Tem pegada
Rastro no céu
Uma lua cheia
E eu fiquei virada
estou Pegada
atiçada
Raciocino com as mãos
onde pega? Filosofo
rastro em mim
Raciocino com a língua
como pega
rastro no sangue
Raciocino com o ritmo
Tô ritmada
Pegadagarrada
fusa
não concluo nada
não quero que acabe
Virada, estirada
Estou pregada nisso
não raciocino mais
sem rastro
sem paz
sem rima
cadente e você rente
E só me importa agora
como você sente
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quarta-feira
domingo
Coreografia para ele
Dancei e te mandei embora.
Daquele filme inteiro eu só guardei a frase da moça: "O pai é o primeiro homem na vida de uma garota".
A vida inteira eu fiquei esperando você voltar. Nunca me ocorreu te mandar embora. Depois parece que ficou mais fácil respirar. Deixar você ir. Deixar-me aqui, olhando você ir. Sem mágoa.
Ficaram perguntas que não servem para nada.
O que eu posso fazer de bonito com isso agora? Me ocorreu que seria legal pensar em você toda vez que eu dançar. Dançar pra você mais vezes. Dançar celebrando que eu te deixei ir e que você foi.
Dançar em cima desse meu "complexo de rejeição". Dançar em cima daquilo que realmente eu tenho de feio. Sapatear bem até isso virar barro e fundação de uma casa bem bonita.
Você foi e eu deixei. Você queria ir e eu compreendi. Já era tempo. Já era outra estação.
O segundo e o terceiro homem na vida de uma garota. Eu já não sou uma garota. Faz tempo. Já é outra estação, eu sei.
Cada passo meu te chamou até ali, só pra você ir embora. E você foi.
O vazio é bom porque pode ser qualquer coisa, pai.
Havia algo de sensual quando eu dancei pra você. Mas era só pra você ficar desgostoso- como homem- de estar se apartando de mim.
Não sou uma boa menina. Sou uma mulher que dança para mandar seu pai embora.
Sou uma mulher que carrega parentes por dentro.
Meus ancestrais cantavam e dançavam e isso era sério e sagrado. Isso fazia a vida presente suportável e agradável.
Com essa memória ancestral no corpo eu danço. E toda vez é bom.
Daquele filme inteiro eu só guardei a frase da moça: "O pai é o primeiro homem na vida de uma garota".
A vida inteira eu fiquei esperando você voltar. Nunca me ocorreu te mandar embora. Depois parece que ficou mais fácil respirar. Deixar você ir. Deixar-me aqui, olhando você ir. Sem mágoa.
Ficaram perguntas que não servem para nada.
O que eu posso fazer de bonito com isso agora? Me ocorreu que seria legal pensar em você toda vez que eu dançar. Dançar pra você mais vezes. Dançar celebrando que eu te deixei ir e que você foi.
Dançar em cima desse meu "complexo de rejeição". Dançar em cima daquilo que realmente eu tenho de feio. Sapatear bem até isso virar barro e fundação de uma casa bem bonita.
Você foi e eu deixei. Você queria ir e eu compreendi. Já era tempo. Já era outra estação.
O segundo e o terceiro homem na vida de uma garota. Eu já não sou uma garota. Faz tempo. Já é outra estação, eu sei.
Cada passo meu te chamou até ali, só pra você ir embora. E você foi.
O vazio é bom porque pode ser qualquer coisa, pai.
Havia algo de sensual quando eu dancei pra você. Mas era só pra você ficar desgostoso- como homem- de estar se apartando de mim.
Não sou uma boa menina. Sou uma mulher que dança para mandar seu pai embora.
Sou uma mulher que carrega parentes por dentro.
Meus ancestrais cantavam e dançavam e isso era sério e sagrado. Isso fazia a vida presente suportável e agradável.
Com essa memória ancestral no corpo eu danço. E toda vez é bom.
quarta-feira
Meu reino é daquele mundo
Você foi o primeiro homem da minha vida que já começou ausente. Isso não explica nada só o meu complexo de vítima.
