pronto, inclusive figurinos. Meu texto junto com o de outras meninas, era uma seqüência que falava de modo engraçado sobre sexo. Apresentaríamos também no Alfredo Mesquita e eu estaria finalmente no foco das luzes e não mais por trás delas. A apresentação nunca aconteceu pois uma pessoa da escola, não reconheceu a legitimidade do grupo, uma vez que não havia nenhum professor acompanhando. Foi bem frustrante, mas valeu enquanto exercício.
Depois disso, só voltei a tomar contato com teatro na Faculdade. A disciplina de improvisação cênica previa uma apresentação final para todas as turmas de Imagem e Som e montamos uma leitura dramática de “Computa, computador, computa!” de Millôr Fernandes. Meu professor sugeriu que eu largasse a Imagem e Som e fosse para a Unicamp estudar teatro. Cogitei a possibilidade, mas não... meu sonho de estudar cinema! Eu sempre gostei muito de animação. Foi esse mesmo professor, Magno Bucci que disse impossível a criação coletiva em teatro. Durante muito tempo, minhas práticas tentaram provar para mim (e para ele indiretamente) o contrário.
Desde então, Brecht, mamulengos, Poronga, Henfil, teatro na rua, na escola, no auditório, na praça...tantas experiências. E o desafio enorme de dirigir adolescentes e crianças. Dar aulas dessa coisa que ainda tenho tanto por descobrir e que experimento de todos os lados, escrevendo, atuando, ensinando, estudando, dirigindo e digerindo.
segunda-feira
Preciso de ajuda para
Preciso de ajuda para ir a algum lugar
Por alguma razão não estou satisfeita aqui
Preciso de ajuda para me sentir capaz, para andar, falar e para mover meus braços.
Preciso de ajuda para me levantar todas as manhãs e calçar as meias e cuidar de mim
Por alguma razão não estou satisfeita comigo
Nunca se está, eu sei.
Sobretudo minhas mãos precisam de ajuda
Para pegar e largar
Por alguma razão não estou satisfeita aqui
Preciso de ajuda para me sentir capaz, para andar, falar e para mover meus braços.
Preciso de ajuda para me levantar todas as manhãs e calçar as meias e cuidar de mim
Por alguma razão não estou satisfeita comigo
Nunca se está, eu sei.
Sobretudo minhas mãos precisam de ajuda
Para pegar e largar
Chantilly
Deposito dinheiro no banco
Deposito confiança nas pessoas
Deposito suavemente a bunda no sofá
Deposito expectativas em mim
Projeto o futuro
Projeto vontades nos outros
Projeto uma nova performance
Projeto sombras em retinas e paredes
Negocio com o vendedor de verduras
Negocio com meu meu possível futuro empregador
Negocio com meu possível futuro marido
Negocio com a dona da minha casa
Fumo cigarros de palha
Fumo maconha
Fumo charuto
Fumo Malboro
Mas o que eu gosto mesmo é de chantilly.
Deposito confiança nas pessoas
Deposito suavemente a bunda no sofá
Deposito expectativas em mim
Projeto o futuro
Projeto vontades nos outros
Projeto uma nova performance
Projeto sombras em retinas e paredes
Negocio com o vendedor de verduras
Negocio com meu meu possível futuro empregador
Negocio com meu possível futuro marido
Negocio com a dona da minha casa
Fumo cigarros de palha
Fumo maconha
Fumo charuto
Fumo Malboro
Mas o que eu gosto mesmo é de chantilly.
domingo
Sim. Não.
Sim você me inspira coisas doces. Um pouco de inspiração não faz mal a ninguém.
Não quero mais ver a sua cara, a menos que possa dar um murro nela.
Sim eu adoro este homem berrando na minha orelha, só gostaria que fosse ao vivo.
Não posso entrar nisso de cabeça de novo.
Sim, eu gostaria de anotar seu número.
Não posso ir até aí e ficar com você de novo, porque simplesmente não gosto do cheiro da sua boca.
Sim estou disponível para algo mais, mesmo que seja só hoje.
