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sexta-feira

Por uma pedagogia sem muros - manifesto 1

A sociedade humana só será humanamente possível, quando ninguém precisar mais ir à escola para se educar.

Sobre muros e professoras

Em 89, quando caiu o Muro de Berlim, eu tinha 12 anos e estudava em Pirituba.
Nossa professora de geografia era bem jovem e falava muito de geopolítica, embora nossa maior geopolítica fosse burlar a vigilância da escola, pular o muro nas aulas de que não gostávamos e ir brincar na rua, ou simplesmente conversar (tudo de essencial que se tem pra conversar com 12 anos). Nossas fugas não se davam na aula desta professora de geografia, nem nas da professora de história (também bem jovem) que nos fez ler "Revolução dos Bichos" e entre outras coisas me fez escrever com 12 anos um texto defendendo o socialismo utópico (com unhas e dentes) e atacando o liberalismo.(!!!)
A professora de geografia fazia críticas a alguns livros do Melhem Adas e nos incentivava a ler um tal de Demétrio Magnoli. Na verdade, eu nunca tinha prestado atenção nenhuma até então, nos nomes de autores de outros livros que não fossem literatura infanto juvenil. Ela dizia que a gente nunca iria esquecer e que poderíamos contar pros nossos filhos que vimos a queda do Muro de Berlim. Embora o significado disso me escapasse, a frase ficou na minha cabeça. Sem dúvida estas professoras contribuíram pra eu ter vontade de ser professora.

No ano passado, na educação à distância cursando pedagogia, fiz uma redação que intitulei: "Por uma escola sem muros", um texto que não recebeu nota máxima das professoras "virtuais", mas de mim sim e que ainda não consegui recuperar das garras da burocracia acadêmica.

As burocracias são assim. Devolvem um silêncio de meses aos brados e pedras que lhes lançamos e é assim que mantém o controle sobre nós.

Mas desde então, o mundo e eu mudamos muito: decidi abandonar a academia, decidi abandonar a pedagogia, decidi deixar de ser professora em escolas (quaisquer que sejam), entendi o que a professora disse sobre o Muro de Berlim, decidi ir à Alemanha no ano que vem, desisti do socialismo utópico, desisti de mudar o mundo e voltei a esta escola onde estudava. A árvore que eu plantei com minha turma na quarta série ainda está lá (quase todas as árvores ainda estão lá) e agora eu sei até os nomes só de olhar algumas. Tinha grafites nas paredes. Mas os muros... Estavam mais altos, altos demais para uma criança de 12 anos poder pular. E então, chorei.
Acho que chorei por entender que agora são tempos de muros mais altos para crianças. Acho que chorei porque cada árvore que ainda está lá, me deu uma alegria e uma esperança de que elas estarão ainda lá quando eu não estiver, fazendo sombra a outras crianças que talvez, em vez de pular, derrubem os muros.

