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terça-feira

Minhas listas 99

Da série "Minhas listas" aí vai uma de 99 ou 2000...

Coisas que mudam minha vida:
-sabonete glicerinado barato
-livro do Herman Hesse
-menino em frente ao tanque de guerra na Praça da Paz
-professor ruim metido a garanhão
-desenhos animados a 24 quadros por segundo
-caneta bic
-garotos escoceses comprando heroína
-estatutos

Meu primeiro encontro com Suassuna

Foi em 2002. Fomos de carona até Recife, a Fádhia e eu.
Lá vi a primeira aula-show do Suassuna na minha vida. Fiz algumas anotações num caderno. Transcrevo-as aqui:

"Toda morte tem um pouco de suicídio. A gente só morre quando concorda."
"Todo artista tem simpatia com o mentiroso. O mentiroso é um sujeito que não se contenta com o universo que está ao seu redor e cria outro. "
"O mentiroso é um subversivo nato."
"As elites estão tentando destruir o povo brasileiro desde 1500. Até hoje não conseguiram."

Corre, menina da periferia

Corre, menina da periferia
de pernas finas e mãe louca
corre pra não perder o ônibus
pra chegar bem
em casa
Tua casa é a lua, menina
Tua casa não é esta casa
Teus homens não estão entre
estes homens
Corre, pra não perder a lua
pra não perder a rua
o [ilegível] que não é teu
a beleza que te sonegam
a expressão que amaldiçoam

Corre, menina da periferia
de pernas finas e mãe louca
enquanto a lua azul do céu
recebe rituais de sabah
de mulheres de outras tribos
enquanto a psicótica e o dramaturgo
voltam para casa nesta noite
Ele de carro, ela dorme pelas ruas
Corre, que essa noite é mágica
e enquanto o ônibus atravessa
essa pista esburacada
de concreto vacilante
você pensa na maconha
e nos índios que morreram

Menina louca, de mãe periférica
e pernas longas
essa noite é toda sua
esse mundo é todo seu
Corre, mas não te apressa muito
que senão os homens pensam
que tu tá fugindo
ou que tu é louca mesmo
A sanidade e a santidade
são preservadas
quando necessário
na medida do possível
És artista: não te exijas coerência
Essa coerência que rói e tolhe
todas as instâncias de espontaneidade

Corre, menina longa
de pernas loucas
pra não perder a mãe
o parto
o renascimento
Corre, que teu instante
é esse mesmo
e se ninguém enxerga
abre os olhos tu,
que te podes ver por dentro
Abre para dentro estes olhos longos
não os olhos de periferia
Não te excluas de ti mesma
Já basta o que te fazem
burocratas e pseudovidentes
Essa lua estará no céu
daqui a cem anos toda azul como hoje?
Haverá mulheres e ritual de sabah?
Tu bailas com o esquizofrênico
Tu beijas a face gloriosa
E te encantas com Clarice
fumando e caminhando de um lado para o outro
sob o olhar daquele menino
O que podes fazer hoje é caminhar por cima de todo lixo que te jogaram em cima

Corre, menina!
Corrida, menina-te
que a vida é louca
os cabelos são longos
a lua é azul
e a censura também é esquizofrênica
expressa pra mim esse grito
essa angústia
essa mentira
que hoje eu estou com sono
quero dormir a vida
quero ninar a taturana
pra virar borboleta
e esperar a metamorfose
correndo nos campos de centeio
nos campos de concentração
e na desconcentração de todos os campos

coloca teus enfeites na cabeça e vai, menina
tua coroa são tuas idéias
reina teu reino
come teu pão
bebe tua saliva
perturba teus pais
porque é chegada a hora
a grande, longa, periférica
esquizofrênica e loira
hora
toda hora é chegada a hora
respeita teu tempo e corre
agora então
porque é certo
que estás mais perto de ti
que qualquer outro
e isso é um privilégio

poema que escrevi no ponto e no ônibus há cerca de dez anos

Diana e a TV

Diana é seu nome. Ela quer uma aventura como as dos filmes americanos. Ela quer a vida dos famosos da TV. Ela sonha sonhos de propaganda.
Diana quer mais que uma casa, quer uma pele, uma voz, uma personalidade e mandar um beijo pro namorado em cadeia nacional.
Diana quer mais que uma família feliz, quer um layout. Quer que todos a amem, se descabelem por ela e gritem seu nome.
Diana só não quer este filho agora.
Diana sabe discernir muito bem o que está e o que não está ao alcance de sua mão.