Não consigo ouvir essa tal Paula Fernandes cantando mais de cinco minutos sem ficar irritada.
Sim li até a metade do livro da Fernanda Young e achei uma merda.
Não me sinto a vontade perto dessas pessoas.
Sim meu preço é baixo. Faz parte do contrato.
Não é culpa sua que isso tenha me acontecido de novo.
Sim eu quero ouvir o seu sotaque e ver seus olhos grandes pertinho.
Não se preocupe comigo.
Sim, eu nunca peço ajuda.
Não quero mais ver a sua cara, a menos que possa dar um murro nela.
Sim eu adoro este homem berrando na minha orelha, só gostaria que fosse ao vivo.
Não posso entrar nisso de cabeça de novo.
Sim, eu gostaria de anotar seu número.
Não posso ir até aí e ficar com você de novo, porque simplesmente não gosto do cheiro da sua boca.
Sim estou disponível para algo mais, mesmo que seja só hoje.
Não consigo ouvir essa tal Paula Fernandes cantando mais de cinco minutos sem ficar irritada.
Sim li até a metade do livro da Fernanda Young e achei uma merda.
Não me sinto a vontade perto dessas pessoas.
Sim meu preço é baixo. Faz parte do contrato.
Não é culpa sua que isso tenha me acontecido de novo.
Sim eu quero ouvir o seu sotaque e ver seus olhos grandes pertinho.
Não se preocupe comigo.
Sim, eu nunca peço ajuda.
sexta-feira
Eu preciso esquecer minha honey baby
Vinho, cigarros e música como companhia.
Sinto falta de alguns rapazes e de algumas moças realmente importantes na minha vida. Insisto em dizer que não preciso das pessoas, mas é mentira. Preciso delas sei lá pra quê. Preciso até de pessoas mortas.
Que saco!
Amor só de mãe, do meu cachorro e da minha família que está realmente preocupada com minha fé em Deus.
Tenho ganas de me desnudar até da minha pele, meus ossos e meus órgãos.
Reprimo minha vontade de telefonar para meus amigos. Escrevo cartas e fumo.
Só.
Sinto falta de alguns rapazes e de algumas moças realmente importantes na minha vida. Insisto em dizer que não preciso das pessoas, mas é mentira. Preciso delas sei lá pra quê. Preciso até de pessoas mortas.
Que saco!
Amor só de mãe, do meu cachorro e da minha família que está realmente preocupada com minha fé em Deus.
Tenho ganas de me desnudar até da minha pele, meus ossos e meus órgãos.
Reprimo minha vontade de telefonar para meus amigos. Escrevo cartas e fumo.
Só.
segunda-feira
Menos
Joguei fora minhas coleções
Distribuí minhas roupas, livros e discos
As fotos eu transformei num teatro de sombras
Perdi de propósito todas as chaves
Fechei as contas do banco
Devolvi tudo que emprestei
Costurei a mala
Dentro da qual coloquei uma fruta, uma fita adesiva, um caderno
E uma blusa de frio
Enterrei as sementes,
enterrei a espera
Cobri o corpo com argila para dançar
Deixei o mato tomar a casa
E fui embora.
Distribuí minhas roupas, livros e discos
As fotos eu transformei num teatro de sombras
Perdi de propósito todas as chaves
Fechei as contas do banco
Devolvi tudo que emprestei
Costurei a mala
Dentro da qual coloquei uma fruta, uma fita adesiva, um caderno
E uma blusa de frio
Enterrei as sementes,
enterrei a espera
Cobri o corpo com argila para dançar
Deixei o mato tomar a casa
E fui embora.
quarta-feira
Meu reino é daquele mundo
Você foi o primeiro homem da minha vida que já começou ausente. Isso não explica nada só o meu complexo de vítima.
Isso aqui não é pra ser um consultório psicanalítico digitado, só quero falar com você. Eu fui uma garota mimada porque minha mãe era a única solteira da escola naquele tempo e daí: coitadinha, eu tinha que receber alguma compensação. Mas eu não me achava mimada não. Eu não ganhava ovo de páscoa, eu tinha muitos brinquedos, mas era filha única e era meio chato brincar sozinha.
