- pães quentes devem ter cheiro de sol
- roupa limpa se amassa com a boca
- as escadas desta casa não precisam de corrimão
- as forminhas de gelo devem ser limpas com água sanitária
quinta-feira
Anna e o silêncio
Uma caixinha de música no meio da sala.
A sala é ampla elegante e vazia. Poucos móveis. A música da caixinha ecoa nas paredes alvíssimas. A grande porta de vidro dá para a varanda e está fechada.
Uma mulher vem pelo corredor. Usa um vestido vermelho longo, traz uma taça na mão esquerda, a pele pálida como as paredes. Seu nome é Anna.
Ela espera que a música cesse, esvazia sua taça de um só gole e dá corda até o fim. Enquanto a música preenche sua ampla sala vazia, Anna some novamente pelo corredor com a taça na mão esquerda. Quando volta com a taça cheia a música já está findando lenta. Ela esvazia a taça num só gole. Fica em silêncio por alguns instantes e então abre a grande porta de vidro com vagar. De fora chegam barulhinhos distantes e agudos de bicho misturado com máquina.
Ela dá corda à caixinha e mete-se pelo corredor segurando o vestido e a taça vazia.
É noite. Nenhuma luz mais entra pela porta de vidro.
Anna retoca seu batom usando um espelho de mão na sala iluminada por uma luminária artesanal de fibras.
Ela não dorme há alguns dias e tem olheiras fundas, por isso é obrigada a retocar a maquiagem sob os olhos também.
Anna vai até a varanda. Volta à sala. Sente vontade de dar corda á caixinha novamente mas não o faz. O silêncio começa a invadir a sala e o pensamento dela, um silêncio muito fundo, muito bom. Mas para distrair-se ela levanta-se e novamente some pelo corredor com sua taça nas mãos.
Só depois de esvaziar novamente a taça de um só gole, é que ela dá corda à caixinha e permanece ouvindo a música que vai se misturando com um silêncio de fundo. O silêncio que fica quando acaba a última nota da música no meio da noite, não é igual ao silêncio que fica de fundo enquanto a música soa. Ela aguça os ouvidos. Desiste.
Agora seu vestido está sobre o sofá. Anna segura seu espelho de mão junto ao rosto e mira-se. Depois de alguns instantes, começa a retirar a maquiagem do rosto. Se detém um instante enchendo e esvaziando novamente a taça.
Anna está deitada no chão de sua sala vazia. Sua taça está vazia. A caixinha ressoa aguda muito longe. Sua mente está em silêncio. Seu vestido vermelho dança sozinho pela sala ampla, quase sem móveis. A luz bruxuleante da manhã vai apagando a luminária.
A sala é ampla elegante e vazia. Poucos móveis. A música da caixinha ecoa nas paredes alvíssimas. A grande porta de vidro dá para a varanda e está fechada.
Uma mulher vem pelo corredor. Usa um vestido vermelho longo, traz uma taça na mão esquerda, a pele pálida como as paredes. Seu nome é Anna.
Ela espera que a música cesse, esvazia sua taça de um só gole e dá corda até o fim. Enquanto a música preenche sua ampla sala vazia, Anna some novamente pelo corredor com a taça na mão esquerda. Quando volta com a taça cheia a música já está findando lenta. Ela esvazia a taça num só gole. Fica em silêncio por alguns instantes e então abre a grande porta de vidro com vagar. De fora chegam barulhinhos distantes e agudos de bicho misturado com máquina.
Ela dá corda à caixinha e mete-se pelo corredor segurando o vestido e a taça vazia.
É noite. Nenhuma luz mais entra pela porta de vidro.
Anna retoca seu batom usando um espelho de mão na sala iluminada por uma luminária artesanal de fibras.
Ela não dorme há alguns dias e tem olheiras fundas, por isso é obrigada a retocar a maquiagem sob os olhos também.
Anna vai até a varanda. Volta à sala. Sente vontade de dar corda á caixinha novamente mas não o faz. O silêncio começa a invadir a sala e o pensamento dela, um silêncio muito fundo, muito bom. Mas para distrair-se ela levanta-se e novamente some pelo corredor com sua taça nas mãos.
Só depois de esvaziar novamente a taça de um só gole, é que ela dá corda à caixinha e permanece ouvindo a música que vai se misturando com um silêncio de fundo. O silêncio que fica quando acaba a última nota da música no meio da noite, não é igual ao silêncio que fica de fundo enquanto a música soa. Ela aguça os ouvidos. Desiste.
