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domingo

Só e nu

O homem entra nu na sala e me chama para tomar banho.
Eu o conheço, mas nunca o tinha visto nu, muito menos adivinharia que ele quereria tomar banho comigo algum dia. Está de cabelos soltos e se parece com outros rapazes que namorei, exceto por ser mais alto. Também é mais musculoso.
Estou vestida e atônita e com vergonha. Vou até a porta para fechá-la e ele me puxa pelo braço. Começo a despir-me evitando olhá-lo e ele já está debaixo d'água. A sala é fora do comum; instalou-se um chuveiro provisório ali, mas há livros e CD's nas estantes. É então que entram outros caras pela porta que só ficou encostada. Tento falar-lhes mas não me dão nenhuma atenção e vão escovar os dentes e entrar na fila do banho também, alguns estão já semi-nus. Ele está debaixo do chuveiro com cara de "fica pra próxima".
É neste ponto que acordo sonolenta. Passa-se o dia sem que eu possa esquecer a imagem daquele homem caminhando nu. Encontro um amigo em comum no MSN. Pergunto a respeito dele e da namorada de outra cidade.
- Eles brigaram feio.
Meu ímpeto é ir até onde ele mora e levar umas cervejas, mas sei que ele não gosta de surpresas. Limito-me a mandar um e-mail meia-boca perguntando de trabalho e passo o fim do dia dormindo pra sonhar de novo. Penso em escrever um artigo bem científico bem grande e bem consistente acerca da repressão sexual.

sábado

mocinha no celular

O que é que tem? Faz tempo?... Mas e daí? Esse carinha mexe com você ainda, né?

Falava ao telefone móvel compulsivamente sem pudores para com as pessoas ao redor de si.

Sei. ... E onde foi que você viu?... Ele te viu, ou não? ... Você ficou nervosa? ... Não acredito!

Dava entonações modulares à voz como se aquilo se tratasse de uma radionovela via telefone e a pessoa do outro lado da ligação precisasse sentir toda sua emoção.

Mas como se nada tivesse acontecido?... Menina!

Algumas pessoas ao redor começaram a dar mostras de incômodo. Um senhor que tentava dormir no banco logo à frente, começou a virar-se para mostrar desconforto.

Mas aquela vez foi quando vocês ficaram ou quando vocês transaram?

A senhora que está no banco em frente ao meu, arregala os olhos e faz cara de desaprovação.

Ele fez o quê? ... E mesmo assim você quer voltar pra ele?

O celular do cara que está bem ao lado da mocinha, toca. Ele tenta falar baixo mas ela continua gritando ao seu lado.

Oi. Tô chegando em casa...
Francamente! Isso pra mim tem nome: falta de vergonha na cara!
...Não. Tô no metrô!

O cara desce. A mocinha não. O senhor mudou de lugar. A senhora está ainda de cara feia.

Claro! Vai dizer que você não faria a mesma coisa? Fala sério!


Levanto pra descer e a mocinha levanta também.

Não, Ju! Tô sendo sincera com você. Esse cara não te merece. ... Você fazia tudo pra ele! ... Sim mas você acha que ele vai querer?... Não estou falando que a culpa é sua, quero dizer que você precisa partir pra outra...

Ela sobe a escada rolante pelo outro lado e seu diálogo público vai sumindo na distância. Os ruídos da cidade aumentam quando saio na rua e fico pensando que esses barulhos conversam comigo também.

domingo

Máximo Gorki e suas universidades

Só em duas coisas venho mantendo disciplina neste janeiro: ler literatura e anotar diariamente meus sonhos.
Os sonhos estão me levando a pesquisas.
As leituras trouxeram novamente os russos à minha cabeceira. Comprei de presente de aniversário para mim há dois anos, o livro de Máximo Gorki que só agora estou lendo, "Minhas Universidades".
Colhi de lá a frase que se segue:

"Bastante cedo compreendi que é a resistência ao meio que cria o homem."