quinta-feira

O abalo dos muros- Frei Betto

Em 2009 faz 20 anos da queda do Muro de Berlim, símbolo dabipolaridade do mundo dividido em dois sistemas: capitalista e socialista. Agora assistimos ao declínio de Wall Street (Rua do Muro), na qual se concentram as sedes dos maiores bancos e instituições financeiras.
O muro que dá nome à rua de Nova York foi erguido pelos holandeses em 1652 e derrubado pelos ingleses em 1699. New Amsterdam deu lugar a New York. O apocalipse ideológico no Leste europeu, jamais previsto por qualquer analista, fortaleceu a idéia de que fora do capitalismo não há salvação.
Agora, a crise do sistema financeiro derruba o dogma da imaculada concepção do livre mercado como única panacéia para o bom andamento da economia. Ainda não é o fim do capitalismo, mas talvez seja a agonia do caráter neoliberal que hipertrofiou o sistema financeiro. Acumular fortunas tornou-se mais importante que produzir bens e serviços. A bolha especulativa inflou e, súbito, estourou.
Repete-se, contudo, a velha receita: após privatizar os ganhos, o sistema socializa os prejuízos. Desmorona a cantilena do 'menos Estado e mais iniciativa privada'. Na hora da crise, apela-se ao Estado como bóia de salvamento na forma de US$ 700bilhões (5% do PIB dos EUA ou o custo de todo o petróleo consumido em um ano naquele país) a serem injetados para anabolizar o sistema financeiro.
O programa Bolsa Fartura de Bush reúne quantia suficiente para erradicar a fome no mundo. Mas quem se preocupa com os pobres? Devido ao aumento dos preços dos alimentos, nos últimos dozes meses o número de famintos crônicos subiu de 854 milhões para 950 milhões, segundo Jacques Diouf, diretor-geral da FAO. Quem pagará a fatura do Proer usamericano? A resposta é óbvia: o contribuinte.
Prevê-se o desemprego imediato de 11milhões de pessoas vinculadas ao mercado de capitais e à construção civil. Os fundos de pensão, descapitalizados, não terão como honrar os direitos de milhões de aposentados, sobretudo de quem investiu em previdência privada. A restrição do crédito tende a inibir a produção e o consumo. Os bancos de investimentos põem as barbas de molho. Os impostos sofrerão aumentos. O mercado ficará sob regime de liberdade vigiada: vale agora o modelo chinês de controle político da economia, e não mais o controle da política pela economia, como ocorre no neoliberalismo.
Em 1967, J.K.Galbraith chamava a atenção para a crise do caráter industrial do capitalismo. Nomes como Ford, Rockefeller, Carnegie ou Guggenheim, exemplos de empreendedores, desapareciam do cenário econômico para dar lugar à ampla rede de acionistas anônimos. O valor da empresa deslocava-se do parque industrial para a Bolsa de Valores. Na década seguinte, Daniel Bell alertaria para a íntima associação entre informação e especulação,e apontaria as contradições culturais do capitalismo: o ascetismo (=acumulação) em choque com o estímulo consumista; os valores da modernidade destronados pelo caráter iconoclasta das inovações científicas e tecnológicas; lei e ética em antagonismo quanto mais o mercado se arvora em árbitro das relações econômicas e sociais.
Se a queda do Muro de Berlim trouxe ao Leste europeu mais liberdade e menos justiça, introduzindo desigualdades gritantes, o abalo de Wall Street obriga o capitalismo a se repensar. O cassino global torna o mundo mais feliz? Óbvio que não. O fracasso do socialismo real significa vitória do capitalismo virtual (realpara apenas 1/3 da humanidade)? Também não. Não se mede o fracasso do capitalismo por suas crises financeiras, e sim pela exclusão - de acesso a bens essenciais de consumo e direitos de cidadania, como alimentação, saúde e educação - de 2/3 da humanidade. São 4 bilhões de pessoas que, segundo a ONU, vivem entre a miséria e a pobreza, com renda diária inferior a US$ 3. Há, sim, que buscar, com urgência, um outro mundo possível, economicamente justo, politicamente democrático e ecologicamente sustentável.

quarta-feira

Segundos namorados, ou Para Natan

Diferente de todos os outros
Os outros nem eram tantos
eram suficientes para mim.
Diferente porque mágico.
Olhamo-nos ao mesmo tempo
dançamos
primeiro o corpo
só depois as palavras
Esta foi a diferença

Primeiro dançamos
só depois veio a música.

Você era música
só depois eu soube
todo soando diferente
nos meus ouvidos
ressoando na minha cabeça
ressoando nos meus braços

Eu era livre e não sabia.

Você também
e me olhava com ternura.
Tinha nome de príncipe
cabelos longos de príncipe
mas não havia século dezenove, era perfeito
quase não havia nem corpo
havia música
sol se pondo
e telhados.

Eu é que sou uma estúpida.

terça-feira

Quando fui Penélope

Não precisei esperar muito
Ulisses veio até mim
Era tão vivo
que fui tomada por um inexplicável pânico
e mandei que voltasse sobre seus passos
Contudo, por respeito, guardei muito tempo
minha castidade para ele

Para Renina

Esta não é uma carta.
Esta não é uma bic.
Esta não é uma tentativa
como a vida também não é.
Este não é o lugar
Estas não são as pessoas
Ele não é a pessoa
e isto me faz formigar as mãos.
Isto não é definitivo
Este não é o sentimento que previ
Esta não é minha vida
Este não é meu discurso
e estas mãos que fazem casas
passam longe da casa do meu corpo
Grito por independência
e esta ânsia toda em mim, esperando ser
dependente de alguém
dependente de algo
dependente e entregue
e irresponsável.
Este não é meu país
Este não é meu idioma
E qualquer música bem colocada na cena
Me faz crer na arte
Esta não é minha letra
Estes não são meus amigos
Esta não é minha casa
Esta não é minha imagem
Este não é o autor
Isto não é um homem
Este corpo me pertence e não o domino
E estas mãos que me pertencem
passam longe de qualquer cruz ou foice.
(...)