Como vai?

"Vamos levando", "Vamos indo" é a resposta para minha pergunta:
_Como vai?
A primeira, de quem carrega algo. A segunda do que carrega a si.
A pergunta em si indica futuro e presente
É equivalente
A um
_Como está?
Se, porém, estar não é ir, não me zango com o vago das respostas.

Os hermetismos pascoais

Isto tudo aqui está em fase de teste
como na vida da gente
Eu posso dizer: nuvem
Eu posso dizer: visgo
Tudo teste de linguagem

Hermeto se propôs num ano compor 365 músicas. Eu me propus escrever 365 textos.
Ele pode dizer: dó
Eu posso dizer: ré
Ele pode dizer: nó
Eu posso dizer: fio

Gosto de escrever assim sem fio condutor. Não gosto de me achar ridícula depois que leio algumas coisa que escrevo mas sei que... bem, este é o caminho do teste. Talvez de uma profusão de palavras se possa tirar duas ou três que... me digam algo sobre mim ao menos. Quem escreve? Narciso ou seu reflexo?

De todos os testes que venho realizando nestes mais de trezentos dias, os mais difíceis tem sido aqueles de escrever com o corpo. Posto que o corpo também escreve, também tem sua fluência, sua fase silábica e sua oratória, sua pontuação.

sábado

Fanzines



Fanzine: junção das palavras fanatic+ magazine(revistinha de fanáticos)=publicação independente. Editei de 95 a 98 o fanzine Tábula Rasa que falava sobre música literatura e o que mais me desse na telha. De 98 em diante, lancei ou participei esporadicamente de fanzines impressos ."Terroristas do Verbo","Cream Cracker","Fí-lo porque quí-lo", "No Fun", "Identidade" e "Soda CAOStica" foram alguns. Agora volto a editar o Soda numa versão mais madura, mas não menos sujona... quase podre. Não há nada mais prazeroso que recortar revistas e jornais de grande circulação e montar minhas próprias "notícias". Só há algo mais legal que isso: o retorno dos leitores.

Interessados em adquirir a nova versão do Soda CAOStica, escrevam que eu mando.

Diálogo em branco e preto sobre o silêncio

Preto - ...
Branco -
Preto - Não vai falar nada?
Branco - Não era você quem tinha algo a dizer?
Preto - Assim não dá pra conversar.
Branco - Quer falar sobre o quê?
Preto - Vamos falar sobre o silêncio.
Branco - Não é melhor então meditar e permanecer quieto?
Preto - Não. Quero que você me diga o que pensa sobre o silêncio.
Branco - O silêncio? Acho que é um espaço em branco no som.
Preto - O silêncio não é a falta de luz no som?
Branco - É um som invisível.
Preto - Que coisa estúpida de se dizer.
Branco - Mais estúpido que "falta de luz no som"?
Preto - Silêncio é como quando ficamos no escuro.
Branco - Todo abismo é silencioso?
Preto - Você está fugindo do assunto.
Branco - É que não queria falar disto.
Preto - Assim não dá pra conversar.
Branco - Silêncio! Ouça o barulho da chuva.
Preto - ...
Branco - Silêncio é como um espaço entre uma gota e outra.
Preto - Não. O silêncio está dentro da gota.

sábado

aula de anatomia


poema visual?


Quadras de Patativa

Cada um alegre vai
Atrás da sua ventura,
Mas tudo tropeça e cai
No fundo da sepultura.

(...)

Não farei o teu desejo
Te dando versos, Maria,
Pois em teu olhar eu vejo
Dois livros de poesia.

(...)

Ser poeta é ter paixão
E sentir a dor do espinho.
Ter tudo no coração
E viver sempre sozinho.