E mais algumas passagens:

"O amor e a fome governam o mundo."

"Para uma moça, a honra é uma fortuna, mas para ti é apenas uma entrevista. Um boi é honesto porque lhe basta um feixe de feno."

"... a leitura de Adam Smith não me entusiasmava; os princípios fundamentais da ciência econômica cedo se me tornaram familiares: eu assimilara-os diretamente, tinha-os gravados na mente e, a meu ver, não valia a pena escrever obra tão volumosa com palavras tão difíceis, sobre assunto tão claro para quem esgota suas forças a assegurar o bem estar e o conforto de 'um senhor que não não lhe é nada'"

Este livro é o último de uma trilogia autobiográfica de Gorki. Precedem-no "Infância" e "Ganhando meu pão", os quais não li. A edição que tenho em mãos, adquirida num sebo, tem tradução de Paulo Rodrigues, editado pela Livraria Exposição do Livro e não contém nenhuma referência do ano da edição embora a gramática seja obsoleta e haja alguns erros como troca de nomes de personagens, confusão de gênero, entre outros. A única referência de data no meu livro é a assinatura do último que o teve em sua estante, seguida de uma anotação que faz supor que foi adquirido em agosto de 1964.
Máximo Gorki (não sei qual é afinal a grafia correta, com acento no "a", no "o" ou em ambos?) faz aparecer diante de nós sua vida às margens do rio Volga em meio a mujiques, ladrões, estudantes, mulheres (não há senão referências leves a elas) e principalmente livros. Faz crer que são os livros, as universidades às quais ele se refere, pois o que o move de um canto a outro é poder ler.
Realiza os trabalhos mais diversos de padeiro a estivador, mas sempre em companhia dos livros, sem contudo situar-se socialmente nem como estudante nem como rude trabalhador iletrado. A atmosfera permanente de tédio perscruta-o como uma sombra. Angustiado tenta suicidar-se com um tiro no peito que acaba por perfurar um dos pulmões e nos conta tudo isso como quem fala a respeito do que comprou na feira, de uma maneira direta, objetiva, clara e crua, tal como só Gorki é capaz de narrar.

O teatro e seu duplo - Antonin Artaud

"Prefácio - Teatro e Cultura

Nunca, quando é a própria vida que nos foge, se falou tanto em civilização e cultura.
(...)
Mais urgente não me parece tanto defender uma cultura cuja existência nunca salvou uma pessoa de ter fome e da preocupação de viver melhor, quanto extrair , daquilo que se chama cultura, idéias cuja idéia viva é idêntica à da fome.
(...)"


Assim inicia Antonin Artaud seu livro tão substancial e tão difícil de digerir e com o qual me identifico tanto. Absorvo suas palavras, repito-as em voz alta para que façam eco no meu corpo todo.
Segue neste link um texto de Antonin Artaud falado em espanhol por um video artista. É interessante apesar da propaganda que há no começo da exibição. "Para acabar com o juízo de Deus", o texto recitado neste vídeo, não faz parte do livro que cito aqui, é uma peça radiofônica escrita por Artaud.