Para Fádhia

Coisas que escrevi para colocar naquele envelope vermelho da porta do banheiro

Todo o horizonte da cabeça delimitado pelo seu singular formato: a curvatura ímpar que vem da nuca até desembocar na testa e nariz. Não há cabelos, portanto não há adornos, apenas a cabeça na penumbra com pensamentos dentro e fora se espalhando pelo resto invisível do corpo. invisível para mim, como invisíveis são os pensamentos. Alguns pensamentos, embora invisíveis são tão concretos que me acertam o peito como um soco. Perco o ar. Quando estou esvaziada de sentimentos me encho de ar e fico satisfeita.
Coisas que viajam pelo espaço sem se dissipar: a luz, a bala, a saudade.
O limite é apenas o horizonte da terra e da cabeça. Tantas histórias por contar. Excitá-las até saírem todas.
Sonhei com a guerra outra vez. Colocavam um rastreador por satélite em mim e eu era obrigada a ficar longe de todo mundo que eu gosto pra ninguém morrer por minha causa. Havia bombardeios sangrentos. Alguém que me dava cobertura num prédio, atacava umas pessoas com um lança-chamas e eu via seus rostos derretendo.
Ando sem saco pra muita poesia.
Tenho dificuldades de achar papéis importantes, sair para trabalhar e tenho esbanjado dinheiro. Ando com medo de dormir no escuro total.
A caneta corre firme. Abri outro vinho, tinto desta vez.
Tentando recuperar o tempo perdido. passei muito tempo deitada, estirada esperando sonhar outras coisas bem diferentes do que havia ao meu redor, mas sonhos acabam. E se a realidade não for mais que sonho e ilusão como dizem alguns filósofos e esotéricos?
Tentando arrumar tempo para um pouco de ócio. Fazer comida, escrever cartas, diários...
Vontade de viajar para longe com algum amigo muito próximo.
Vontade de fluência.
Saudade de ex-namorados.
Carta a uma amiga. Trechos.

Primeiro namorado

A gente não. A gente era mais complicado que isso, que tudo isso. A gente queria ser mais que novela, queria ser filme -não qualquer filme- um noir com luz bem dura. Eu me enfeitava pra você e para todos os outros. Os outros notavam, você passava batido.
Você queria filosofar sobre a gente e eu queria te arrancar pedaços com os dentes.
Daí de repente eu era tão frágil que você sentia pena e eu te odiava por isso. E você não me mandava flores. Eu te escrevia páginas e páginas e tenho certeza de que você jogou tudo fora, ainda bem.
Você dizia tudo que sentia e eu queria que fosse mentira. Não parecia filme, mesmo assim a gente gostava que fosse complicado e intenso.
Você me mandou embora, disse que era o último beijo e era inverno e chovia.
Eu tinha sangrado tanto que apareci depois de dois dias, ainda pálida.
Você guardou o livro e me olhou com desejo alguns anos depois. Daí parecia tanto um filme que quebrava o encanto se eu te tocasse.

domingo

Serpente

Ser pente
é pentear
os cabelos da medusa
meu primeiro hai kai publicado no zine Terroristas do Verbo

Aborto e barbárie


Delicado, como delicado é um corpo de mulher. Violento, como violenta é uma tempestade. Mas ainda este assunto é sobretudo um tabu. Sobre tabus não se fala, sobre tabus não se pensa. Sobre todo o resto se fala exaustivamente, cansativamente, propositadamente, porque dá audiência.
Debaixo das máscaras da vida (pós) moderna, o homem finge que não é mais bicho. Um homem de terno e gravata não produz desgraças que dão audiência, estas acontecem só nas favelas, nos cortiços, onde as pessoas são guiadas pelo instinto, como formigas... pois sim. O homem de terno e gravata comporta-se como um javali.
Meninas de 13 e 14 anos nas filas para entrar nas passarelas, meninas de 13 anos grávidas, garotas de 19 anos vendendo cerveja com seus corpos, vendendo chocolate solúvel, chinelos e motos emoldurados por seus corpos. Garotas de 13 anos que ainda querem ser a Barbie, que dançam funk, que querem ser desejadas.
Uma coisa fica clara, toda mulher quer ser desejada.
Recentemente meus alunos colegiais assistiram “Brava Gente Brasileira”. O filme, narra um pouco da trajetória do povo kadiwéu. O “mocinho”, o português Dom Diogo, vem para o Brasil demarcar terras, está absorvido pela idéias de Rousseau sobre o bom selvagem, romantiza e desenha a natureza com olhos de europeu. Pedro é mestiço, um desbravador, chefe da expedição que deve conduzir Dom Diogo mata adentro. Quando as culturas cristã e guaicuru se encontram no seio da mata virgem, há o choque. Estupros, morte, guerra. Dom Diogo não quer tomar parte nisso, mas Pedro diz: “Você não é diferente de ninguém. Nós só estamos aqui por sua causa. Prova pra todo mundo que é homem.”
Darcy Ribeiro já disse que o povo brasileiro é fruto do estupro da negra e da índia. Nosso “mocinho” do filme contudo, acaba se apaixonando pela princesa kadiwéu que violentou e a mantém cativa até que nasce o filho deles que ela mata. As índias guerreiras deviam ter um ou nenhum filho, para poder fugir do inimigo e sobreviver. A morte do filho dentro ou fora do ventre, não era um tabu. Mas para o português, este gesto representa algo anti-natural, pois para ele, a mãe deve sempre amar e proteger o filho, ainda que indesejado. Para o homem branco, desbravador, o gesto da índia representa mais, é a não continuação de seu sangue nesta terra.
Pouca coisa mudou desde que sou criança até agora. Mulheres jovens continuam na vitrine. Meninas são treinadas a serem mães com bonecas industrializadas. E aos homens cabe o poder de decidir sobre a vida. A mulher é quem gera, mas não é seu o poder de decisão. A Igreja continua vendo o aborto como barbárie.
E barbárie não se discute, combate-se. É mais fácil criminalizar algumas mulheres que assumir a responsabilidade que todos têm na estrutura social que se mantém a partir do domínio sexual de alguns.

imagens: menina rezando para Santa Barbie e capa de mangá

quinta-feira

Sensação de tudo inacabado
e essa coisa irracional
da necessidade
do outro
As minhas amigas adultas ainda brincam de casinha e de boneca.