Mais algumas do Mestre Patativa do Assaré

sexta-feira

fim de semana

tarefas imprescindíveis:
recostar-me numa rede
pisar a terra e arrancar ervas daninhas
escrever três cartas
terminar um roteiro

quinta-feira

Lista de compras desta semana

- uma exposição volante
- um punk sujo
- um hippie limpo
- coragem de voar
- tempo para concentrar-me em...

meus fragmentos recorrentes:

- os filmes e roteiros aos quais não dei curso
- as imagens estáticas que eu gostaria de saber produzir
- meus pensamentos sórdidos
- medo da loucura
- palavras desconexas que me saíram
- um ou outro homem
- uma ou outra mulher
- Dona Rosa
choveu de mansinho
dormi pesado
acordei cedinho
pensei em Drummond:
"Eta, vida besta, meu Deus!"

quarta-feira

Coisas que escrevi para um cara que escrevia

Provisões
O meu desejo enreda meu sangue nas veias e tece uma cesta onde jogo meus sonhos um a um como quem debulha feijão ou milho.
Pressa
A minha carência escurece a barra do dia nascente e eu carco o passo na vereda pra casa.
Sombra
As minhas mãos querem as suas como folha bebe luz e verdeia.
Relatividade
Parece que meu peso é um quando você vem perto e outro quando você vai longe.
Detença
Minha lembrança do seu perfil se detém quando chega na sua boca e outra vez quando encosto a memória nos seus olhos e descanso.
Futuro
Eu planejo como vou escorregar dentro de seu abraço.
Crueldade
Começa a brotar em mim uma florzinha miúda e cheirosa. Se enjoar do perfume, deixo de regá-la?
Espera
Quando a lacuna avança, eu salto e danço no terreiro de casa, passarinho que invade o descuido do cachorro e come os farelos no quintal.
Aprendizado
Lavando os pés com cuidado me lembro que meu corpo pode me ensinar outro corpo.
Desperta
Sempre espero serenata, por isso prefiro as janelas abertas.
Conta
A secura da boca intera o dia de te ver.
Investigança
Vasculho seus movimentos procurando pássaros.
Sabedoria
Respiro melhor de olhos fechados.
Selo
Fecho o envelope com saliva para sentir o gosto da distância.
Compras
Carregando minhas sacolas descobri o peso dos meus braços quando chove.
Rua
Um graveto, uma pedra, uma folha, até um muro é brinquedo.
Contorno
Não sei dizer seu tamanho medido com compasso e régua. Só sei que é menor.
Após
Dois dias depois de te ver de longe, o açude seco invadiu meu alagado.
Descoberta
Uma das maneiras de estar junto é estar longe e vice-versa.

Verdade com prazo de validade

Uma palavra:
Sede.
Uma vontade:
Ir embora.
O que me irrita:
Ver-me.
O que me alegra:
Os amigos.
Eu não sei pedir socorro.
Eu não sei ajudar ninguém.
Eu não sei cantar nem trabalhar como atriz. Eu só dou aulas por conveniência.
Eu sou muito preguiçosa e fujo mais do que o tamanho do meu medo.
Eu bebo porque não suporto o mundo.
Metade das coisas que eu sinto eu escondo, a outra metade eu minto.

En la ultima hora de la noche aún están cerrados los ojos de los ángeles


Es el amor con sus ventanas abiertas
por donde sopla un viento que no cessa jamás
Si cerramos los ojos
mientras sopra el viento
nos olvidamos de todo
e todo si cambia
los ojos no son más los mismos ojos
nosotros no somos más nosotros
las ventanas no son más ventanas
e su sopro
mismo su sopro cambia
si convierte in otro
si convierte in otro
para lo siempre.
Pero si abrimos los ojos
mientras sopla el viento
si pára el reloj
e todo se hace estatico.
Esto es el amor
con sus ventanas abiertas.
Se pasa que muchas veces
cerramos las ventanas del amor
e no hay viento
Cuándo asi si pasa
no hay ninguna diferencia
entre abrirse ou cerrarse los ojos.

