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quarta-feira

Diana tem 15 anos

Diana tem quinze anos mas ela já se sente pronta para morrer. Não dá pra saber exatamente se ela se deu conta disso, mas é um fato. Ouvi dizer que os fatos não se contestam.
Ela tem pernas longas, sente-se desajeitada e feia. Agora está andando pela rua pensando na sua escola e nas outras meninas de lá. As outras meninas da sua idade, todas estão prontas para viver, ter filhos, casar, sei lá... Diana, não. Mas não é nisso que ela pensa. Ela se compara fisicamente às meninas. O tamanho dos peitos, da bunda... Uma vez uma professora falou que ela era bonita e ela pensou: Que adianta? Agora ela se lembra disso enquanto desvia de um moço na rua. Hoje as ruas estão mais vazias e ela gosta de andar. Sua cidade é grande e ela é só mais uma. Ainda assim, não sei como, ela se sente acolhida.

Diana está sentada no sofá da sala esperando o feijão ficar pronto. Ela fuma um cigarro devagar aproveitando. Ela sabe que não deve fumar. Ela sabe exatamente tudo que não deve fazer e tudo que não deve fazer de novo. Ela não se importa com o que deve ou não fazer enquanto fuma seu cigarro e escuta música violenta. Acha bonitas suas unhas pintadas segurando o cigarro rústico. Sente-se uma artista de cinema por uns breves segundos que vão com a fumaça. Ela está de saco cheio e este cigarro e essa música e essas unhas são seu remédio. Seu remédio é ainda poder escrever e ouvir música, fazer comida. Ela usa avental de cozinheira. Ela pensa em todas as mulheres que têm as unhas pintadas, usam cremes na cara e esperam pacientemente seu feijão cozinhar.

Para Lênon

Sem vinho, sem pães, sem luz
Quem precisa disso para fabricar milagres?
Sem óculos, sem sexo, sem nome
A identidade impressa em algum lugar do sangue?
Sem música, sem filhos, sem visitas hoje
Meu trabalho é com as palavras de quem?
Eu não consigo me concentrar no que você está dizendo
Eu só consigo pressagiar a temperatura do seu corpo
Eu não consigo desviar os olhos do seu peito nem da sua virilha
Eu só quero e só não quero que você vá embora logo
Sem amídalas, sem seio, sem próstata
Estes pedaços que a doença come,
para onde vão depois que o médico tira?
Sem jeito, sem coragem, sem força
Para ter força de levantar o garfo e conseguir comer
é preciso ter comido para ter força de levantar o garfo
Sem bala, sem pólvora, sem tiros
Caramba, que espécie de revolução é esta?
Sem microfone, sem internet, sem telefone
Porra, que diabos de revolução é essa?
Sem orgasmo, sem dor, sem parto
Toda revolução traz dentro de si os genes do gozo e da foice
Sem passagem, sem saída, sem dentes
Não há por que sorrir no fim do túnel