Charles Darwin

Ontem passaram horas me explicando por que a teoria de Darwin chama-se Teoria da Evolução e não Teoria da Adaptação, já que versa sobre a capacidade de adaptação dos seres para que seja possível sua sobrevivência.
Eu insistia que esta palavra "evolução", me incomoda muito porque acabou tomando conotações várias. Leio nela esta idéia da necessidade de galgar degrau a degrau até chegar numa condição melhor. Leio nela esta idéia de seres mais e menos evoluídos. Estas duas idéias, fora da boca do Darwin, deram em uma hierarquização dos seres, das tarefas, das riquezas, das coisas, e toda hierarquização me preocupa.
A conversa passou por Rousseau e Lamarc, até que a conclusão foi: "A gente é o que a gente busca." Concordamos todos.

territórios dentro

Dias e noites atravessando meus territórios interiores
desertos claros
árvores grandes
algumas pontes
um rio mudo
No meu corpo.
hoje amanheceu com neblina
e fazia muito tempo que não era molhado
odeio amanheceres porque fica claro
quando fica escuro não vejo o espelho
daí pensei em furar meus olhos
mas a manhã se desdobrou úmida
numa textura de veludo
que me fez gostar dos meus olhos:
só eles tocam aquilo que
_______________minhas mãos não alcançam.
amanheceu veludo
____mas eu insisto em me enrolar no arame farpado
necessidade orgânica
dependência química
eu nunca tive um corpo
eu evaporo sempre
o psiquiatra não precisa me convencer, eu sei
mas ele insiste, e me diz como se fosse
___________________para si mesmo:
__nós não somos nós
__somos um conjunto de reações
______________________físico-químicas.
físico-química. palavrinha cretina
não que isso me reduza
pelo contrário
apenas que palavras separadas por hífen
sempre me pareceram cretinas
não que eu não seja cretina
se eu não fosse
____não precisaria desse exercício de
_________________________palavras
palavras e hifens me cansam
e eu preciso deles
necessidade
dependência orgânica
ele me diz.
não precisava
_____________________eu sei
mas ele insiste:
__um homem é apenas
____os cordões umbilicais que corta.
eu nunca tive um corpo
___________________eu sei
mas eu insisto
e penso em furar meus olhos
____todos os dias em que amanhece
_________________________veludo.

terça-feira

Não é suficiente

foto por Dinha em Encontro de Mulheres Assentadas- MST - Araraquara - 2000

Não é mais suficiente que cada um faça sua parte
“É tempo de partido,
Tempo de homens partidos”
Partidos políticos
Corpos partidos
O importante é participar
Não é suficiente.
A parte não é o todo
Fomos desmembrados em pedaços
Desde as revoluções que decapitaram reis
Separaram as urgências do homem em três:
"liberdade, igualdade e fraternidade"
Mas a liberdade tem limites
A igualdade é impossível
A fraternidade é vermelha
A parte não é o todo.
Desde as revoluções culturais
Queimam-se livros e bandeiras
Queimam-se índios em praça pública
Um menino se coloca diante de um tanque de guerra
com uma pedra, ou uma bandeira branca nas mãos
Não é suficiente.
"O sonho acabou"
Não há terras para todos
A semente que alimenta, germina e cura
é patenteada
Paz e amor para quem?
Se não há comida para todos
que não haja paz para ninguém
"Ocupar, resistir, produzir"
Será suficiente?
Separaram as urgências do homem
em várias bandeiras e causas para abraçar
Para que cada um faça sua parte
Mas a parte não é o todo
Não é suficiente.
O todo germina das mãos dadas
Dos corpos e intenções multiplicados
Da soma
Pois é tempo de urgência para
homens, mulheres e, especialmente para crianças
Aquelas que ainda virão
e aquelas que, inevitavelmente,
crescerão.
texto por Dinha - Semana da Ambiental - USP São Carlos - Teatro Descalço - out-2008

segunda-feira

Mudhoney em São Carlos!


