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sexta-feira

Primeiras infâncias

Era uma ameaça. Achava que iam obrigá-la a comer. Odiava bolachas, odiava nata de leite, não comia feijão, nem macarrão, nem gema de ovo, nem carne de porco. Alergias na pele. Fruta? Só banana.
Essa menina tá fraca!
Andando as pernas faltavam. Via-se as costelas por cima da roupa.
Você come se quiser. Imaginava tudinho. Ter que engolir a nata do leite à força. Vomitava tudo depois.
Pegou doença várias vezes. De pele, de respiração.
Essa menina tá doente, precisa comer.
Achava que na escola, se não obrigassem a comer iam obrigar a alguma coisa.
Depois pegou costume. Ganhou uma lancheira. Começou a comer a gema do ovo cozida. Começou a comer feijão com farinha, amassadinho nuns bolinhos com a mão. Só comia se vó dava.
A mãe tava doente, internada. Dizem que era louca e que não gostava dela, só fingia. Que ia entregá-la na Febem.
Não sabia o que era Febem. Mas tinha menos medo da escola agora. Tinha as pernas tortas mas mais fortes. O suficiente pra brincar de amarelinha.
Um menino loiro escolheu ela pra dançar. Ficou devendo várias ave-marias a Deus por isso. Teve muita vergonha, mas o coração disparou. Alguém gostava dela e tinha sido escolhida entre tantas da sala. O pai tinha sumido no mundo, mas tinha sido escolhida pra dançar. Dançava tão bem, com tanta graça que ia na frente nos ensaios.
Brincava de inventar histórias. Todas tinham final feliz e o bem sempre vencia o mal.

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