terça-feira

Cenas velhas

Apaga-se a luz. Ele que pediu. Ele sente medo. Tanto que quase posso ouvir seu coração. Sinto o cheiro do seu medo e da sua nudez no escuro. Eu chamei e ele veio até aqui, agora sou senhora da situação enquanto que ele se pela de medo. De quê?
Corte para a próxima cena.
Estou andando bêbada pela rua me escorando nele. Ele me fala de sua mãe de um modo tão próximo, tão íntimo, tão sofrido que minha bebedeira passa e escuto. Dali a pouco sou eu quem fala de modo vertiginoso. Foi um vômito verbal. Identificação. Eu quero abraçá-lo. Eu sei que ele não quer consolo porque isso seria humilhante.
Corte para a próxima cena
Estou dançando e beijando você mas estou bêbada demais pra coordenar isso. Resolvo dançar apenas. A música entra por baixo dos meus pés como fúria. Sou toda fúria. Quero agredir todos os outros com meu corpo. Quero agredir você e mostrar quem sou eu. Procuro o primeiro cara que olha pra mim e peço que ele me pague uma bebida. Ele paga. Meu amigo me arranca dos braços dele e me devolve pra você que não sabe o que fazer comigo. Você tenta apenas me impedir de ir embora. Ainda assim eu vou. Eu te amo e fujo de você. Porque eu te amo, eu quero que você sofra. Sou uma imbecil.
Corte para a próxima cena
De novo eu te encontro por acaso na noite da metrópole. Fico feliz porque tenho um par, mas ainda não sei se tenho mesmo. Aparecem outras pessoas amigas. Você anda comigo pra lá e pra cá me apresentando gente. Eu quero dançar. Nós vamos. Eu quero ficar com você. Você deixa. Eu penso que minha língua, minhas mãos, minha boca, meu corpo e minha alma têm que mostrar pra você o tamanho do meu amor porque estou convencida de que você não o conhece. Então eu te beijo e a música do lugar não existe mais. Só existe você ao alcance da minha boca e da minha alma que quase sai com a minha saliva. Então vejo imagens coloridas e tudo e leve e cheiroso dentro do meu peito. Há calor saindo da minha barriga. Quando abro os olhos de novo você está me olhando como se buscasse alguma coisa dentro dos meus olhos. Até hoje não sei se eu tava te fazendo passar vergonha ou se você entendeu o que meu beijo quis dizer.

Trecho de "Os dragões não conhecem o paraíso" - texto escrito a 4 mãos junto com Pietro Picolomini

Parte VII - Amo mulheres que dizem tolices, amar é se lançar às águas

Ela - Disse que você tinha gostado do texto dela e disse que você ia gostar de conhecer ela. Ela disse que não queria te conhecer pra não se apaixonar por você.
Ele – Por que foi dizer que eu gostei do texto dela?Era uma merda!
Ela - Pra ela ficar contente.
Ele - Quando eu encontrar com ela vou dizer que achei uma merda. Olá muito prazer, então foi você quem escreveu aquela bosta?
Ela - Não vou apresentar vocês.
Ele - Você tem medo que ela se apaixone por mim ou que eu me apaixone por ela?
Ela - Você não iria gostar dela, acha o texto dela uma merda...
Ele - Geralmente amo mulheres que dizem bobagens.
Ela - E por isso não me ama.
Ele - Você diz muitas tolices, mas vamos dizer que é por isso também. Não gosto de você porque não me mostra seus desenhos. Tenho certeza que me desenha. E não gosto de você porque me ama e fica falando nisso, isso enche o saco.
Ela - Você me ama e não sabe. Quando for embora vai saber e vai doer tanto que você vai chorar que nem criança e se lembrar do cheiro dos meus cabelos...
Ele - Pragas não pegam em céticos.
Ela - Você não é cético, você tem desejos.
Ele - Se você me desenhar antes de eu viajar, talvez eu ame você.
Ela - Isso é uma condição? Quer dizer que se eu mostrar um desenho meu, você vai me amar?
Ele - Penso no seu caso.
Ela - E eu vou pensar no seu.
Ele - Não acho que você seria capaz de produzir uma imagem de mim.
Ela - Não acho que você seria capaz de me amar.
Ele - Então estamos quites. Você trocou de xampu?
Ela - Não acredito que está me perguntando isso a sério. Não, não troquei, por quê?
Ele - Porque fiz uma aposta com um amigo meu.
Ela - Você apostou com quem o quê?
Ele - Apostei que se você trocasse de xampu eu te arrastaria pelos cabelos.
Ela - Você já anda me apostando por aí?!
Ele - Cada um aposta o que tem.
Ela - Belo texto professor, mas não levo jeito para sua aluna. Não há nada que você possa me ensinar, nem nada de que você possa me convencer. Não gostaria de ser maltratada.
Ele - (pausa) Eu jamais maltrataria você. Me surpreende que você tenha pensado nessa possibilidade.
Ela - Eu sempre penso em todas as possibilidades.
Ele - Isso é só um relacionamento não precisa usar de estratégias de guerra.
Ela - E você sabe em que possibilidade estou pensando agora?
Ele (olhando um instante para ela) - Sei. Você cogita a hipótese de me convencer de não viajar.
Ela - Claro que não.
Ele - Você pensa em tudo que poderia me dizer que me convenceria a ficar aqui. Como você sabe que sou cabeça dura vai tentar apelar para coisas práticas como a minha estabilidade no emprego, o aluguel barato, a facilidade de locomoção...
Ela - Você nunca se convence por argumentos práticos. Você se convence por tolices. Mas não quero te convencer de nada. Eu pensava na possibilidade de não gostar de você nem um pouco. Pensava na possibilidade de te odiar.
Ele - Impossível odiar alguém como eu. Eu sei ser amável.
Ela - Ninguém odeia você?
Ele - Alguém odeia você?
Ela - Deve ser meio sem graça quando ninguém odeia a gente.
Ele - E o que é mais instigante, ser odiada ou ser amada?
Ela - Quando alguém odeia a gente dá mais vontade de fazer coisas bonitas, se alguém deseja sua morte, isso te dá mais vontade de estar vivo. Quando alguém ama você é como se jogasse uma pedra num lago quieto. Formam-se ondas, o lago inteiro, antes parado, se agita. Mas como ele tende ao repouso, logo voltará ao seu estado inicial... só que a pedra fica lá no fundo. Algo mudou. Amar não muda a natureza das coisas.
Ele - Bonito pensamento:Amar é se lançar às águas ...meio suicida isso...
Ela - Para amar alguém é preciso se odiar um pouco, lançar mão de si mesmo.
Ele - Onde você leu isso?
Ela - (suspira) Deve ter mais gente que te odeia do que você pensa.
Ponha-me no chão! - eu peço.
meu verso não me atende.
Gastar horas pensando um verso
Gastar horas lapidando uma frase
Pensar num título genial e simples tal como: Réquiem
Ver meu corpo estendido na linha do horizonte