Isso aqui não é pra ser um consultório psicanalítico digitado, só quero falar com você. Eu fui uma garota mimada porque minha mãe era a única solteira da escola naquele tempo e daí: coitadinha, eu tinha que receber alguma compensação. Mas eu não me achava mimada não. Eu não ganhava ovo de páscoa, eu tinha muitos brinquedos, mas era filha única e era meio chato brincar sozinha.
Sabe do que eu gostava de brincar? Eu pegava folhas de uns eucaliptos bem grandes que ficavam na frente da casa e fingia que o pinheiro do quintal da minha vó era um castelo. As folhas do eucalipto eram os habitantes do reino. As mais maltratadinhas eram plebeus. As folhas maiores ou mais bonitas eram reis, rainhas, princesas. Claro que em algumas histórias, as folhas maltratadinhas ou pequenas é que eram a rainha ou a princesa.
Hoje fiquei pensando no quanto já fui vaidosa e no quanto ainda sou. É sério. Daí eu estava vendo uns vídeos sobre folguedos populares e quilombos e pensando na força que tem esta história de uma rainha vir pra cá acorrentada num navio e virar escrava. Vendo a humildade daquela gente de quilombo falando e dançando pra pagar promessa, eu vi um rei. Como é que pode um rei ser assim tão humilde, falar tão simples e andar descalço? Tive vergonha de mim e das minhas manias de grandeza. Fiquei pensando na beleza destes reis e rainhas "cativos" e lembrando da frase do Nietzsche: "Só posso acreditar num deus que dance". Inventei que só posso me curvar a um rei que pise descalço no chão batido.
Estou dizendo tudo isso, acho que porque esse negócio de pai, pátria e patrão não foram digeridos direito pela minha saliva. O fato de você não estar por aqui não me permitiu pronunciar a palavra "pai" em ocasiões que não fossem rezando. Daí que isso me deu um baita quiprocó com Deus certa feita. Agora acho que está tudo resolvido. Não estou tentando culpar você pela minha treta com Deus - cada um que resolva a sua! - mas é que sua ausência me fez ignorar o significado da palavra pai. É interessante porque, embora eu nunca tenha tido irmãos (não que eu conheça pessoalmente por enquanto), eu sempre soube o que significa esta palavra. Mas é que irmão a gente chama pelo nome mesmo.
Ultimamente eu tenho experimentado chamar minha mãe pelo nome às vezes. É legal também. Não é falta de respeito nem de afeto. Sempre funciona quando estou irritada com ela. Ela está com a memória gasta e isso gasta minha paciência às vezes. E minha rudeza me faz até gritar com ela, isso sim uma falta de respeito e de tempo.
Acho que virei uma menina imaginosa por culpa sua. Eu ficava pensando como será que era seu rosto, como será que seria quando você chegasse. Como será que ia ser maravilhoso ou terrível quando você um dia voltasse pra casa. Você não voltou até hoje. Acho que não volta mais, né? Tá. Isso não gasta a minha esperança. Aérea esperança, pois não? Eu ando aprendendo que é mais fácil quando a gente se concentra naquilo que dá e naquilo que pode. Lição simples que o Yoga me ensinou. Porque o Yoga tem um montão de posturas físicas e mentais. Quanto mais a gente se concentra nas posturas físicas e mentais que a gente não alcança, menos a gente alcança. Quando mais a gente se concentra nas posturas físicas e mentais que a gente faz com facilidade, mais a gente avança, vence os medos, os limites de dentro e de fora. Dito e feito.
Sabe, pai... daí hoje também fiquei pensando na minha tia. Entendi por onde é que tenho que me lembrar dela. Acho que é porque revi algumas fotografias e revi aqueles olhos que ela tinha às vezes. Eram de uma cor, sei lá qual. Uma beleza mesmo.
Então é isso. Fico contente que esta carta tenha sido mais leve de escrever que aquela na praia. Disse minha amiga Fádhia uma vez que eu tenho isso, meio que um dom de ir deixando as coisas mais leves. Capaz. Tenho voltado a sonhar mesmo que ando voando.
