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sábado

Instruções para subir montanhas

1. não se deve ter pressa de que as cãimbras passem
2. deve-se respirar com cuidado
3. é perfeitamente permitido andar de costas

quarta-feira

Sete razões pra odiar quem eu odeio

1. O desespero da impotência
2. O delírio da importância
3. As jaulas de ouro
4. O fogo que queima a justiça
5. A morte
6. A vida
7. Não postergar

Digeri

O intestino da noite
Deitou fora a confusão
Ficou tudo muito claro
Tendo o dia se alimentado
De poesia montanhas e tabaco
Ela sentia-se pronta
Para ir ao encontro dele
Com o presente em mãos
O presente consistia de um afago
O presente consiste do sopro que anima o tempo
Contudo resta ainda alguma areia na ampulheta
-
Daí uma foice ceifou as ervas daninhas do quintal
E devagar foram tirados os pregos da madeira
Até o ultimo
E quando o galo cantou não negou nada
Havia apenas uma pressa preguiçosa
Cheia de açúcar mascavo
E enquanto atravessava a estrada
Ouviu a montanha lhe dizer:
"Vou estar aqui quando você voltar."

terça-feira

Nove meias verdades

1. Toda verdade é inteira
2. Toda verdade é mentira
3. Toda verdade é muda
4. A mentira tem pernas curtas
5. Cegos existem
6. O avesso de nascer é parir
7. A revolução é coletiva
8. Fugas trazem paz
9. Tenho vergonha daquilo que sinto

Sete razões para amar quem eu amo

1. Estar diante de mim *
2. Abandonar aquilo que enfraquece a vontade
3. Estar na fronteira entre o controle e o descontrole, a razão e o desconhecido
4. Murmurar segredos na zona de confiança
5. Fragmentar a ordem
6. Confiança e plenos poderes nas mãos, nas pernas e no fôlego
7. Memória concreta sem vestígio de saudade
* e enfrentar

Sete missões para o encontro de um palhaço

1. Ir ao encontro do amor
2. Ver a morte de perto
3. Desnudar-se
4. Sustentar o olhar sério de uma criança
5. Tirar uma montanha do cativeiro
6. Não temer erupções
7. Trocar de pele

sexta-feira

Simon Reynolds e os Smiths

A petulância é o ponto forte de Morrissey. Petulância e MELANCOLIA. É por isso que ele já foi demonizado como retrógrado, sentimentalóide, alguém com complexo de mártir. Por trás do escárnio, a indireta é que falta na arte de Morrissey uma virilidade fundamental Artistas femininas podem ser vulneráveis, delicadas, porque isso corresponde à idéia da mulher como falta. Mas num homem, essas qualidades só indicam uma frouxidão repugnante do ser. Melancolia remete a FRESCURA.
Não que as acusações estejam incorretas. Morrissey é retrógrado, ele não pode crescer como artista ou pessoa porque está viciado em sua própria neurose, viciado em melancolia- que é, afinal de contas, o sabor de sua própria derrota, de sua própria incompletude.
(...) Qualquer um que tenha idolatrado sua dor tentando prolongá-la, brincando coma a idéia de exacerbá-la; qualquer um que tenha sido levado a demorar-se dentro dela, mesmo quando já pudesse estar recuperado, há muito tempo, preferindo a companhia de fantasmas à falta de sonhos da sociabilidade cotidiana, qualquer pessoa nessas condições entende a melancolia.
(...)
Os Smiths trouxeram de volta às paradas algo que o pop parecia ter deixado pra trás - a adolescência. O new pop rapidamente parou de querer aproentar e sossegou numa maturidade pós-rock e pós-adolescência vendendo fantasias cafonas de sofisticação para uma geração de tietes teens cujo único desejo era ficar adultas o mais rápido possível. Os Smiths, por outro lado, forneceram fantasias de inocência para aqueles em dias de deixar pra trás sua adolescência. (...) Morrissey é o paradigma de um certo tipo de masculinidade inibida e etérea, que preferiria viver sonhando a arriscar se frustrar com a realidade. (Morrissey investe sua emoção em ídolos imaculados, de preferência mortos, como James Dean, em vez de ter que lidar com a confusão e o embaraço de qualquer encontro real).
Situadas no espaço entre as restrições da infância e as da carreira, estas pessoas sonham por um tempo desejar algo vagamente melhor da vida, mas se entristecem com esses sonhos porque no fundo sabem que eles provavelmente vão abandoná-los e que acabarão se curvando a uma vida medíocre. Quando isso acontece os discos ficam mais difíceis de escutar, a música acaba se tornando uma reprimenda, trazendo á tona os incõmodos fantasmas dos sonhos prematuramente desfeitos. (...) E é por isso que, no fim, muitas pessoas desistem da música pop.
O new pop, longe de ser um brilhante novo começo, acabou apenas sendo a inauguração do soul de designer globalizado, a trilha sonora para a nova cultura yuppie da saúde e da eficiência. Bem na cara do totalitarismo benigno do lazer capitalista e de sua filosofia de auto-ajuda pré-fabricada, os Smiths glamorizaram a fraqueza e a doença, defenderam a abstenção a abstinência, o fracasso em atingir cotas de desfrute.(...)
(...)
Finalmente, com a agonia misógina de Nick Cave, o classicismo de pele doce do Jesus and Mary Chain e o olhar eternamente não correspondido dos Smiths, aconteceu a volta do romantismo em toda sua pureza e privacidade. O pop havia voltado a ser o que sempre tinha sido: o pessoal como o domínio em que o sentido da vida é resolvido. O romantismo - o sonho do amor Redentor que será o Paraíso na Terra, resolverá todos os conflitos e acabará com o isolamento - tomou o lugar da religião como o ópio do povo do século XX.
(...)
(...) Os Stones e sua época tinham a ver com sair de casa; os Smiths e nossa época são sinônimos do anseio angustiado por um lar.
Texto de Simon Reynolds, 1988 na Melody Maker. Coleção Iêiêiê, editora Conrad.

quinta-feira

Carta Curta

Pasto
Me agrada muito seu contorno no contorno da paisagem.
Junto
Tenho cá dentro o fragmento de um sopro que não é meu.
Cominho
Som pesado, pimenta leve.
Fábula
Estudei um mundo extinto enquanto dormia.
Vício
Saúde dublada
Voz
Aquilo que não diz tudo.

Epitáfios

1. Bebam-me e não chorem por mim. Fui feliz apesar de tudo.
2. Vim, vi.
3. Volto logo.
4. Achei foi pouco!