Sabe do que eu gostava de brincar? Eu pegava folhas de uns eucaliptos bem grandes que ficavam na frente da casa e fingia que o pinheiro do quintal da minha vó era um castelo. As folhas do eucalipto eram os habitantes do reino. As mais maltratadinhas eram plebeus. As folhas maiores ou mais bonitas eram reis, rainhas, princesas. Claro que em algumas histórias, as folhas maltratadinhas ou pequenas é que eram a rainha ou a princesa.
Hoje fiquei pensando no quanto já fui vaidosa e no quanto ainda sou. É sério. Daí eu estava vendo uns vídeos sobre folguedos populares e quilombos e pensando na força que tem esta história de uma rainha vir pra cá acorrentada num navio e virar escrava. Vendo a humildade daquela gente de quilombo falando e dançando pra pagar promessa, eu vi um rei. Como é que pode um rei ser assim tão humilde, falar tão simples e andar descalço? Tive vergonha de mim e das minhas manias de grandeza. Fiquei pensando na beleza destes reis e rainhas "cativos" e lembrando da frase do Nietzsche: "Só posso acreditar num deus que dance". Inventei que só posso me curvar a um rei que pise descalço no chão batido.
Estou dizendo tudo isso, acho que porque esse negócio de pai, pátria e patrão não foram digeridos direito pela minha saliva. O fato de você não estar por aqui não me permitiu pronunciar a palavra "pai" em ocasiões que não fossem rezando. Daí que isso me deu um baita quiprocó com Deus certa feita. Agora acho que está tudo resolvido. Não estou tentando culpar você pela minha treta com Deus - cada um que resolva a sua! - mas é que sua ausência me fez ignorar o significado da palavra pai. É interessante porque, embora eu nunca tenha tido irmãos (não que eu conheça pessoalmente por enquanto), eu sempre soube o que significa esta palavra. Mas é que irmão a gente chama pelo nome mesmo.
Ultimamente eu tenho experimentado chamar minha mãe pelo nome às vezes. É legal também. Não é falta de respeito nem de afeto. Sempre funciona quando estou irritada com ela. Ela está com a memória gasta e isso gasta minha paciência às vezes. E minha rudeza me faz até gritar com ela, isso sim uma falta de respeito e de tempo.
Acho que virei uma menina imaginosa por culpa sua. Eu ficava pensando como será que era seu rosto, como será que seria quando você chegasse. Como será que ia ser maravilhoso ou terrível quando você um dia voltasse pra casa. Você não voltou até hoje. Acho que não volta mais, né? Tá. Isso não gasta a minha esperança. Aérea esperança, pois não? Eu ando aprendendo que é mais fácil quando a gente se concentra naquilo que dá e naquilo que pode. Lição simples que o Yoga me ensinou. Porque o Yoga tem um montão de posturas físicas e mentais. Quanto mais a gente se concentra nas posturas físicas e mentais que a gente não alcança, menos a gente alcança. Quando mais a gente se concentra nas posturas físicas e mentais que a gente faz com facilidade, mais a gente avança, vence os medos, os limites de dentro e de fora. Dito e feito.
Sabe, pai... daí hoje também fiquei pensando na minha tia. Entendi por onde é que tenho que me lembrar dela. Acho que é porque revi algumas fotografias e revi aqueles olhos que ela tinha às vezes. Eram de uma cor, sei lá qual. Uma beleza mesmo.
Então é isso. Fico contente que esta carta tenha sido mais leve de escrever que aquela na praia. Disse minha amiga Fádhia uma vez que eu tenho isso, meio que um dom de ir deixando as coisas mais leves. Capaz. Tenho voltado a sonhar mesmo que ando voando.
Sabe que enquanto estava escrevendo isso aqui, me deu uma saudade enorme daqueles eucaliptos e daquele pinheiro, meu povo e meu reino. Tenho mais saudade de árvore que de gente.