A rima
A voz
A linha
Meu corpo é um ponto
e meu corpo é a linha, se eu quiser

Deixar que me leiam
que me imprimam
que me copiem

Não me importo muito com a forma
tampouco com o conteúdo

Ter saudades das palavras de meus amigos
E só.

Um entardecer no centro de São Carlos


Teatro do Oprimido - mini-curso

Mini-curso de jogos teatrais para estudantes da pedagogia.
Leio Boal para me preparar.
As garotas gostam da ciranda, dos exercícios em dupla. Quero chegar em algum lugar.
Faço um exercício que exige olhos nos olhos e verdade. Duas garotas choram.
Conversamos. Elas me dizem que nunca nenhuma aula da faculdade exige que elas se dispam de suas máscaras. Elas me dizem que nunca em nenhuma aula da faculdade exige-se que se olhem nos olhos. Fico pensando para que servem afinal as aulas das faculdades.
Fico pensando que para fazer teatro, primeiro é necessário olhar bem a máscara que trazemos pregada à cara.
Elas me dizem que conviviam entre si, mas que agora podem garantir que têm uma relação mais próxima com as pessoas ali presentes.
Não dá tempo de fazer nenhum exercício de Teatro Fórum. Fazemos um de Teatro Imagem. As duas imagens que peço são família e trabalho.
O grupo que representa família, coloca uma pessoa estirada na mesa e as demais devorando-a. Explicam a seguir que a pessoa devorada é o filho mais velho.
O grupo que representa o trabalho, traz duas madames fofocando no salão de beleza enquanto são atendidas por um monte de trabalhadoras.
São imagens muito fortes e representativas de situações de opressão para estas meninas.
A imagem da família é superada por outra em que todos estão à mesa, mas de mãos dadas, olhando-se. Contudo, o pai continua na cabeceira e uma das pessoas beija sua mão.
A imagem do trabalho é substituída por outra em que as madames tornam-se empregadas. As meninas ficam frustradas porque pela quantidade nem todas as empregadas conseguem virar madames na imagem. Saio pensando que para elas a única maneira de superar uma opressão é oprimindo. Paulo Freire estava certo.