2 de março de 2012

Separação

Ela abriu a porta e desceu a escada. Viu os jornais em cima da mesa. Controlou a vontade de vomitar e daí ficou esperando passar olhando as paredes brancas.
Ele chegou em seguida, tentando não fazer barulho e tropeçando nos degraus. Não conseguiu dormir pensando nela. Deitado de costas lembrava do cheiro da roupa dela e do suor.
Ela desligou o telefone e apagou a luz. O mal estar tinha passado e sentiu o sono se aproximar.
Horas depois ela sonhava com cisnes mortos num lago enquanto ele tentava ler um artigo sem conseguir se concentrar. Tinha havido pelo menos ternura.
Agora estavam separados por quatro cidades, dez dias e duas cápsulas de remédio.

Limites

O limite do corpo é o gesto
O limite da linha é do lápis
O limite do som cabe numa corda
O limite da vontade pulsa num relógio
O limite do tempo cabe no olho de uma criança pequena
O limite da fúria mora numa onda
O limite da gente não existe

24 de fevereiro de 2012

meu corpo, minha ilha de edição

Guardo cada história num lugar do corpo. Na cabeça mesmo guardo pouca coisa. Não há muito o que guardar.
A história da charamela eu guardei perto da nuca, por isso esqueci boa parte dela. A história da moura torta eu guardei abaixo da clavícula direita, um pouco acima do peito, antes do ombro.
Também não entendo nada de anatomia. Sei que deveria. Faz tempo que não me dedico a estudar nada, embora não tenha deixado de aprender muito.
De cinco anos pra cá tenho me dedicado mais a ouvir e observar. Eu tenho ouvido bom, mas pudores no resto do corpo. Não consegui aprender a dançar, por exemplo. Nem nadar.
Não tenho, portanto, onde guardar várias histórias. No baixo ventre acumulei algumas que não chegaram a germinar, mas me alimentaram por algum tempo.
Tenho uns ossos no quadril que estão sem funcionar direito porque é ali que guardo meu esquecimento voluntário de algumas histórias que não são bonitas. Bem acima do umbigo também acumulei algumas sem final feliz.
No pescoço está boa parte da minha infância e o começo da adolescência.
No calcanhar estão dois namoros que não deram certo. Talvez tenha até mais algum que não assumo.
Nos ombros, algumas histórias de família. Histórias felizes do lado esquerdo e as outras do lado direito.
E tem uma história secreta de um namorado da minha mãe sem final, que está em um dos meus joelhos, não sei qual.
Eu comecei bem nesse negócio de corpo, mas estive muito doente quando era pequena. Superei várias coisas, mas elas voltam e me atormentam. Há um tempo, por exemplo, passei quase um ano com medo de dar cambalhota. Foi por causa de um dia, quando estava toda feliz acabando de descobrir que sabia dar cambalhotas e treinando,mas minha avó chegou e disse que essas brincadeiras eram perigosas e eu poderia quebrar o pescoço e morrer. Eu ainda dei algumas cambalhotas depois disso e estava quase aprendendo aquelas que a gente dá pra trás, mas fiquei de repente pensando na morte e no tamanho do meu caixão. Foi nesse mesmo dia que eu chorei de saudade da minha mãe. Acho que tinha 8 anos.
Daí fui largando meu corpo com todas as histórias. Até os 11 anos, eu não sabia que era no corpo e não na mente que a memória fica, mas me lembrava de tudo (por isso me impressionou tanto aquele conto de Borges chamado "Funes, o memorioso". Eu era como ele até os 11 anos, com a diferença de que não sabia nada do tempo nem das horas. O que Borges não entendeu é que a memória não tem nenhuma relação com o tempo do relógio.
Depois, com 20 anos, até tentei estudar o tempo e o cinema, sem sucesso.
Lembrava com detalhes. As palavras, lembrava-as exatas e me lembro do dia em que decidi que já não havia onde guardar memórias e que teria que esquecer. Eu estava perto do escadão que dá na casa da minha avó lá em Perus, voltava da feira com ela. Me dei conta de que me lembrava de tudo, com detalhes. Detalhes que espantavam minha avó e os outros. Eu tinha decidido me lembrar desde que vira minha mãe chorando. Mas isso foi quando eu tinha 3 anos de idade. Eu tinha decidido não esquecer, para saber-me consciente. Mas aos 11 anos, não havia onde guardar tanto detalhe e comecei a esquecer.
Aos 21 anos conheci Ulisses que me ensinou isso de que os pensamentos da gente não se dão apenas na cabeça. Não me lembro das suas exatas palavras, só uma frase: "Eu posso pensar com meu joelho." Nesse dia ele estava hospedado em minha casa junto com o rapaz por quem eu era apaixonada.Lembro dos olhos dele quando voltei pra casa, depois de ter dormido em outra casa, com outro cara.E lembro dos olhos do Ulisses quando voltou a pé pra me ver no fim da festa, quando não havia mais ninguém, só um engenheiro mala que queria me comer .Fiquei com o engenheiro porque ainda não tinha deixado de estar apaixonada pelo cara que morava com o Ulisses. Especificamente esta história acabei guardando na lateral do joelho direito. Acho que a lateral interna.
Mas teve também as histórias com meninas. A Paula era legal e dentuça como eu, mas eu gostava era da irmã mais nova dela. Gostava assim, de querer ser igual. Elas me ensinaram a não ter medo de andar de bicicleta. Sem medo a gente vai.
Hoje esqueci, mas sabia.
Depois que decidi esquecer, tudo deixou de ser organizado no meu corpo e na minha memória.
Daí lembro meu amigo poeta me dizendo algo como: Não acredito nessas historinhas de que quando cê tá bêbado, esquece as merda que faz.- E lembro dele, movido à vaidade de ser poeta, me ajudando, me desajudando. Entendi que a vaidade faz a gente confundir e esquecer coisas importantes. Também sou orgulhosa e vaidosa. Mas essa história eu guardo em algum lugar dos membros inferiores, não sei precisar qual.
Tem um menino punk, aspirante a Sid que tá mais pra Johnny Rotten. Ele sabia mais sobre mim que eu e foi no dia que a gente conversou que me dei conta de que minha memória pode estar com os outros. E ele sabia a versão dos outros sobre a minha história. Daí me liguei que não adiantava porra nenhuma lembrar, se a gente nunca sabia a versão dos outros.
Sim, a memória é uma ilha de edição.