Isso aqui não é pra ser um consultório psicanalítico digitado, só quero falar com você. Eu fui uma garota mimada porque minha mãe era a única solteira da escola naquele tempo e daí: coitadinha, eu tinha que receber alguma compensação. Mas eu não me achava mimada não. Eu não ganhava ovo de páscoa, eu tinha muitos brinquedos, mas era filha única e era meio chato brincar sozinha.
Sabe do que eu gostava de brincar? Eu pegava folhas de uns eucaliptos bem grandes que ficavam na frente da casa e fingia que o pinheiro do quintal da minha vó era um castelo. As folhas do eucalipto eram os habitantes do reino. As mais maltratadinhas eram plebeus. As folhas maiores ou mais bonitas eram reis, rainhas, princesas. Claro que em algumas histórias, as folhas maltratadinhas ou pequenas é que eram a rainha ou a princesa.
Hoje fiquei pensando no quanto já fui vaidosa e no quanto ainda sou. É sério. Daí eu estava vendo uns vídeos sobre folguedos populares e quilombos e pensando na força que tem esta história de uma rainha vir pra cá acorrentada num navio e virar escrava. Vendo a humildade daquela gente de quilombo falando e dançando pra pagar promessa, eu vi um rei. Como é que pode um rei ser assim tão humilde, falar tão simples e andar descalço? Tive vergonha de mim e das minhas manias de grandeza. Fiquei pensando na beleza destes reis e rainhas "cativos" e lembrando da frase do Nietzsche: "Só posso acreditar num deus que dance". Inventei que só posso me curvar a um rei que pise descalço no chão batido.
Estou dizendo tudo isso, acho que porque esse negócio de pai, pátria e patrão não foram digeridos direito pela minha saliva. O fato de você não estar por aqui não me permitiu pronunciar a palavra "pai" em ocasiões que não fossem rezando. Daí que isso me deu um baita quiprocó com Deus certa feita. Agora acho que está tudo resolvido. Não estou tentando culpar você pela minha treta com Deus - cada um que resolva a sua! - mas é que sua ausência me fez ignorar o significado da palavra pai. É interessante porque, embora eu nunca tenha tido irmãos (não que eu conheça pessoalmente por enquanto), eu sempre soube o que significa esta palavra. Mas é que irmão a gente chama pelo nome mesmo.
Ultimamente eu tenho experimentado chamar minha mãe pelo nome às vezes. É legal também. Não é falta de respeito nem de afeto. Sempre funciona quando estou irritada com ela. Ela está com a memória gasta e isso gasta minha paciência às vezes. E minha rudeza me faz até gritar com ela, isso sim uma falta de respeito e de tempo.
Acho que virei uma menina imaginosa por culpa sua. Eu ficava pensando como será que era seu rosto, como será que seria quando você chegasse. Como será que ia ser maravilhoso ou terrível quando você um dia voltasse pra casa. Você não voltou até hoje. Acho que não volta mais, né? Tá. Isso não gasta a minha esperança. Aérea esperança, pois não? Eu ando aprendendo que é mais fácil quando a gente se concentra naquilo que dá e naquilo que pode. Lição simples que o Yoga me ensinou. Porque o Yoga tem um montão de posturas físicas e mentais. Quanto mais a gente se concentra nas posturas físicas e mentais que a gente não alcança, menos a gente alcança. Quando mais a gente se concentra nas posturas físicas e mentais que a gente faz com facilidade, mais a gente avança, vence os medos, os limites de dentro e de fora. Dito e feito.
Sabe, pai... daí hoje também fiquei pensando na minha tia. Entendi por onde é que tenho que me lembrar dela. Acho que é porque revi algumas fotografias e revi aqueles olhos que ela tinha às vezes. Eram de uma cor, sei lá qual. Uma beleza mesmo.
Então é isso. Fico contente que esta carta tenha sido mais leve de escrever que aquela na praia. Disse minha amiga Fádhia uma vez que eu tenho isso, meio que um dom de ir deixando as coisas mais leves. Capaz. Tenho voltado a sonhar mesmo que ando voando.
