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terça-feira

Últimas aulas



últimas aulas na última escola onde eu ainda poderia dar aulas por aqui: Escola CAASO.
Depois... a lousa.

domingo

Antes da chuva

hoje, sentindo as árvores e olhando pro tempo
sentindo uma impressão profunda de Deus
escutei uma música dentro
que cantarei amanhã

sexta-feira

Do surgimento da tragédia e da comédia

O dia em que Deus chorou

Deus que fez a Terra acrescentando o Sol, a Lua e as estrelas. O Sol brilhava muito entre nuvens azuis, brancas e amarelinhas.
As nuvens amarelinhas já no fim da tarde quando o amigo Sol ia repousar e as estrelas celestiais vinham ou desciam à Terra para a noite iluminar.
Porém não permaneceu iluminada a Terra tão somente pelo Sol, veio também a Lua e suas companheirinhas da noite chamadas de estrelas. Algumas delas se identificaram à noite com outros nomes. Isso devido ao nascer diariamente do também chamado Astro Rei do dia. Durante a noite ele, o Astro Rei repousava e as estrelas do altíssimo celestial faziam e ainda fazem a sua parte.

Mestre Ló

As aparências enganam



_Mãe, um dia posso fazer um filme sobre você?
_ Por mim...- responde ela dando de ombros.
_ E o que você quer que apareça no seu filme?
_ Tanto faz. As aparências enganam.


(os textos garatujas bipolares são criações e reinações de minha mãe Lourdes)

ABC do Nordeste Flagelado



Patativa do Assaré - poeta de pouco estudo e muita sabedoria













ABC DO NORDESTE FLAGELADO.



A — Ai, como é duro viver

nos Estados do Nordeste

quando o nosso Pai Celeste

não manda a nuvem chover.

É bem triste a gente ver

findar o mês de janeiro

depois findar fevereiro

e março também passar,

sem o inverno começar

no Nordeste brasileiro.


B — Berra o gado impaciente

reclamando o verde pasto,

desfigurado e arrasto,

com o olhar de penitente;

o fazendeiro, descrente,

um jeito não pode dar,

o sol ardente a queimar

e o vento forte soprando,

a gente fica pensando

que o mundo vai se acabar.


C — Caminhando pelo espaço,

como os trapos de um lençol,

pras bandas do pôr do sol,

as nuvens vão em fracasso:

aqui e ali um pedaço

vagando... sempre vagando,

quem estiver reparando

faz logo a comparação

de umas pastas de algodão

que o vento vai carregando.
(...)
Esse é só um trecho. O poeta segue pelo abecedário completo, que Patativa nunca foi de deixar verso pela metade. É dele também "Triste Partida", que Luiz Lua Gonzaga musicou.


Lefér Guimarães, diretor e ator de teatro radicado em São Carlos, empreendeu comigo uma adaptação de "Os Sertões" de Euclides da Cunha para teatro. Minha matriz familiar pernambucana me incumbiu de dar o tom das poesias da peça. E lá vou eu escrever sobre a personagem da peça que é uma homenagem e referência a este grande poeta brasileiro que foi Patativa:


Aqui nesta minha terra
cantadô é passarinho
seja na paz ou na guerra
acompanhado ou sozinho

Cada um canta o que vê
e este cantadô preciso
se com os olhos não vê
é porque vê com o siso

Desde criança ele é cego
traz esta sina por novo
digo a verdade não nego
é um poeta do povo

Luta contra a opressão
levanta a voz com firmeza
contra a maldade a traição
e tudo que fere a beleza

Se eu imagino, não vejo
se ele não vê, imagina
vamos contar num lampejo
esta história nordestina
(...)
E por aí vai.
Antes dele morrer, queria ter ido a Assaré visitar Patativa, pegar suas mãozinhas e dizer:
_Quando eu fô grande vô sê que nem tu, pueta!

quinta-feira

Estes moços...


Brincar de pipa não pode, é brinquedo de menino. Tinha uma mala escolar dos Thundercats - eu adorava este desenho - mas também não podia, era coisa de menino. Subir em muro, aqueles caminhões grandes de madeira que até cabia a gente dentro, tudo coisa de menino. Sempre gostei muito das coisas de menino, apesar de brincar bastante de casinha, boneca e professora também.
Virei uma moça magrela, andrógina, com alguma facilidade de saber o menino que foi cada moço que conheci. Gostava mais de conversar com os moços porque eles não tinham frescura. E todos os moços que gostaram mais de mim foi porque eu não tinha frescuras pra eles também.
Estes moços e os fascinantes meninos que carregam dentro! Os moleques que faziam da vida da professora um inferno, os safados, ou os que eram calados demais pra ter amizades. Eu posso vê-los através das barbas, dos olhos e da voz grave dos moços.
Desajeitados, tontos, lindos, feios, inteligentes, machistas, delicados. O mais legal é que não conseguem disfarçar quando estão ou não estão excitados. O mais legal é embriagar aqueles mais inexperientes.
“Todo menino é um rei, eu também já fui rei.”

texto em resposta ao "Improviso sobre as mulheres" do Pitaqueiro

quarta-feira

“Ler com Prazer”