Sabe que enquanto estava escrevendo isso aqui, me deu uma saudade enorme daqueles eucaliptos e daquele pinheiro, meu povo e meu reino. Tenho mais saudade de árvore que de gente.
Isso aqui não é pra ser um consultório psicanalítico digitado, só quero falar com você. Eu fui uma garota mimada porque minha mãe era a única solteira da escola naquele tempo e daí: coitadinha, eu tinha que receber alguma compensação. Mas eu não me achava mimada não. Eu não ganhava ovo de páscoa, eu tinha muitos brinquedos, mas era filha única e era meio chato brincar sozinha.
Sabe do que eu gostava de brincar? Eu pegava folhas de uns eucaliptos bem grandes que ficavam na frente da casa e fingia que o pinheiro do quintal da minha vó era um castelo. As folhas do eucalipto eram os habitantes do reino. As mais maltratadinhas eram plebeus. As folhas maiores ou mais bonitas eram reis, rainhas, princesas. Claro que em algumas histórias, as folhas maltratadinhas ou pequenas é que eram a rainha ou a princesa.
Hoje fiquei pensando no quanto já fui vaidosa e no quanto ainda sou. É sério. Daí eu estava vendo uns vídeos sobre folguedos populares e quilombos e pensando na força que tem esta história de uma rainha vir pra cá acorrentada num navio e virar escrava. Vendo a humildade daquela gente de quilombo falando e dançando pra pagar promessa, eu vi um rei. Como é que pode um rei ser assim tão humilde, falar tão simples e andar descalço? Tive vergonha de mim e das minhas manias de grandeza. Fiquei pensando na beleza destes reis e rainhas "cativos" e lembrando da frase do Nietzsche: "Só posso acreditar num deus que dance". Inventei que só posso me curvar a um rei que pise descalço no chão batido.
Estou dizendo tudo isso, acho que porque esse negócio de pai, pátria e patrão não foram digeridos direito pela minha saliva. O fato de você não estar por aqui não me permitiu pronunciar a palavra "pai" em ocasiões que não fossem rezando. Daí que isso me deu um baita quiprocó com Deus certa feita. Agora acho que está tudo resolvido. Não estou tentando culpar você pela minha treta com Deus - cada um que resolva a sua! - mas é que sua ausência me fez ignorar o significado da palavra pai. É interessante porque, embora eu nunca tenha tido irmãos (não que eu conheça pessoalmente por enquanto), eu sempre soube o que significa esta palavra. Mas é que irmão a gente chama pelo nome mesmo.
Ultimamente eu tenho experimentado chamar minha mãe pelo nome às vezes. É legal também. Não é falta de respeito nem de afeto. Sempre funciona quando estou irritada com ela. Ela está com a memória gasta e isso gasta minha paciência às vezes. E minha rudeza me faz até gritar com ela, isso sim uma falta de respeito e de tempo.
Acho que virei uma menina imaginosa por culpa sua. Eu ficava pensando como será que era seu rosto, como será que seria quando você chegasse. Como será que ia ser maravilhoso ou terrível quando você um dia voltasse pra casa. Você não voltou até hoje. Acho que não volta mais, né? Tá. Isso não gasta a minha esperança. Aérea esperança, pois não? Eu ando aprendendo que é mais fácil quando a gente se concentra naquilo que dá e naquilo que pode. Lição simples que o Yoga me ensinou. Porque o Yoga tem um montão de posturas físicas e mentais. Quanto mais a gente se concentra nas posturas físicas e mentais que a gente não alcança, menos a gente alcança. Quando mais a gente se concentra nas posturas físicas e mentais que a gente faz com facilidade, mais a gente avança, vence os medos, os limites de dentro e de fora. Dito e feito.
Sabe, pai... daí hoje também fiquei pensando na minha tia. Entendi por onde é que tenho que me lembrar dela. Acho que é porque revi algumas fotografias e revi aqueles olhos que ela tinha às vezes. Eram de uma cor, sei lá qual. Uma beleza mesmo.