Oração do Milho - Cora Coralina

Introdução ao Poema do Milho

Senhor, nada valho.
Sou a planta humilde dos quintais pequenos e das lavouras pobres.
Meu grão, perdido por acaso, nasce e cresce na terra descuidada.
Ponho folhas e haste e se me ajudares Senhor, mesmo planta de acaso, solitária,
dou espigas e devolvo em muitos grãos, o grão perdido inicial, salvo por milagre,
que a terra fecundou.
Sou a planta primária da lavoura.
Não me pertence a hierarquia tradicional do trigo e de mim não se faz o pão alvo universal.
O Justo não me consagrou Pão da Vida, nem lugar me foi dado nos altares.
Sou apenas o alimento forte e substancial dos que trabalham a terra, onde não vinga o trigo nobre.
Sou de origem obscura e de ascendência pobre, alimento de rústicos e animais do jugo.
Quando os deuses da Hélade corriam pelos bosques, coroados de rosas e espigas, quando os hebreus iam em longas caravanas buscar na terra do Egito o trigo dos faraós, quando Rute respigava cantando nas searas de Booz e Jesus abençoava os trigais maduros, eu era apenas o bró nativo das tabas ameríndias.
Fui o angu pesado e constante do escravo na exaustão do eito.
Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante.
Sou a farinha econômica do proletário.
Sou a polenta do imigrante e a miga dos que começam a vida em terra estranha.
Alimento de porcos e do triste mu de carga.
O que me planta não leva comércio, nem avantaja dinheiro.
Sou apenas a fartura generosa e despreocupada dos paióis.
Sou o cocho abastecido donde rumina o gado
Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece.
Sou o carcarejo alegre das poedeiras à volta dos seus ninhos.
Sou a pobreza vegetal, agradecida a Vós, Senhor, que me fizeste necessário e humilde.
Sou o milho.

(Este texto foi retirado do livro "Poema do Milho" de Cora Coralina, editora Global, para evitar as citações incorretas encontradas pela internet)

Clarice e eu

Em 1992 eu tinha 15 anos e lia Clarice Lispector como quem bebe água. Assim permaneci até cerca de 18 anos.
Fui admiradora profunda de duas pessoas de cabelos azuis. Um deles apareceu um dia com uma camiseta onde se lia: "I wanna be a gay". Eu não sabia inglês e era bastante confusa com relação à minha sexualidade. Foi ele quem me disse pra desencanar de Clarice e ler outras coisas, que havia escritoras muito melhores que ela. Só porque ele tinha cabelos azuis, ouvi o conselho, mas não imediatamente. Primeiro li bastante e até reli algumas obras como numa despedida.
Fato: desde então, cerca de 13 anos se passaram sem que nunca mais eu tivesse contato com esta escritora que tanto inspirou-me o desejo de escrever.
Há alguns dias vejo na TV um trecho de "De corpo inteiro - entrevistas", filme que brinca entre a ficção e a realidade numa parte do universo desta escritora que eu desconhecia. São várias atrizes interpretando uma Clarice que conversa com escritores, artistas ... até mesmo o Niemeyer. Durante um período de sua vida, ela realmente realizou estas entrevistas publicadas em jornais e revistas numa coluna chamada "Diálogos possíveis com Clarice" e reeditadas no livro "De corpo inteiro". Na verdade não gostei muito do filme, muito embora a idéia seja bem interessante. Com exceção de Aracy Balabanian, que está esplêndida, as outras atrizes não são Clarice e tudo dá uma impressão de artifícios, ao contrário das entranhas expostas que a escritora buscava na sua literatura. Contudo, algumas entrevistas são realmente boas, como a de Ferreira Goulart, Tônia Carreiro e a de Nelson Rodrigues. Tônia diz e concordo: " O que mais interessa na vida é ser amada."
Por causa deste filme voltei a Clarice, começando por "Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres". Infelizmente achei o livro bastante desinteressante, salvo algumas passagens que seguem:

"Eu sou mais forte do que eu."

"Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível."

"Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer 'pelo menos não fui tolo' e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamadode fraqueza a nossa candura. Temos temido um ao outro, acima de tudo, e a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia."



Em todo caso aí vão os links:
1- do blog da diretora Nicole Algranti, que é também sobrinha de Clarice
2- da poesia de de Clarice musicada por Cazuza e cantada aqui por Cássia Eller

raiz

Eu falei uma língua que não existe mais.
Eu cantei uma canção ancestral e fiz um ritual com a cabeça de um cachorro morto que voltou à vida durante o rito.
Foi um povo dizimado por armas de fogo e eu vi o homem ser atravessado por uma bala de canhão e ainda ficar vivo um instante vendo-se por dentro.
Ainda existe muito ódio misturado com sangue no meio da terra roxa.
Eu posso compreender melhor agora como é ser árvore.