Os órfãos do grunge sentem-se assim desde a morte de Kurt Cobain em 94.
O Nirvana fez um show histórico no Brasil no Hollywood Rock de 91. Entre outras tantas coisas, Kurt cuspiu nas câmeras da rede de TV brasileira que cobria o evento, deixando os "VJ´s" e repórteres sem ter o que dizer.
Perto desta época o Metallica fez um show no Palmeiras e o Oswaldo Montenegro comentou na TV que achava absurdo todos aqueles jovens vestidos iguaizinhos, todos de preto num calor infernal. Alternância de gerações.
Uma amiga minha foi ver o Nirvana. Foi de preto e com uma blusa de flanela amarrada na cintura. Voltou falando mal da banda, que Kurt estava louco demais e nem conseguia cantar direito. Fiquei com uma raiva abissal desta menina. Ela não gostava realmente da banda.
Nunca tive grana pra comprar CD´s (hoje existem alternativas, na época era difícil e caro) só acompanhava o que era grátis, ou seja, o que tocava no rádio ou aparecia em jornais e revistas. Lembro com clareza da primeira vez que ouvi Smells Like Teen Spirit, logo que começou a fazer sucesso aqui no Brasil, tratava-se de um sentimento visceral traduzido em música. Aquilo sempre me soou como uma fúria que eu também sentia e sinto ainda, uma fúria de destruir o que não presta. Só fui assistir ao tal show criticado pela garota sortuda e estúpida muitos anos depois na casa de uns amigos numa gravação e me perguntava: Por que eu não estava lá ao invés dela?



Justamente junto desses mesmos amigos ouvi Mudhoney pela primeira vez. Era um churrasco, os móveis da sala foram afastados e alguém colocou Touch me I'm Sick pra tocar. Era o mesmo sentimento de fúria contida que vem até a garganta num berro. A gente pulava na sala e gritava igual uns doidos e colocava a mesma música várias vezes pra tocar. Foi daí que comecei a me interessar por outras bandas de Seattle além do Nirvana.


Daí li Barulho do André Barcinski, li Mais pesado que o céu do Charles R. Cross, apesar de achar este segundo cheio de psicologismos demais, tentando explicar o por quê de Kurt ter se matado... e isso é meio idiota de se fazer. Basta ouvir a música, qualquer fã entende o porquê.

Acho Control um puta filme porque é muito simples, não inventa história não faz piadas idiotas como em A Festa Nunca Termina, e não tenta explicar por que Ian Curtis se matou. Basta ouvir Joy Division, porra!

Afinal um dia fomos a uma festa do Garagem lá em São Paulo, o Barcinski tava tocando e pediram pra mandar um Mudhoney. Touch me I´m sick soando tão alto quanto nossos ouvidos podiam suportar, parecia sempre a primeira vez. Acabou a música e ficamos fazendo reverência para o André e jurando que quando o Mudhoney viesse tocar de novo no Brasil a gente tinha que estar presente e junto.

Um dia, um grupo de meninos (dois deles foram meus alunos) formou uma banda cover do Nirvana, o Dharmanet. Ver moleques de 17 anos tocando com tanta fúria me deixou tão contente que deixei de me importar com garotas e garotos estúpidos que ouvem sons por "modinha". A vida é cheia de som e fúria pra algumas pessoas, algumas ouvem música, outras consomem música. E há quem ouça e consuma.


Neste fim de semana, graças ao Maurício Martucci (fiquei devendo uma reverência a ele) que chamou os caras pro Festival Contato, vimos tocar de graça os últimos moicanos, digo, grunges (se é que este rótulo realmente ainda define o som o barulhento e dilacerante) tocando além de tudo sons do novo disco. Alguns ruídos lembravam Sonic Youth e o Mark Arm deu umas reboladas tal como Iggy Pop. Meus amigos do dia do Garagem e do dia do churrasco estavam quase todos lá.


No meio da roda que se formou na frente... bem, tinha de tudo. Umas 4 meninas incluindo eu e a Kemilly, dois carinhas que pareciam sósias do Sid Vicious, alguém de moicano, um cara que parecia Jesus, pessoas gordas e magras, brancas e pretas, altas e baixas, todas na mesma fúria e alegria e transe que só o rock´n roll proporciona. Tudo cheirava ao espírito de Seattle.

fotos do show em São Carlos, tiradas por mim


quinta-feira

Diana e suas unhas

Diana pintou as unhas de vermelho escuro. O namorado dela nem reparou. Então, inteligentemente ela faz algum comentário que o faz olhar para suas unhas e finalmente, décadas depois, ele comenta como estão bonitas essas unhas e como fazem com que ela pareça mais forte e mais velha. Ela faz um muxoxo, sorri, pede mais uma cerveja e fica pensando em como os homens são idiotas.
Bebi e fui ter com minha amiga
Falamos de tudo
Principalmente sobre o esquecimento
E sobre como se faz para esquecer os caras que nos dão um fora
Eu achei a conversa estranha
porque pra mim agora isso é tão fácil quanto apaixonar-me.