Sabe que enquanto estava escrevendo isso aqui, me deu uma saudade enorme daqueles eucaliptos e daquele pinheiro, meu povo e meu reino. Tenho mais saudade de árvore que de gente.
quinta-feira
Esperança do amor...
A esperança do amorPrimeiro de braços abertosCoração escancaradoA mercê de qualquer vozque murmure suaveOu qualquer hálitofresco como ervaOu qualquer peletecida no mesmo fioA espera do amorque tem ânsiacansagritadesesperaDepois de tanto esperaracha que encontrouVem aquele paraísocom cheiro de velas e floresfeito morte pelo avessoE frio dentro da barrigada espinhaAté que fica provadoque o encontro ainda nãoVem aquele desencantocomo quem tá se afogandoentrando em todo buracouma vontade de choraruma vontade de poesiapra compensar a tristezapoesia pelo avessopoesia em desesperopoesia que apelase arrasta feito um cabelogrande num tapete maciopra passar a humilhação do desamorA esperança do amorpode virar desespero tão grandehumilhação tão grandequando se engana assimque pode até dar em choquedar em velas e floresnum cemitério de pedrasMas se não der fica aguadaamuada, aluadasem cor, sem cheiro, sem nada.Até que um dia abra os braçoscom o coração desconfiadodesconfiança e amornão cabem num só pedaçoUm sorriso amareladoUm girassol amareloTecido no fio da esperaE o amor de novo se enganaCansa gritaadoeceMas depois deita de barriga pra cimaFica esperando remédiotem ganas de entortar a espinhatem ganas de pisar em florestem ganas de roer as unhasO amor cansa de esperar e errarResolve ir dormir um poucoEntão o corpo sai solto pelo mundoSem procurar nadaSem esperar nadaSem poesia nas mãosSem memória de alecrimAí às vezes acontece de acordar o amordo outro.
sexta-feira
Confissões de trintona
Queria ser uma mulher alta e de peitos grandes. Queria ser famosa, rica, linda, não me casar, ter muitos namorados e um carro cor- de- rosa. Talvez um fusca.
Eu tinha 8 anos. Escrevi essas coisas na minha redação escolar, tirando a parte dos peitos. Estudava numa escola pública daí nunca me mandaram à psicóloga, só mais tarde, aos 13, por outros motivos. A parte que podia ser considerada mais esquisita nesta história era eu não querer me casar, fato que era justificável porque minha mãe era solteira numa época em que isso era reprovável. Contudo, eu escrevia bem (importante colocar o verbo no passado!) e minha mãe era chamada na escola pra ouvir elogios dos professores de português e alertas dos professores de matemática.
Acabei desencanando dos peitos grandes e de ser rica e linda – apesar de sempre me lembrar da Agrado em “Todo sobre mi madre” dizendo:... a gente deve ser a mulher que sempre sonhou. Mas gosto de mim pelada (tirando quando minha barriga está grande demais), ainda não sei dirigir e tive muitos namorados. Essa história de ser alta e ter muitos namorados significava poder para uma criatura que brincava de Susi. Aliás minha Susi era até parecida comigo: cabelo liso marrom e magrela. Só que ela tinha o olho grande e azul e umas mechas loiras.
Se eu fosse escrever novamente a tal redação, talvez chegasse à conclusão de que seria bom fazer análise. Ainda não me tornei a mulher que sonhei, em grande parte por culpa da minha caretice.
Eu tinha 8 anos. Escrevi essas coisas na minha redação escolar, tirando a parte dos peitos. Estudava numa escola pública daí nunca me mandaram à psicóloga, só mais tarde, aos 13, por outros motivos. A parte que podia ser considerada mais esquisita nesta história era eu não querer me casar, fato que era justificável porque minha mãe era solteira numa época em que isso era reprovável. Contudo, eu escrevia bem (importante colocar o verbo no passado!) e minha mãe era chamada na escola pra ouvir elogios dos professores de português e alertas dos professores de matemática.
