
Patativa do Assaré - poeta de pouco estudo e muita sabedoria
ABC DO NORDESTE FLAGELADO.
A — Ai, como é duro viver
nos Estados do Nordeste
quando o nosso Pai Celeste
não manda a nuvem chover.
É bem triste a gente ver
findar o mês de janeiro
depois findar fevereiro
e março também passar,
sem o inverno começar
no Nordeste brasileiro.
B — Berra o gado impaciente
reclamando o verde pasto,
desfigurado e arrasto,
com o olhar de penitente;
o fazendeiro, descrente,
um jeito não pode dar,
o sol ardente a queimar
e o vento forte soprando,
a gente fica pensando
que o mundo vai se acabar.
C — Caminhando pelo espaço,
como os trapos de um lençol,
pras bandas do pôr do sol,
as nuvens vão em fracasso:
aqui e ali um pedaço
vagando... sempre vagando,
quem estiver reparando
faz logo a comparação
de umas pastas de algodão
que o vento vai carregando.
(...)
(...)
Esse é só um trecho. O poeta segue pelo abecedário completo, que Patativa nunca foi de deixar verso pela metade. É dele também "Triste Partida", que Luiz Lua Gonzaga musicou.
Lefér Guimarães, diretor e ator de teatro radicado em São Carlos, empreendeu comigo uma adaptação de "Os Sertões" de Euclides da Cunha para teatro. Minha matriz familiar pernambucana me incumbiu de dar o tom das poesias da peça. E lá vou eu escrever sobre a personagem da peça que é uma homenagem e referência a este grande poeta brasileiro que foi Patativa:
Aqui nesta minha terra
cantadô é passarinho
seja na paz ou na guerra
acompanhado ou sozinho
Cada um canta o que vê
e este cantadô preciso
se com os olhos não vê
é porque vê com o siso
Desde criança ele é cego
Desde criança ele é cego
traz esta sina por novo
digo a verdade não nego
é um poeta do povo
Luta contra a opressão
levanta a voz com firmeza
contra a maldade a traição
e tudo que fere a beleza
Se eu imagino, não vejo
se ele não vê, imagina
vamos contar num lampejo
esta história nordestina
(...)
E por aí vai.
Antes dele morrer, queria ter ido a Assaré visitar Patativa, pegar suas mãozinhas e dizer:
_Quando eu fô grande vô sê que nem tu, pueta!
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