Agora seu vestido está sobre o sofá. Anna segura seu espelho de mão junto ao rosto e mira-se. Depois de alguns instantes, começa a retirar a maquiagem do rosto. Se detém um instante enchendo e esvaziando novamente a taça.
Anna está deitada no chão de sua sala vazia. Sua taça está vazia. A caixinha ressoa aguda muito longe. Sua mente está em silêncio. Seu vestido vermelho dança sozinho pela sala ampla, quase sem móveis. A luz bruxuleante da manhã vai apagando a luminária.
terça-feira
Rosa Vermelha
Viajou.
Ela não está acostumada. Acordar sem a carícia.
Fumaça, logo cedo, fumaça. Cedo não. Que horas são?
Essa coisa de viajar. A menina também vinha de fora. Menina, não.
Ela não está acostumada a ver seu próprio corpo assim. A mulher ideal, nunca entendeu isso também.
Olhou uma travesti na rua: É a mulher ideal, tem dois peitos e um pau. Riram.
Minha amiga falou que peito é pra caber na boca, não na mão.
Fora de mão.
O eixo?
Nossa relação não anda muito bem, ela disse. E viajou.
Enquanto isso, pra não ficar sozinha, ela procurou uma mulher ideal. Era seu primeiro programa.
Não queria discutir o assunto, mas a mulher ideal era muito jovem. Jovem o suficiente para precisar de uma mãe. Mas era só o que faltava: brincar de boneca.
Durante toda sua infancia, brincar de boneca com as amigas era uma relação lésbica intuitiva.
Como era mesmo o nome daquela menina? Não importa, não queria brincar de boneca, queria sexo. Puta noite bonita e caiu um temporal de repente.
Levantou cedo. Cedo não.
Ela - Que horas são?
Ela - Nove e meia. Por quê? Você tem compromisso?
Foi tomar banho.
Ela - Eu gostei de você.
Ela - Pára com isso, preciso ir embora.
Ela - Vamos por aqui?
Ela - Fica fora de mão.
Ela - Estou literalmente nas suas mãos.
Ela - Não achei graça.
Eixo?
Dormiram girando. É o mundo.
Ela - Isso é silicone ou é seu?
Ela - É meu, eu que paguei. - Riram.
Não tem a menor graça acordar sozinha. Ler jornal, então. Puta garoa logo cedo.
Rádio - São onze horas, horário de Brasília.
Futebol, internacional, a guerra, a eleição, a cor do dia, os quadrinhos, piadinhas, artigo muito interessante sobre...uma foto. A mulher ideal está deitada de costas. Não respira e quiçá seu corpo cheire mal.
Ela não consegue despregar os olhos. Ela detesta sensacionalismo. Ela não consegue tomar café. Ela liga.
Ela - Oi, te acordei?
Ela - Não.
Ela - Eu vou passar aí hoje à tarde, pegar minhas coisas. Cheguei ontem.
Ela - Não vai dar.
Ela - Por quê?
Ela - Eu vou sair.
Ela - ...
Ela - Me liga amanhã e a gente combina.
Ela - Vai sair? Sozinha?
Ela - É. Vou sair sozinha.
Minha amiga falou que eu era perfeita: nem bonita demais, nem feia demais.
Ela - Você é linda! - dançaram de rosto colado.
Eixo deslocado. Queixo solto.
No rádio disseram que ela acordou morta numa república. Acordou, não. Que horas são?
Tempo chuvoso e é cedo demais ainda. Ela não consegue mais voltar pra cama.
Sem mais nem menos, nesse dia, ela resolve levar pra casa uma rosa vermelha.
(por ocasião da notícia da travesti de 17 anos que morreu em São Carlos em consequencia de uma infecção generalizada por injetar silicone nos glúteos)
Ela não está acostumada. Acordar sem a carícia.
Fumaça, logo cedo, fumaça. Cedo não. Que horas são?
Essa coisa de viajar. A menina também vinha de fora. Menina, não.
Ela não está acostumada a ver seu próprio corpo assim. A mulher ideal, nunca entendeu isso também.
Olhou uma travesti na rua: É a mulher ideal, tem dois peitos e um pau. Riram.
Minha amiga falou que peito é pra caber na boca, não na mão.
Fora de mão.
O eixo?
Nossa relação não anda muito bem, ela disse. E viajou.
Enquanto isso, pra não ficar sozinha, ela procurou uma mulher ideal. Era seu primeiro programa.