terça-feira

Como sepultar sua alma em dois atos

Ato I

Duas personagens em cena. A primeira caminha observando ao redor atenta, sempre acompanhada da segunda, meio entediada. Param diante de algo. A personagem Um fala:
Um (apontando) – E aquilo?
Dois – O quê?
Um – Aquelas pessoas.
Dois – Que tem?
Um - Quem são?
Dois – Apenas pessoas.
Um – De onde?
Dois – Artigos orientais.
Um – São caras?
Dois – Não acho.
Um – Quanto custam?
Dois – Quinze mil.
Um – A prazo?
Dois – Três parcelas.
Um – Sem juros?
Dois – Sem juros.
Um – Têm garantia?
Dois – Dois anos.
Um – Que beleza!
Dois – É promoção.
Um – Aceita cartão?
Dois – Mas claro.
Um – Vou levar.
Dois – Que mais?
Um – É só.
Dois – Quer embrulhar?
Um – Seria bom.
Dois (enquanto embrulha) – Não esqueça.
Um – De quê?
Dois – De podar.
Um – Por quê?
Dois – Elas crescem.
Um – Mas muito?
Dois – Sim, muito.
Um – E então?
Dois – Poda-se...
Um – Quais partes?
Dois – A cabeça.
Um – E só?
Dois (termina o embrulho) – É suficiente.
Um (saindo) – Pode deixar.
Dois – O troco.
Um – Ah! Obrigado.
Dois – Volte sempre.

Ato II

Casal entra no restaurante elegante. Num gesto gentil ele puxa a cadeira para ela. Sentam-se, olham-se. Ele sorri para ela e depois começa a olhar em redor. Um garçom corre para lá e para cá, atendendo mesas imaginárias.
Ele – Ei, garçom!
Garçom – Pois não.
Ele – O cardápio.
Garçom – Com licença.
O garçom traz dois cardápios e continua atendendo as mesas imaginárias. O casal examina atentamente o menu num silêncio solene. Finalmente se manifesta.
Ele – Ei, garçom!
Garçom (voltando) – Já escolheram?
Ele (apontando o menu) – Mas claro.
Garçom (anotando) – Boa pedida.
Ele (olhando para Ela) – Oh, sim.
Garçom – Sem sal?
Ele – Por favor.
Garçom (para Ela) – A senhorita?
Ela não tira os olhos dele, apenas aponta o menu sem nada dizer.
Garçom – Mal passado?
Ela – Por gentileza.
Garçom – Para beber?
Ele –Aquele ácido.
Garçom – Nova safra?
Ele – Se tiver.
Garçom – Sim temos.
Ele – É só.
Garçom sai. Casal troca olhares apaixonados. Dão-se as mãos e não tiram os olhos um do outro por um só momento. O garçom retorna com duas travessas cobertas deposita-as sobre a mesa e retira as tampas. Na travessa dela há um pé visivelmente humano, ensangüentado. Na dele, olhos bóiam numa substância que parece uma sopa.
Ela (com olhos brilhantes) – Está fresco!
Garçom – Bom apetite.
Iniciam a refeição e o fazem refinadamente. Mastigam devagar, saboreando.
Ele – Está bom?
Ela – Sim, está.
Ele (vendo algo em sua sopa de repente) – Ei, garçom.
Garçom – Pois não.
Ele (apontando) – Um cabelo.
Garçom – Como, senhor?
Ele – Na sopa.
Garçom – Que cor?
Ele – Ruivo.
Garçom (apontando para o pé) – É dele.
Ele – Não importa.
Ela – Traga outro.
Garçom – Mas senhorita...
Ela – E depressa.
Garçom – Está bem.
Ele – E quente.
Garçom (retirando o prato dele e saindo) – Mil desculpas.
Ele – Essa gente...
Ela – Uns bárbaros.
Ele – Sem higiene.
Pausa
Ele – Te amo.
Ela – Eu também.
Texto para Oficina de Texto Prof. Magno – Agosto 1998
Diana segura firme no balanço. Ora vê o céu, ora vê o chão. As pernas estão soltas, vão para trás e para frente ajudando no movimento. Sente frio porque seu corpo está molhado e chove, mesmo assim ela balança bem alto cortando algumas gotas pelo meio.