23 de fevereiro de 2012

Esperança do amor...

A esperança do amor
Primeiro de braços abertos
Coração escancarado
A mercê de qualquer voz
que murmure suave
Ou qualquer hálito
fresco como erva
Ou qualquer pele
tecida no mesmo fio
A espera do amor
que tem ânsia
cansa
grita
desespera
Depois de tanto esperar
acha que encontrou
Vem aquele paraíso
com cheiro de velas e flores
feito morte pelo avesso
E frio dentro da barriga
da espinha
Até que fica provado
que o encontro ainda não
Vem aquele desencanto
como quem tá se afogando
entrando em todo buraco
uma vontade de chorar
uma vontade de poesia
pra compensar a tristeza
poesia pelo avesso
poesia em desespero
poesia que apela
se arrasta feito um cabelo
grande num tapete macio
pra passar a humilhação do desamor
A esperança do amor
pode virar desespero tão grande
humilhação tão grande
quando se engana assim
que pode até dar em choque
dar em velas e flores
num cemitério de pedras
Mas se não der fica aguada
amuada, aluada
sem cor, sem cheiro, sem nada
.
Até que um dia abra os braços
com o coração desconfiado
desconfiança e amor
não cabem num só pedaço
Um sorriso amarelado
Um girassol amarelo
Tecido no fio da espera
E o amor de novo se engana
Cansa grita
adoece
Mas depois deita de barriga pra cima
Fica esperando remédio
tem ganas de entortar a espinha
tem ganas de pisar em flores
tem ganas de roer as unhas
O amor cansa de esperar e errar
Resolve ir dormir um pouco
Então o corpo sai solto pelo mundo
Sem procurar nada
Sem esperar nada
Sem poesia nas mãos
Sem memória de alecrim
Aí às vezes acontece
de acordar o amor
do outro.
É preciso que as estradas rodem sob os pés
É preciso que as estrelas rodem sobre as coroas
É preciso que o amor se mova em sua cama
É preciso que se levante o sol sem muita pressa
É preciso que se arme a fogueira
É preciso que se toque na pele do tambor
É preciso que se embalem as crianças
É preciso leveza ao proceder com o desconhecido
É preciso sorriso pra enfrentar a morte
É preciso perfume tênue para a estrada
É preciso ouvir quando canta o rio
É preciso estar atento e forte
É preciso acabar de ler o livro
É urgente estudar as cores
É urgente memorizar idades
combinar aromas novos de comer
É urgente levar água pra lavar as almas secas
e cozinhar o feijão
É urgente agradecer à Mãe e ao Pai pelos encontros
É urgente buscar-se dentro e fora
É urgente responder as cartas
Tecer histórias belas e brinquedos
É urgente o artesanato dos corpos
É urgente a paz aos meninos
o respeito, o amor
É urgente!
Façamos listas
Façamos visitas
Não nos esqueçamos mais do que é urgente
e é preciso
em troca do supérfluo
que parece tão necessário.