Acabei desencanando dos peitos grandes e de ser rica e linda – apesar de sempre me lembrar da Agrado em “Todo sobre mi madre” dizendo:... a gente deve ser a mulher que sempre sonhou. Mas gosto de mim pelada (tirando quando minha barriga está grande demais), ainda não sei dirigir e tive muitos namorados. Essa história de ser alta e ter muitos namorados significava poder para uma criatura que brincava de Susi. Aliás minha Susi era até parecida comigo: cabelo liso marrom e magrela. Só que ela tinha o olho grande e azul e umas mechas loiras.
Se eu fosse escrever novamente a tal redação, talvez chegasse à conclusão de que seria bom fazer análise. Ainda não me tornei a mulher que sonhei, em grande parte por culpa da minha caretice.
terça-feira
Primeiro namorado
A gente não. A gente era mais complicado que isso, que tudo isso. A gente queria ser mais que novela, queria ser filme -não qualquer filme- um noir com luz bem dura. Eu me enfeitava pra você e para todos os outros. Os outros notavam, você passava batido.
Você queria filosofar sobre a gente e eu queria te arrancar pedaços com os dentes.
Daí de repente eu era tão frágil que você sentia pena e eu te odiava por isso. E você não me mandava flores. Eu te escrevia páginas e páginas e tenho certeza de que você jogou tudo fora, ainda bem.
Você dizia tudo que sentia e eu queria que fosse mentira. Não parecia filme, mesmo assim a gente gostava que fosse complicado e intenso.
Você me mandou embora, disse que era o último beijo e era inverno e chovia.
Eu tinha sangrado tanto que apareci depois de dois dias, ainda pálida.
Você guardou o livro e me olhou com desejo alguns anos depois. Daí parecia tanto um filme que quebrava o encanto se eu te tocasse.
Você queria filosofar sobre a gente e eu queria te arrancar pedaços com os dentes.
Daí de repente eu era tão frágil que você sentia pena e eu te odiava por isso. E você não me mandava flores. Eu te escrevia páginas e páginas e tenho certeza de que você jogou tudo fora, ainda bem.
Você dizia tudo que sentia e eu queria que fosse mentira. Não parecia filme, mesmo assim a gente gostava que fosse complicado e intenso.
Você me mandou embora, disse que era o último beijo e era inverno e chovia.
Eu tinha sangrado tanto que apareci depois de dois dias, ainda pálida.
Você guardou o livro e me olhou com desejo alguns anos depois. Daí parecia tanto um filme que quebrava o encanto se eu te tocasse.
quinta-feira
Charles Darwin
Ontem passaram horas me explicando por que a teoria de Darwin chama-se Teoria da Evolução e não Teoria da Adaptação, já que versa sobre a capacidade de adaptação dos seres para que seja possível sua sobrevivência.
Eu insistia que esta palavra "evolução", me incomoda muito porque acabou tomando conotações várias. Leio nela esta idéia da necessidade de galgar degrau a degrau até chegar numa condição melhor. Leio nela esta idéia de seres mais e menos evoluídos. Estas duas idéias, fora da boca do Darwin, deram em uma hierarquização dos seres, das tarefas, das riquezas, das coisas, e toda hierarquização me preocupa.
A conversa passou por Rousseau e Lamarc, até que a conclusão foi: "A gente é o que a gente busca." Concordamos todos.
Eu insistia que esta palavra "evolução", me incomoda muito porque acabou tomando conotações várias. Leio nela esta idéia da necessidade de galgar degrau a degrau até chegar numa condição melhor. Leio nela esta idéia de seres mais e menos evoluídos. Estas duas idéias, fora da boca do Darwin, deram em uma hierarquização dos seres, das tarefas, das riquezas, das coisas, e toda hierarquização me preocupa.
A conversa passou por Rousseau e Lamarc, até que a conclusão foi: "A gente é o que a gente busca." Concordamos todos.
territórios dentro
Dias e noites atravessando meus territórios interiores
desertos claros
árvores grandes
algumas pontes
um rio mudo
No meu corpo.
desertos claros
árvores grandes
algumas pontes
um rio mudo
No meu corpo.
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