segunda-feira

Amor em agosto


O amor é uma linha na mão de uma senhora de muita idade que junta os retalhos numa colcha colorida. A mulher costura devagar retalho a retalho. Os pedacinhos de pano são velhos, mas não o suficiente para serem gastos, assim como a mulher. A linha é invisível, por isso a cena parece inverossímil, mas não é. A agilidade da mulher é tão serena quanto seus cabelos e seus olhos são serenos. Ela está numa sala iluminada pela luz do fim da tarde vinda de uma janela grande e semi-aberta. Não há cortinas. O pedaço da colcha que já foi costurado quase encosta no chão encerado de madeira. Quando costura, é como se a mulher não tivesse mais idade, nem história. Quando costura, esta mulher se sente útil. A gente fica pensando que provavelmente esta colcha não é para ela, porque as mulheres não costumam fazer muitas coisas para si mesmas. A gente fica pensando na mágica deste fio invisível que junta pedacinhos tão diferentes. Esta mulher não é quadro, não é pintura, não é filme, não é texto, assim como suas mãos não são arte nem linguagem. A gente fica pensando na solidão dessa mulher nesta tarde e na nossa própria, porque não há como não ser sozinho. A gente fica pensando em como pode ser simétrica uma colcha feita com pedaços de tamanhos diferentes. A gente não sente perfume de flores, sente o cheiro do pano, da linha e da mulher. Dá vontade de ficar olhando para ela a vida toda, mas a gente sabe que logo mais a colcha ficará pronta e a mulher se levantará para entregá-la e virá em nossa direção com a colcha dobrada nas suas mãos serenas e a gente não conseguirá não sentir medo, emoção, dor, afeto e uma alegria transparente quando recebermos nas mãos esta colcha com os olhos rasos. A mulher não sorri, nem nós. Depois ela fecha a janela e descansa.
texto de agosto de 2007
O homem está condenado à razão.
Quando pousada nela só há urubus, a Árvore do Conhecimento rende poucos frutos.
A Academia: suas becas, seus beckers, seus diplomas, sua necessária burocracia e seu conhecimento todo em pilhas de palavras de papel para que o Sr. José * catalogue na Conservatória Geral, esta Academia não admite "...a exitência de uma espécie de sabedoria involuntária , daquelas que parecem ter entrado no corpo por via respiratória ou por dar o sol na cabeça, e por isso não são consideradas dignas de particular aplauso."**
Por dentro das tubulações dos seus canudos a Academia não admite que circule a espontaneidade dos sabiás à qual se refere Rubem Alves, bem como não admite que a aprendizagem do mundo venha do desejo de tomá-lo para si. Não admite e prega em suas portas: não há vagas. Os sabiás se vão.
Enquanto isso é possível ouvir por trás de suas portas cerradas o suspiro de esforço de alguns alunos pelos corredores, dizendo de si para si: não consigo aprender aqui.
Não há muito para se aprender, o volume de conhecimento possível de se acumular em quatro -ou cinco ou oito- anos de universidade é pequeno, o que se pode aprender é a estudar sozinho, se tiver uma vontade forte. A frase mais famosa entre estudantes de engenharia "Aquele professor sabe muito mas não tem nenhuma didática". A atividade educativa nas universidades, segue em segundo plano.
" No entanto, apesar desta atividade educacional ser considerada muito necessária, é também vista como atividade de baixo status para um cientista, um desvio do esforço do pesquisador, cujo interlocutor ideal é outro cientista, capaz de dar-lhe o crédito e o reconhecimento, e não o leigo, incapaz de entendê-lo."***
São saberes diferentes, desvaloriza-se o saber intuitivo e instintivo para dar-se cor ao saber "instituitivo" -se os acadêmicos me permitirem o neologismo. Considera-se como cultura e ciência apenas aquilo que pode ser fruto de uma análise cartesiana. É por isso que, mesmo para aqueles que estão dentro da Academia é difícil ter acesso ao conhecimento científico, pois este, fruto de uma rígida disciplina, não pode circular fora das tubulações dos canudos. Como não dialoga com o mundo de fora, o conhecimento fica estagnado e só pode mesmo atrair a presença de urubus.
"Em terra de urubu, sabiá não canta". O homem está condenado à veradade. As verdades absolutas e relativas dos urubus das Academias adoecem os frutos da Árvore do Conhecimento. Os sabiás vão embora com a frase de Nietzsche no bico: " O homem precisa de arte para não morrer da verdade".


notas:
* Sr. José, personagem de José Saramago no livro "Todos os Nomes" trabalha na Conservatória Geral, um arquivo de registros.
** José Saramago in "Todos os Nomes" p. 34,35
*** Mueller, página retirada da Internet, p. 3
Prefácio para trabalho acadêmico de conclusão de curso do meu amigo Júnior, vulgo Juniore, 2005
estou aqui aguardando ser chamada, aguardando a próxima surpresa, tristeza ou epifania, minha próxima imagem, meu almoço
algo que realizarei com minhas próprias mãos ou de mãos dadas com alguém
aguardo em silêncio
a expectativa me suspende leve
quero crer que depois disto serei já muito diversa e talvez pare de beber, talvez viaje para longe, talvez tome uma séria resolução ou caia de joelhos olhando para cima, que eu sou daquelas que não caem senão olhando para cima
a expectativa estende meus músculos
sou tesa nesta espera
alguém chamará meu nome em breve

Hai Kai


"A lágrima
no olho
do peixe"

Um hai kai japonês que Lefér recitou para mim na nossa última conversa

Fernando, Manoel e Marcos

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava lá no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então, se a criança muda a função do verbo, ele
delira.
E pois.
Em poesia, que é voz de poeta, que é voz de fazer
nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.