20 de fevereiro de 2012

José Custódio

O boteco de frente pro campo de futebol, entre as montanhas de Minas. Um descampado de grama verdinha com um céu sem limite descendo até as árvores mais altas no horizonte. Queijo e cachaça da melhor qualidade. Chamou minha atenção um senhor negro que falava sozinho. Seu nome era Custódio. Logo me disseram que ele bebia tanto que ninguém entendia o que ele falava. Lá pelas tantas sentei-me ao seu lado. De pronto, entendi tudo que ele me dizia. Contou-me da mulher que mais amou em sua vida que falecera anos antes. Sua vida não tinha mais para onde, nem para quê. Falou-me bastante dela, parecia que isso fazia a saudade recuar uns passos, mas logo ela avançava tirando lágrimas dos olhos lustrosos e sem foco de Custódio.
Os filhos, parentes, ninguém punha fé na dor daquele homem. Depois de tanto tempo? Parecia-lhes mera justificativa para o alcoolismo, ou tinham vergonha porque isso parecia era fraqueza dele. Então Custódio olhou bem dentro dos meus olhos e pediu que rezasse por ele. Parece que minha oração teria mais serventia que as suas. Eu não tinha mais o costume de fazer preces antes de dormir, mas prometi.
Pensava sempre nele, mas a vida de volta à cidade me fez esquecer minha promessa de rezar por Custódio.
Quando soube da morte daquele homem, não pude deixar de lembrar a nossa conversa. Perdi o único retrato que tinha dele.
Foi um dos homens mais verdadeiros com quem tive o privilégio de conversar.

Fermento

Este caminho que ele percorre no meu corpo nem eu mesma conhecia.
Desenhei uma sequência de versos para descrever seus olhos fechados. Apaguei.
Estou recostada ouvindo Piaf e não sinto nenhum ciúme.
Minhas pernas não me obedecem quando vou para longe.
Tenho preguiça e calor.
Uma sensação confortável de não precisar entender coisa nenhuma nunca mais.
..
Minha caligrafia nem parece mais minha.
Começa a tocar na minha cabeça uma música que não existe.
Parece que entreguei uma parte do meu primeiro suspiro a esta noite
Como quem doa um órgão.
Na estrada, me perco em cálculos matemáticos e finalmente adormeço.

9 de fevereiro de 2012

Será que vocês podem só me deixar aqui quietinha, ouvindo música, fumando e escrevendo? Há algum pecado nisso? Algo errado?
Por que tenho que prestar contas de utilidade dos meus atos? Isso me cheira a perda de tempo. A vida não pode se fazer mais simples. Mais perto da terra... isso não parece nada importante. Por quê? Quem me ensinou isso?
Tudo precisa ser formalizado, autenticado, acordado.
Nada pode dar no vazio do presente sem sentido da espera do próximo instante. Porque preciso viver intensamente o tempo todo, sem descanso. Preciso de estímulos para manter-me acesa. Não devo jamais ser uma vela apagada. Uma vela apagada não presta pra nada. Não posso pegar emprestada a inutilidade das coisas. Não seria de bom tom.
Não posso dar no vazio. Não posso viver em silêncio. Não posso ser inútil. Não devo ter pressa. Não devo estar presa. Não devo parar de orar e vigiar. Não posso vagar. Não posso arder. Não devo fugir. Não é adequado perder-se. Não posso comer demais. Nem de menos. Nem virar de cabeça pra baixo. Nem passar muito tempo sentada. Não devo alimentar os vícios. Não posso me virar para o outro lado. Não quero que me toquem sem eu deixar. Não tenho tempo.
Sim! Você me diz. Sim e eu mergulho. Respiro dentro. Ninguém pode me dar a liberdade, mas parece educado pedir.

8 de fevereiro de 2012

Este homem que dorme nu na minha cama não veio até aqui com as próprias pernas.
Esta mulher que lambe meu rosto e segura minha mão está disposta a viajar comigo.
Este homem que quer ser mulher, me lembra um tempo remoto, quando eu queria ser homem.
Este homem que canta me fascina desde quando estava vivo, porque nunca passou de um menino.
Estes homens que não deixam de ser moleques, bagunçam minha casa.
A doçura e esperteza dos cães me desperta.
A sinceridade dos adolescentes me salva das minhas mentiras eloquentes.

5 de fevereiro de 2012

Fuma no portão. Enquanto isso sentindo o vento, pensa "todos os domingos são perfeitos..."
Telefona para o cara por quem está interessada. As palavras se embaralham. Sente como se estivesse novamente aprendendo a falar. O silêncio sempre diz mais.
Vinho. Outro homem e outra mulher. Espera que a tarde se incline sobre ela. Redundâncias.
Um carinho fresco. Abraço de estranhos e tarô durante a noite. Olhar dentro dos olhos das pessoas traz duas certezas. Uma delas esfrega os olhos com preguiça.
Não há mais medo, nem saudade, nem ansiedade. Não há perguntas. Gracejos e diversão.
Receber esta visita. Cozinhar. Mansidão para dar tempo de pegar necessidade da pele dele de novo.
Fermento.

1 de fevereiro de 2012

Lista de presentes de aniversário

- Reencontro com um grande amor;
- Um dia inteiro com crianças ao redor;
- Comer cajuzinhos com alguém legal;
- Duas horas ininterruptas de cafuné;
- Um presente inesperado;
- Subir uma montanha qualquer;
- Ser convidada pra dançar uma lentinha;
- Brincar de balança no parque;
- Viagem com mamãe;
- Uma tarde inteira de canções e poesia;
- Um queijo grande pra dividir com minha tia;
- Passear no sex shop com minhas amigas;
- Banho de cachoeira num dia de sol
- Uma serenata
Hoje
De repente senti você tão perto
Que me esqueci onde estava
E demorei a voltar.