Não queria discutir o assunto, mas a mulher ideal era muito jovem. Jovem o suficiente para precisar de uma mãe. Mas era só o que faltava: brincar de boneca.
Durante toda sua infancia, brincar de boneca com as amigas era uma relação lésbica intuitiva.
Como era mesmo o nome daquela menina? Não importa, não queria brincar de boneca, queria sexo. Puta noite bonita e caiu um temporal de repente.
Levantou cedo. Cedo não.
Ela - Que horas são?
Ela - Nove e meia. Por quê? Você tem compromisso?
Foi tomar banho.
Ela - Eu gostei de você.
Ela - Pára com isso, preciso ir embora.
Ela - Vamos por aqui?
Ela - Fica fora de mão.
Ela - Estou literalmente nas suas mãos.
Ela - Não achei graça.
Eixo?
Dormiram girando. É o mundo.
Ela - Isso é silicone ou é seu?
Ela - É meu, eu que paguei. - Riram.
Não tem a menor graça acordar sozinha. Ler jornal, então. Puta garoa logo cedo.
Rádio - São onze horas, horário de Brasília.
Futebol, internacional, a guerra, a eleição, a cor do dia, os quadrinhos, piadinhas, artigo muito interessante sobre...uma foto. A mulher ideal está deitada de costas. Não respira e quiçá seu corpo cheire mal.
Ela não consegue despregar os olhos. Ela detesta sensacionalismo. Ela não consegue tomar café. Ela liga.
Ela - Oi, te acordei?
Ela - Não.
Ela - Eu vou passar aí hoje à tarde, pegar minhas coisas. Cheguei ontem.
Ela - Não vai dar.
Ela - Por quê?
Ela - Eu vou sair.
Ela - ...
Ela - Me liga amanhã e a gente combina.
Ela - Vai sair? Sozinha?
Ela - É. Vou sair sozinha.
Minha amiga falou que eu era perfeita: nem bonita demais, nem feia demais.
Ela - Você é linda! - dançaram de rosto colado.
Eixo deslocado. Queixo solto.
No rádio disseram que ela acordou morta numa república. Acordou, não. Que horas são?
Tempo chuvoso e é cedo demais ainda. Ela não consegue mais voltar pra cama.
Sem mais nem menos, nesse dia, ela resolve levar pra casa uma rosa vermelha.
(por ocasião da notícia da travesti de 17 anos que morreu em São Carlos em consequencia de uma infecção generalizada por injetar silicone nos glúteos)
sexta-feira
Onde está Funes?
Guardo cada história num lugar do corpo. Na cabeça mesmo guardo pouca coisa. Não há muito o que guardar.
A história da charamela eu guardei perto da nuca, por isso esqueci boa parte dela. A história da moura torta eu guardei abaixo da clavícula direita, um pouco acima do peito, antes do ombro.
Também não entendo nada de anatomia. Sei que deveria. Faz tempo que não me dedico a estudar nada, embora não tenha deixado de aprender muito.
De cinco anos pra cá tenho me dedicado mais a ouvir e observar. Eu tenho ouvido bom, mas pudores no resto do corpo. Não consegui aprender a dançar, por exemplo. Nem nadar.
Não tenho, portanto, onde guardar várias histórias. No baixo ventre acumulei algumas que não chegaram a germinar, mas me alimentaram por algum tempo.
Tenho uns ossos no quadril que estão sem funcionar direito porque é ali que guardo meu esquecimento voluntário de algumas histórias que não são bonitas. Bem acima do umbigo também acumulei algumas sem final feliz.
No pescoço está boa parte da minha infância e o começo da adolescência.
No calcanhar estão dois namoros que não deram certo. Talvez tenha até mais algum que não assumo.
Nos ombros, algumas histórias de família. Histórias felizes do lado esquerdo e as outras do lado direito.
E tem uma história secreta de um namorado da minha mãe sem final, que está em um dos meus joelhos, não sei qual.
Eu comecei bem nesse negócio de corpo, mas estive muito doente quando era pequena. Superei várias coisas, mas elas voltam e me atormentam. Há um tempo, por exemplo, passei quase um ano com medo de dar cambalhota. Foi por causa de um dia, quando estava toda feliz acabando de descobrir que sabia dar cambalhotas e treinando,mas minha avó chegou e disse que essas brincadeiras eram perigosas e eu poderia quebrar o pescoço e morrer. Eu ainda dei algumas cambalhotas depois disso e estava quase aprendendo aquelas que a gente dá pra trás, mas fiquei de repente pensando na morte e no tamanho do meu caixão. Foi nesse mesmo dia que eu chorei de saudade da minha mãe. Acho que tinha 8 anos.