Então é isso. Fico contente que esta carta tenha sido mais leve de escrever que aquela na praia. Disse minha amiga Fádhia uma vez que eu tenho isso, meio que um dom de ir deixando as coisas mais leves. Capaz. Tenho voltado a sonhar mesmo que ando voando.
Sabe que enquanto estava escrevendo isso aqui, me deu uma saudade enorme daqueles eucaliptos e daquele pinheiro, meu povo e meu reino. Tenho mais saudade de árvore que de gente.
segunda-feira
Carta para meu pai
Meu pai, É manhã. Estou diante do mar chorando, ouvindo o barulho das ondas, sentindo um ventinho bom e novamente um aperto no coração. Vontade de encontrar contigo. Agora eu sei que as cartas ...que as cartas que eu tenho que escrever são pra você. Eu estava com vontade de escrever para alguém, escrevi a várias pessoas, mas não achava as palavras nem o propósito. Achei. Eu e minha mãe estivemos muito sozinhas nesses últimos 33 anos. Mas estamos bem. De alguma maneira nós temos certeza de que vocẽ talvez tenha se lembrado da gente nesse meio tempo. Ou talvez não. Pelo menos um pouquinho eu acho que você se lembrou.Agora no começo do ano eu quase consegui falar sobre você com uns amigos sem chorar. Ano passado tive certeza de que não tenho que te perdoar de nada, eu é que tenho que te pedir perdão. Ou desculpas.Minha mãe falou que você tinha viajado, quando eu era criança. Acho que era um assunto muito doloroso para ela naquela época.Naquela época fiquei com dficuldades de identificar as pessoas com boas e más intenções para comigo. Ela mentiu pra me proteger. E pra se proteger. Você não viajou. Durante todo este tempo fiquei por aqui tentando imaginar por que você saiu e foi embora, então? Acho que entendo. Minha maẽ não é uma pessoa fácil. Nem eu. Mas até que nos viramos bem até agora.Minha vó me ajudou a escrever uma carta para o Silvio Santos quando eu era criança pra tentar te procurar. Talvez realmente alguém tenha lido e se comovido com a carta, mas encontrar você parece muito difícil.Perdemos a única foto que tínhamos sua. Minha mãe também guardava todas as suas cartas. Tudo foi se perdendo com o tempo.No entanto, embora todos os seus problemas de saúde, minha mãe ainda é a mais lúcida de nós. Eu a amo muito.Ela me disse que te encontrar e gestar-me foi o resultado de um desafio que ela fez pra Deus. Ela disse:-- Se você existe mesmo, que apareça um homem e que eu tenha um filho.E você apareceu e eu apareci.Só o fato de ter conhecido minha mãe já é motivo de bastante gratidão. Agradeço a você.Agradeço a Deus também. Eu acredito nele.Não me acho no "direito" de desafiar Deus e pedir que você apareça, então. Não seria justo. Tudo deve ser como ele quer:este marestas pessoas que agora se aproximam, este vento, esta dor, esta alegria, esta vida.Dois cachorros enormes me seguiram hoje quando fui à praia. Eu precisava de alguém pra me proteger.Estava criticando minha amiga porque o menino que está apaixonado por ela também a segue como um cachorro. Isso estava me irritando, mas hoje pela manhã fez sentido.Os cachorros que me seguiram não estavam me protegendo, estavam perdidos. Talvez aquele guri que está seguindo minha amiga também esteja.Não estou mais com inveja dela. Nem pena. Nem de mim. Estou começando a entender as coisas e ter lucidez novamente.Eu vim aqui porque estou procurando um lugar pra viver com minha maẽ que não seja mais São Paulo.Eu vim aqui porque precisava de outro sal que não o das minhas lágrimas.Já parei de chorar.O sol está quase quente, pai.Tem uma ilha bonita lá na frente.Queria que você também estivesse aqui, mas desde cedo aprendi algo útil: não se pode ter perto todos que a gente quer bem.É por isso que te carrego comigo. Embora às vezes pese, quando eu deixo, é leve.
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