Por duas vezes não encontrei, mas aqui... Aqui eu sempre passo de ônibus e nunca entrei. Parece aconchegante. Pilhas e pilhas até o teto, mas cheira a ventilado. Ele levanta os olhos do livro e me vê primeiro. Eu, uma adolescente morna, cheia de espinhas na cara, algum chão sob os pés e romances na cabeça. Imediatamente fiz cara de inteligente, pisei mais leve e ergui a cabeça tanto quanto podia - sempre gostei de parecer alta, meu desejo de antes era ser a última da fila na escola, agora era não ter mais espinhas. - Vi que minha pose não adiantava nada, estas pessoas mais velhas que de uma olhada já sabem tudo de você, ele me lia como lia há pouco o livro. Não lembro se fui eu ou ele quem falou primeiro. Coisa de poucas palavras...o jeito dele me olhar depois que eu disse o que queria parecia cinema:
_ Estou procurando uma Clarice Lispector.
_Qual?
Eu respondo. Há um silêncio de segundos.
_Aqui embaixo eu sei que não tem. Vou olhar lá em cima. Fique à vontade.
Só então é que percebo que atrás de mim há uma escada que leva a uma espécie de sótão. Por certo ali deve haver mais pilhas e pilhas de livros e talvez não seja tão ventilado.
Eu espero. No meio da cidade imensa, zoneada, barulhenta, apesar das portas escancaradas, ali não faz barulho algum, parece filme. Eu vejo o ônibus passar fora e fico olhando lá de dentro entrincheirada entre romances, prosa e verso, pra ver se naquele ônibus tinha alguém que também reparava na livraria. Todos distraídos. Psicologia, auto-ajuda, cinema, filosofias, romances, prosas, versos... Ele volta com a Clarice nas mãos:
_Este?
_Isso. Que bom! Já tinha procurado em duas livrarias e nada.
_... É pra presente, né?
_É... mas não precisa embrulhar.
Saio feliz. “Ler com Prazer”. Era um bom nome de livraria e um lugar que parecia cinema. Foi um presente caprichado. Fiz anotações no livro inteiro nas partes que eu queria ressaltar para meu namorado. Meu primeiro namorado, a Clarice falaria com ele por mim.
Nunca mais entrei naquela livraria. Era no centro e eu passava sempre de ônibus olhando, pensando em ir conversar de novo com aquele homem que me leu. Mas o tempo passa mais rápido quando a gente vai deixando de ter espinhas. Um dia, tudo fechado, o que se repetiu por vários dias até que venderam o prédio para uma agência de viagens. Isso me entristeceu um pouco.
Fui embora da cidade barulhenta. Fui de ônibus, eu, quase uma mulher, pés tortos e alguns filmes na cabeça.
Algumas vezes encontrei por aí meu primeiro namorado e nunca contei nada da livraria, nem perguntei mais da Clarice. Um dia nos encontramos, quase formados, cheios de planos e até problemas na cabeça. Nada mais de romance nem de filme, mas a paisagem muda num repente:
- Eu li aquele livro que você me deu.
Tenho que franzir a testa, não me lembro.
_Quando?
_Você me deu faz um tempão, mas eu li agora em setembro.
Penso no homem da livraria, nas mulheres que ainda serei, no chão que me passou sob os pés tortos, romances, filmes, prosas e versos. Nós rimos.

Lauro Pontes

Sem dinheiro. Fim de ano e a gente resolve fazer mais uma festa com pinga. Foi boa, lembro de ter dançado muito e acordei na minha cama não sei como. Minha cama era alta e eu fui dormir bem alta também. Na real fui acordada pelo casal ao lado, quanto mais se esforçavam pra sussurrar, mais nítido eu ouvia. Aparentemente acabavam de chegar e estavam piores que eu que tinha dormido um pouco. O dia já entrando pela janela aberta por causa do calor. Tentei voltar a dormir, quase consegui, mas fui acordada novamente, desta vez um amigo meu que abriu a porta de sopetão, me sacudiu e anunciou: “Só vim te trazer um presente, uma surpresa!” - Entra você pelo quarto de sorriso fresco, gestos esguios, ... será que estou dormindo? Dentro de poucos segundos você está na minha cama, estou acordada e já não me importo nem um pouco com as outras pessoas no quarto. O dia entra límpido pela janela, sobe o sol devagarinho, me lembro num repente o que eu gostava em você, acho que era seu atrevimento.
_Você lembra daquela festa que a gente se encontrou no fim da noite e você tinha bebido pra caramba?
_Não. Fim de noite, beber pra caramba... nada esclarecedor.
_Então, eu não entendi direito o que estava acontecendo mas você tava puta comigo e disse pra eu ir embora...
_Ixe, acho que lembrei!
_... daí eu não fui, você ficou furiosa e me deu um soco na cara.
_Peraí, não lembrei não. Eu te dei um soco?
_De direita bem dado.
Dia claro. A gente conversa abraçados. Começo a me lembrar o que eu detestava em você, acho que era seu atrevimento.
_E pelo menos o soco doeu?
_Pra caralho.
_Então, beleza.