Daí fui largando meu corpo com todas as histórias. Até os 11 anos, eu não sabia que era no corpo e não na cabeça que a memória fica, mas tinha a impressão de que me lembrava de tudo (por isso me impressionou tanto aquele conto de Borges chamado "Funes, o memorioso". Eu era como ele até os 11 anos, com a diferença de que não sabia nada do tempo nem das horas. A memória não tem nenhuma relação com o tempo.Uma vez tentei estudar o tempo e o cinema, sem sucesso).Lembrava com detalhes. As palavras, lembrava-as exatas e me lembro do dia em que decidi que já não havia onde guardar memórias e que teria que esquecer. Eu estava perto do escadão que dá na casa da minha avó lá em Perus, voltava da feira com ela. Me dei conta de que me lembrava de tudo, com detalhes. Detalhes que espantavam minha avó e os outros. Eu tinha decidido me lembrar desde que vi minha mãe chorando. Mas isso foi quando eu tinha 3 anos de idade. Eu tinha decidido não esquecer, para saber-me consciente.
Com 21, conheci Ulisses que me ensinou isso de que os pensamentos da gente não se dão apenas na cabeça. Não me lembro das suas exatas palavras, só uma frase: "Eu posso pensar com meu joelho." Nesse dia ele estava hospedado em minha casa junto com o rapaz por quem eu era apaixonada.
Depois que decidi esquecer, tudo deixou de ser organizado no meu corpo e na minha memória.
Daí lembro meu amigo poeta me dizendo algo como: Não acredito nessas historinhas de que quando cê tá bêbado, esquece as merdas que faz.
Sim, a memória é uma ilha de edição.
A história da charamela eu guardei perto da nuca, por isso esqueci boa parte dela. A história da moura torta eu guardei abaixo da clavícula direita, um pouco acima do peito, antes do ombro.
Também não entendo nada de anatomia. Sei que deveria. Faz tempo que não me dedico a estudar nada, embora não tenha deixado de aprender muito.
De cinco anos pra cá tenho me dedicado mais a ouvir e observar. Eu tenho ouvido bom, mas pudores no resto do corpo. Não consegui aprender a dançar, por exemplo. Nem nadar.
Não tenho, portanto, onde guardar várias histórias. No baixo ventre acumulei algumas que não chegaram a germinar, mas me alimentaram por algum tempo.
Tenho uns ossos no quadril que estão sem funcionar direito porque é ali que guardo meu esquecimento voluntário de algumas histórias que não são bonitas. Bem acima do umbigo também acumulei algumas sem final feliz.
No pescoço está boa parte da minha infância e o começo da adolescência.
No calcanhar estão dois namoros que não deram certo. Talvez tenha até mais algum que não assumo.
Nos ombros, algumas histórias de família. Histórias felizes do lado esquerdo e as outras do lado direito.
E tem uma história secreta de um namorado da minha mãe sem final, que está em um dos meus joelhos, não sei qual.
Eu comecei bem nesse negócio de corpo, mas estive muito doente quando era pequena. Superei várias coisas, mas elas voltam e me atormentam. Há um tempo, por exemplo, passei quase um ano com medo de dar cambalhota. Foi por causa de um dia, quando estava toda feliz acabando de descobrir que sabia dar cambalhotas e treinando,mas minha avó chegou e disse que essas brincadeiras eram perigosas e eu poderia quebrar o pescoço e morrer. Eu ainda dei algumas cambalhotas depois disso e estava quase aprendendo aquelas que a gente dá pra trás, mas fiquei de repente pensando na morte e no tamanho do meu caixão. Foi nesse mesmo dia que eu chorei de saudade da minha mãe. Acho que tinha 8 anos.
Daí fui largando meu corpo com todas as histórias. Até os 11 anos, eu não sabia que era no corpo e não na cabeça que a memória fica, mas tinha a impressão de que me lembrava de tudo (por isso me impressionou tanto aquele conto de Borges chamado "Funes, o memorioso". Eu era como ele até os 11 anos, com a diferença de que não sabia nada do tempo nem das horas. A memória não tem nenhuma relação com o tempo.Uma vez tentei estudar o tempo e o cinema, sem sucesso).Lembrava com detalhes. As palavras, lembrava-as exatas e me lembro do dia em que decidi que já não havia onde guardar memórias e que teria que esquecer. Eu estava perto do escadão que dá na casa da minha avó lá em Perus, voltava da feira com ela. Me dei conta de que me lembrava de tudo, com detalhes. Detalhes que espantavam minha avó e os outros. Eu tinha decidido me lembrar desde que vi minha mãe chorando. Mas isso foi quando eu tinha 3 anos de idade. Eu tinha decidido não esquecer, para saber-me consciente.
