Páginas

sexta-feira

Suçalismo

Tanto se falou em Socialismo ao ruir dos thronos na Europa que a palavra chegou aos ouvidos caipiras.
O Ponciano encontrando com o Juvencio, perguntou-lhe:
_ Compadre: tive na Villa e vi uns home falando de Suçalismo... O que é que vem a sê isso?
_ E'ua moda nova de vivê que tão inventano... muito bão!
_ Cumo é?
_ Vacê qué vê o que é Suçalismo? - Meu cachimbo tá vasiu e eu num tenho fumo... Vacê tem um tostão ahi?
_ Tenho.
_ Vacê me dá o tostão, eu compro o fumo, encho o cachimbo, e vô sô esfumaceano...
_ Uéi! Eu dei o tostão... vacê pita... e eu o que é que faço?
_ Mecê gospe... Isso é Suçalismo...
Do livro de Cornélio Pires "Patacoadas", Companhia Editora Nacional, 1929.
Texto reproduzido aqui com fidelidade à grafia do original

quarta-feira

Profecia nordestina

Os versos a seguir foram recitados por minha avó, de acordo com sua memória de um cordel sobre o apocalipse. Procurei manter a pronúncia de Dona Rosa na transcrição.
A besta fera vai sair
No fim da era falada
...
Aqueles que recebê
Tem que ficar carimbado
Vai recebê a riqueza
Fica de Deus separado
Vô dar expilicação
Esse ferro como é
666 amarga mais do que fé
Quem com ele for gravado
Fica de Deus separado
Se une com Lucifér
Eles vem com traje de padre
Celebra em qualquer igreja
Confessa, casa, batiza
Venera o altar e beja
Ilude qualquer pessoa
Por muito forte que seja
Vão dando a vista aos cego
Saúde aos alejado
Curando todas ferida
...
De forma que assim ilude
Todos os apaixonado
Dessa vez o sacerdote
Argum que escapá deserda
Vão viver nas montanha
Não celebra hora certa
Mas acham facilmente
As porta do céu aberta

Fragmentos de uma biografia inventada

Dois fragmentos de uma Pequena Biografia literária que estou inventando para enfeitar a noite de meu bem
I
No clarear do dia vou para o roçado
A capinar.
Até de tarde eu tiro meu eito.
Arranco inços, juás, tranqueiras...
E bosta e bugiu que não serve nem pra esterco
Abro a terra e boto as sementes.
Deixo as sementes para a chuva enternecer.
Dou um tempo.
Retiro de novo as pragas: dejetos de anta, adjetivos
Retiro os adjetivos porque eles enfraquecem as plantas.
E deixo o texto a germinar sobre o branco do papel
em pura masturbação com as pedras e as rãs.
II
Meu Deus! vão dizer que eu não existo propriamente dito.
Que sou um ente de letras.Vão dizer
Que tenho vocação para chocalho porque só gosto de ouvir o rumor das palavras.
Meu pai costumava falar: Quem acha bonito e pode passar a vida a ouvir o rumor das palavras--
é, no mínimo
um ente de sílabas
Um ente letral. Ou um tonto.
Eu teria 12 anos
De tarde fui olhar de Corumbá a Cordilheira dos Andes que se perdia nos longes da Bolívia.
Minhas letras se iluminaram.
Fiz o primeiro verso da minha vida:"Aquele morro bem que entorta a bunda da paisagem."
Paisagem tem bunda? -- um cientista perguntou
Meu pai disse: Agora você vai ter que assumir as suas verdadeiras irresponsabilidades
Vai ter que passar os dias a costurar as roupas que possasm caber nas suas imagens.
Nunca mais parei de costurar as roupas que coubessem nas minhas imagens.
Poema de Manoel de Barros

Tal como Manoel de Barros

Para ler Manoel é preciso saber:
a) Cavalos alados são dados a jogar xadrez dançando
b) Janelas abertas arriscam-se a bater com o vento pois acham que isso é uma brincadeira
c) Mutilações por fora doem por um tempo um pouco menor mas cicatrizam tortas
d) Vendo um menino correr e virar a esquina, imagina-se imediatamente que curvas são feitas para a imaginação criar asas
e) Comer rocambole tende a estragar os dentes de gente grande que não os escova, mas os das crianças não
f) Convalescentes tem os olhos tristes e o resto do corpo feliz
g) Quando se encontra algo que se queira muito deve-se esquece-lo imediatamente ou joga-lo fora
h) A matéria das coisas não precisa ser tocada por ponteiros
i) etc.
etc.
etc.

quinta-feira

fim de ano

Corro atrás de bons presságios
Tenho preguiça de ler coisas compridas
Falta-me método pra estudar
Sinto saudades daquele cara
Saudades de conviver com aquela garota
Meu amigo mergulha e corre riscos
Eu vi um rosto luminoso e azul pairando no ar
não tive medo. Era um velho
Falta-me método para os galanteios
Metade das pessoas que sexualmente me interessam tem medo de mim
a outra metade talvez não esteja simplesmente interessada
Falta-me método para cultivar inimigos
Gente jovem ao meu redor me deixa vitalmente excitada
e mentalmente embalada

Namoro

A garota queria ser livre
A outra berrava
A garota tinha cheiro de terra
A outra brincava de giz de cera
A garota usava decote mas tinha vergonha
A outra chorava escondida
A garota era velha
A outra era jovem demais
A garota queria só beijar
A outra queria
Lampejos de luz nos olhos
Gratidão
Fosso
E um corpo elástico
Só.

sábado

Quantidades

Auto destruição: só o suficiente pra adoecer
Auto cuidado: só o suficiente pra não adoecer
Atitude política: quanto baste para manter-me viva
Sexo: quanto baste para manter-me feliz
Mentiras: o suficiente para não morrer e não matar ninguém
Verdades: quanto baste para olhar para cima
Drogas: o suficiente para correr um pouco de riscos
Cinema: dois quilos
Música: algumas gramas de pássaros pelas manhãs
Ódio: quanto baste para salgar
Amor: a gosto