Com 21, conheci Ulisses que me ensinou isso de que os pensamentos da gente não se dão apenas na cabeça. Não me lembro das suas exatas palavras, só uma frase: "Eu posso pensar com meu joelho." Nesse dia ele estava hospedado em minha casa junto com o rapaz por quem eu era apaixonada.
Depois que decidi esquecer, tudo deixou de ser organizado no meu corpo e na minha memória.
Daí lembro meu amigo poeta me dizendo algo como: Não acredito nessas historinhas de que quando cê tá bêbado, esquece as merdas que faz.
Sim, a memória é uma ilha de edição.
Delírio?
Era belo e macio.
Não queria sentir febre. Talvez só estivesse delirando.
Imagens desencontradas: um rio calmo, vento e areia no olho, um homem negro e gordo deitado no chão, um homem de cabelos lisos com ela no colo bem pequena,gritos e gente correndo, mato.
Parecia um filme, ela assistindo de fora consciente. E parecia que estava dentro de cada lugar, das imagens que se sucediam, sem consciência.
Só podia ser delírio.
Daí ele aparecia,nítido e moreno. Depois era só uma sombra que se confundia com outros rapazes.
Ele veio se despedir.
Não me lembro de você.
---
Ela acorda no hospital. Ninguém ao lado.
Não queria sentir febre. Talvez só estivesse delirando.
Imagens desencontradas: um rio calmo, vento e areia no olho, um homem negro e gordo deitado no chão, um homem de cabelos lisos com ela no colo bem pequena,gritos e gente correndo, mato.
Parecia um filme, ela assistindo de fora consciente. E parecia que estava dentro de cada lugar, das imagens que se sucediam, sem consciência.
Só podia ser delírio.
Daí ele aparecia,nítido e moreno. Depois era só uma sombra que se confundia com outros rapazes.
Ele veio se despedir.
Não me lembro de você.
---
Ela acorda no hospital. Ninguém ao lado.
Primeiras infâncias
Era uma ameaça. Achava que iam obrigá-la a comer. Odiava bolachas, odiava nata de leite, não comia feijão, nem macarrão, nem gema de ovo, nem carne de porco. Alergias na pele. Fruta? Só banana.
Essa menina tá fraca!
Andando as pernas faltavam. Via-se as costelas por cima da roupa.
Você come se quiser. Imaginava tudinho. Ter que engolir a nata do leite à força. Vomitava tudo depois.
Pegou doença várias vezes. De pele, de respiração.
Essa menina tá doente, precisa comer.
Achava que na escola, se não obrigassem a comer iam obrigar a alguma coisa.
Depois pegou costume. Ganhou uma lancheira. Começou a comer a gema do ovo cozida. Começou a comer feijão com farinha, amassadinho nuns bolinhos com a mão. Só comia se vó dava.
A mãe tava doente, internada. Dizem que era louca e que não gostava dela, só fingia. Que ia entregá-la na Febem.
Não sabia o que era Febem. Mas tinha menos medo da escola agora. Tinha as pernas tortas mas mais fortes. O suficiente pra brincar de amarelinha.
Um menino loiro escolheu ela pra dançar. Ficou devendo várias ave-marias a Deus por isso. Teve muita vergonha, mas o coração disparou. Alguém gostava dela e tinha sido escolhida entre tantas da sala. O pai tinha sumido no mundo, mas tinha sido escolhida pra dançar. Dançava tão bem, com tanta graça que ia na frente nos ensaios.
Brincava de inventar histórias. Todas tinham final feliz e o bem sempre vencia o mal.
Essa menina tá fraca!
Andando as pernas faltavam. Via-se as costelas por cima da roupa.
Você come se quiser. Imaginava tudinho. Ter que engolir a nata do leite à força. Vomitava tudo depois.
Pegou doença várias vezes. De pele, de respiração.
Essa menina tá doente, precisa comer.
Achava que na escola, se não obrigassem a comer iam obrigar a alguma coisa.
Depois pegou costume. Ganhou uma lancheira. Começou a comer a gema do ovo cozida. Começou a comer feijão com farinha, amassadinho nuns bolinhos com a mão. Só comia se vó dava.
A mãe tava doente, internada. Dizem que era louca e que não gostava dela, só fingia. Que ia entregá-la na Febem.
Não sabia o que era Febem. Mas tinha menos medo da escola agora. Tinha as pernas tortas mas mais fortes. O suficiente pra brincar de amarelinha.
Um menino loiro escolheu ela pra dançar. Ficou devendo várias ave-marias a Deus por isso. Teve muita vergonha, mas o coração disparou. Alguém gostava dela e tinha sido escolhida entre tantas da sala. O pai tinha sumido no mundo, mas tinha sido escolhida pra dançar. Dançava tão bem, com tanta graça que ia na frente nos ensaios.
Brincava de inventar histórias. Todas tinham final feliz e o bem sempre vencia o mal.
quinta-feira
Filmes de ação
E se fosse em português? Não lembrava de ter transado nunca com alguma garota que ficasse dizendo: "Sim, sim, sim!" Boa parte das garotas na real ficam falando: "Não, não, não!" e dali a pouco estão de quatro.
Ah, é um tédio esse negócio de filme pornô, desencana!
Sair pra comprar cigarros. Putz! Parar de fumar, mas quando? Segunda.
Tem uma menina sozinha no ponto de ônibus. Minissaia. Está com frio e sem sutiã. E tem uns olhos... Vixe, e está com raiva. Mulher nervosa é o que há.
Como assim acabaram os cigarros? Essa de boteco fechar mais cedo é uma merda!
Fim de filme na base das bitucas. Olha só, um último cigarro esquecido num maço do lixo da cozinha. Puta sorte! Nessas bostas desses filmes sempre tem alguém fumando.
Tava lembrando das meninas da rua de quando era moleque. Ver filme pornô traz essas lembranças assim, de moleque. O gayzão da locadora pensa que todo mundo é viado. Deixa secar, desencana!
Tava pensando nas notas. Quando fazia aula de música, tinha umas notas difíceis de tirar no violão. Falta de dedicação mesmo.
Mandaram mensagem no celular: "Me liga amanhã." Ligar porra nenhuma! Essa aí é que nem as dos filmes, só que com peitos menores e dá mais trabalho.
Se é pra gastar dinheiro que seja com profissionais.
20h30 em ponto, toca o telefone.
Ela - Alô?
Ele - Oi, Carla.
Ela - Por que você não me ligou?
Ele - Não deu. Mas eu ia...
Ela - Por que você fica me enrolando? Cacete!Onde você tá?
Ele - Putz, tem certeza que você quer ficar brigando pelo telefone?
Ela - Só perguntei por que você não me ligou.
Ele - Não deu, pô! Não dá pra falar agora.
Ela - Onde você tá?
Ele - Em casa. Mas depois a gente conversa. Não fica gastando telefone comigo.
Ela - ...
Ele - Eu tô trabalhando ainda. Hoje eu dei um trato na casa só pra você poder vir aqui...
Ela - Você não gostou de mim, né?
Ele - Ah, que é isso, Carla. Pára com essas merda!
Ela - Você acha que eu sou vagabunda só porque me comeu sem camisinha?
Ele - Tá vendo? Por isso que eu não te ligo! Pára com essas merda por telefone, cara!
Ela - Cara não que eu não sou tuas nega!
Ele - Olha, amanhã eu te ligo sem falta.
Ela - Bem que a N... falou que você era um moleque!
Ele - Quem?
A caminho da locadora, a mesma garota no ponto de ônibus. Essa hora? Tá olhando pra cá?
Tava pensando numa pipa com a bandeira do Brasil. Linda, linda!
Abrindo a porta, toca o telefone. A voz é do gayzão da locadora.
Ele - Alô.
Ele - Alô por favor o F...
Ele - Ele mesmo.
Ele - Oi, tudo bem? É que você esqueceu uns documentos aqui, tem cartão do banco...
Ele devolve as coisas é gente boa, mas daí segura a mão e diz: "Agora você fica me devendo uma." A vontade é dar um soco, mas só sai um: "Tomar no cu!"
É a mesma garota mesmo e ainda tá lá. Ainda tá olhando.
Ele - Oi, moça. ... Tá esperando qual?
Ela - O circular.
Ele - Ixe! Acho que já passou.
...
Ela - Gostou do decote?
Ele - Hein?
Ela - Pra ficar olhando tanto, deve ter gostado.
Ele - Desculpa!
Ela - Gostou ou não?
Decote o caralho! Vai entender essas mina!
Esses filmes de ação pelo menos não tem gente fumando.
Ah, é um tédio esse negócio de filme pornô, desencana!
Sair pra comprar cigarros. Putz! Parar de fumar, mas quando? Segunda.
Tem uma menina sozinha no ponto de ônibus. Minissaia. Está com frio e sem sutiã. E tem uns olhos... Vixe, e está com raiva. Mulher nervosa é o que há.
Como assim acabaram os cigarros? Essa de boteco fechar mais cedo é uma merda!
Fim de filme na base das bitucas. Olha só, um último cigarro esquecido num maço do lixo da cozinha. Puta sorte! Nessas bostas desses filmes sempre tem alguém fumando.
Tava lembrando das meninas da rua de quando era moleque. Ver filme pornô traz essas lembranças assim, de moleque. O gayzão da locadora pensa que todo mundo é viado. Deixa secar, desencana!
Tava pensando nas notas. Quando fazia aula de música, tinha umas notas difíceis de tirar no violão. Falta de dedicação mesmo.
Mandaram mensagem no celular: "Me liga amanhã." Ligar porra nenhuma! Essa aí é que nem as dos filmes, só que com peitos menores e dá mais trabalho.
Se é pra gastar dinheiro que seja com profissionais.
20h30 em ponto, toca o telefone.
Ela - Alô?
Ele - Oi, Carla.
Ela - Por que você não me ligou?
Ele - Não deu. Mas eu ia...
Ela - Por que você fica me enrolando? Cacete!Onde você tá?
Ele - Putz, tem certeza que você quer ficar brigando pelo telefone?
Ela - Só perguntei por que você não me ligou.
Ele - Não deu, pô! Não dá pra falar agora.
Ela - Onde você tá?
Ele - Em casa. Mas depois a gente conversa. Não fica gastando telefone comigo.
Ela - ...
Ele - Eu tô trabalhando ainda. Hoje eu dei um trato na casa só pra você poder vir aqui...
Ela - Você não gostou de mim, né?
Ele - Ah, que é isso, Carla. Pára com essas merda!
Ela - Você acha que eu sou vagabunda só porque me comeu sem camisinha?
Ele - Tá vendo? Por isso que eu não te ligo! Pára com essas merda por telefone, cara!
Ela - Cara não que eu não sou tuas nega!
Ele - Olha, amanhã eu te ligo sem falta.
Ela - Bem que a N... falou que você era um moleque!
Ele - Quem?
A caminho da locadora, a mesma garota no ponto de ônibus. Essa hora? Tá olhando pra cá?
Tava pensando numa pipa com a bandeira do Brasil. Linda, linda!
Abrindo a porta, toca o telefone. A voz é do gayzão da locadora.
Ele - Alô.
Ele - Alô por favor o F...
Ele - Ele mesmo.
Ele - Oi, tudo bem? É que você esqueceu uns documentos aqui, tem cartão do banco...
Ele devolve as coisas é gente boa, mas daí segura a mão e diz: "Agora você fica me devendo uma." A vontade é dar um soco, mas só sai um: "Tomar no cu!"
É a mesma garota mesmo e ainda tá lá. Ainda tá olhando.
Ele - Oi, moça. ... Tá esperando qual?
Ela - O circular.
Ele - Ixe! Acho que já passou.
...
Ela - Gostou do decote?
Ele - Hein?
Ela - Pra ficar olhando tanto, deve ter gostado.
Ele - Desculpa!
Ela - Gostou ou não?
Decote o caralho! Vai entender essas mina!
Esses filmes de ação pelo menos não tem gente fumando.
Rosa branca
Levantou com o cheiro dele no corpo. Passou o dia inteiro e não saiu.
Ele foi levar o carro pra lavar, nem precisava, força do hábito.
Uma moça no caixa masca chicletes e isso faz ele lembrar de um filme. Como era mesmo o nome dela?
Ele é pontual sempre. Chega com a noite uma vontade de um monte de coisa: de sair, de ficar, de gritar, de beber.
Falavam assim: Conversando a gente se entende. Ele nunca entendeu.
O gosto não sai da boca também. Café forte, fica a língua até marrom.
Achar o homem ideal. Ele nunca entendeu.
Foi até a casa da mãe e levou umas compras pra ela. Ela sabe, talvez sinta o cheiro.
Ele achou o homem ideal por hoje. Aroma de madeira. Pele de madeira. Assim. Talvez um pouco mais de gordura caísse bem; não importa.
Ele vai levá-lo ao mesmo lugar de sempre, força do hábito. Beber também só por hábito, herdado dos tempos de faculdade, tempos de sua primeira vez em tudo.
Uma moça se apaixonou por ele. O nome dela foge, mas o curso era de exatas.
Da mãe vai herdar a casa e as dívidas.
Só precisou ir a um enterro na vida, o do pai, por isso não suporta cheiro de flores. Ele teve um namorado fixo uma vez, meio hippie que tocava violão e fazia poemas, mas o cara chapava demais.
Isso de música, sim. Mas só eletrônica.
Aquela moça no reveillon com unhas vermelhas e pele de seda. O que era aquilo? Parecia modelo. Só faltava essa: brincar de boneca!
O fogão está sujo de leite ainda e dá mais preguiça porque secou.
Vem com a manhã uma solidão de estar em casa. Chega do vizinho cheiro de café e pipoca de microondas que dá enjôo.
A mãe reclamou porque ele levou o sabão tal. Brigaram. Só faltava essa: brincar de casinha.
Passou um dia inteiro no computador.
De repente pensou que nunca mandou flores pra ninguém. E logo mudou de assunto consigo mesmo.
Experimentou deixar cavanhaque. Seu homem ideal daquele dia aprovou.
Seu homem ideal daquele dia ainda é um menino, jovem o suficiente pra precisar de um pai.
De repente, no mercado, ele esbarra com o menino repondo bebidas nas prateleiras. O cheiro é de suor.
A lata cai no chão quase sem fazer barulho, mas molha o piso e sobe o odor de cerveja. Ainda assim os olhos não se despregam por alguns segundos.
Sem mais nem menos ele resolve comprar uma rosa branca naquele dia.
Ele foi levar o carro pra lavar, nem precisava, força do hábito.
Uma moça no caixa masca chicletes e isso faz ele lembrar de um filme. Como era mesmo o nome dela?
Ele é pontual sempre. Chega com a noite uma vontade de um monte de coisa: de sair, de ficar, de gritar, de beber.
Falavam assim: Conversando a gente se entende. Ele nunca entendeu.
O gosto não sai da boca também. Café forte, fica a língua até marrom.
Achar o homem ideal. Ele nunca entendeu.
Foi até a casa da mãe e levou umas compras pra ela. Ela sabe, talvez sinta o cheiro.
Ele achou o homem ideal por hoje. Aroma de madeira. Pele de madeira. Assim. Talvez um pouco mais de gordura caísse bem; não importa.
Ele vai levá-lo ao mesmo lugar de sempre, força do hábito. Beber também só por hábito, herdado dos tempos de faculdade, tempos de sua primeira vez em tudo.
Uma moça se apaixonou por ele. O nome dela foge, mas o curso era de exatas.
Da mãe vai herdar a casa e as dívidas.
Só precisou ir a um enterro na vida, o do pai, por isso não suporta cheiro de flores. Ele teve um namorado fixo uma vez, meio hippie que tocava violão e fazia poemas, mas o cara chapava demais.
Isso de música, sim. Mas só eletrônica.
Aquela moça no reveillon com unhas vermelhas e pele de seda. O que era aquilo? Parecia modelo. Só faltava essa: brincar de boneca!
O fogão está sujo de leite ainda e dá mais preguiça porque secou.
Vem com a manhã uma solidão de estar em casa. Chega do vizinho cheiro de café e pipoca de microondas que dá enjôo.
A mãe reclamou porque ele levou o sabão tal. Brigaram. Só faltava essa: brincar de casinha.
Passou um dia inteiro no computador.
De repente pensou que nunca mandou flores pra ninguém. E logo mudou de assunto consigo mesmo.
Experimentou deixar cavanhaque. Seu homem ideal daquele dia aprovou.
Seu homem ideal daquele dia ainda é um menino, jovem o suficiente pra precisar de um pai.
De repente, no mercado, ele esbarra com o menino repondo bebidas nas prateleiras. O cheiro é de suor.
A lata cai no chão quase sem fazer barulho, mas molha o piso e sobe o odor de cerveja. Ainda assim os olhos não se despregam por alguns segundos.
Sem mais nem menos ele resolve comprar uma rosa branca naquele dia.
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