(Manoel de Barros, O livro das ignorãças. 10a edição 2001. ed Record. P.15)
Discorrendo acerca das suas classificações de arte, o escritor nordestino Ariano Suassuna, diz serem possíveis três modalidades:
o Artes Espaciais - Aquelas atividades que apresentam como resultado, elementos justapostos num espaço determinado. São exemplos, a escultura e a arquitetura.
o Artes Temporais - Os elementos que a compõe sucedem-se no tempo. Exemplos: música e literatura.
o Artes de Síntese - Fusão das anteriores obedecendo a uma narrativa. Nestas estão inclusas o balé, a ópera, o teatro e o cinema.
Suassuna ainda segue: dentro desse último grupo, a narrativa em cada um, expressa-se a seu modo. No balé quem narra a história são os movimentos do corpo, na ópera, o narrador é o canto, no teatro a fala e no cinema a imagens em movimento (SUASSUNA, 2000).
Poder-se-ia suspeitar dessa colocação sobre o cinema. Sim, as imagens e a história avançam no tempo, mas que espaço é esse ao qual ele faz referência? Que profundidade é essa que a tela plana ganha na nossa imaginação? O espaço, por vezes, é uma profundidade imaginada. Se há poesia, mesmo um plano bidimensional pode ganhar tamanhos e perspectivas mil.
Manoel de Barros, poeta achegado em despropósitos, afirma sem desnecessidades que o verbo “tem que pegar delírio” (2001, p.15). O verbo é a primeira arte, é um pedacinho daquilo que vem a compor artes de síntese com o cinema. O cinema pega delírio nos olhos do espectador e assim fazendo, toma emprestadas desses olhos texturas, riquezas de cores, proporções: os olhos escutam o filme mudo e tingem com lápis de cor o preto e branco.
O cinema também precisa estar um pouco emprenhado de desvario para ganhar volumes, atravessar o globo dos olhos e entrincheirar-se na mente com “desimagens” entretecendo consciente e inconsciente coletivos.
A linguagem poética e criativa tem uma universalidade latente. Por certo, crianças e esquizofrênicos podem tomar caminho mais facilmente por essa via, pois são menos presos a quaisquer convenções. Conforme Luiz Carlos Mello:
"Certamente a criatividade permanece intocada na condição dita esquizofrênica. Segundo pesquisa inglesa recente, o homem fala cerca de 10 mil línguas diferentes. Mas o substrato mais profundo do homem é universal, e sua linguagem se expressa através das imagens do inconsciente, comuns a todos nós.Nas vivências esquizofrênicas, essas imagens invadem a esfera da consciência com uma força avassaladora e aproximam-se de forma desordenada das fontes do processo criativo. Daí a importância das atividades expressivas no tratamento, o que também poderá revelar, através de extraordinárias criações, as riquezas da psique que estão voltadas para longe de nós."
Foi observado por estudiosos que, nas vivências esquizofrênicas, à medida que a dimensão verbal some, a imagética emerge. O mundo dessas pessoas é povoado de imagens que pegaram delírio e beberam na fonte dos medos, anseios e vertigens comuns a toda humanidade, por isso, podem nos falar muito mais de perto. Mário Pedrosa caracterizou esse tipo de obra como “Arte Virgem” ou seja, uma arte despojada de convenções acadêmicas estabelecidas, ou de quaisquer rotinas da visão naturalista ou fotográfica, pois que representar imageticamente o que está dentro é muito diferente de representar o que está fora.
O cinema de animação, numa rota pelo avesso, diferente de outros tipos de cinema caracterizados essencialmente pela duplicação do visível, é uma duplicação do invisível, portanto uma arte virgem de síntese, segundo as classificações apresentadas.
Introdução da minha monografia "Fernando na Ponta da Estrela", sobre o filme de Marcos Magalhães e Fernando Diniz "Estrela de Cinco Pontas" -2004

Nu Instante - O amor por Bento Prado


"(...) em sociedades diferentes você tem concepções diferentes de amor. Na nossa sociedade, a concepção de amor é o resultado de todo um processo social que se desencadeia no fim da Idade Média com o surgimento da burguesia, o nascimento da família, digamos tal como nós a conhecemos hoje em dia, do individualismo moderno. O amor tende a se exprimir essencialmente na família atômica, conjugal. Não é tanto para fazer uma historiologia da idéia de amor, mas compreender que sentido se pode dar contemporaneamente...
Volto mais ao Freud outra vez. Freud acaba por montar a sua, a sua metapsicologia fazendo com que toda ela parta de dois princípios fundamentais, não da psique humana, mas da vida em geral: o princípio de Eros e o princípio de Tanathos, onde Eros, o amor e Tanathos, a morte. Se passa como se toda forma de vida fosse guiada por duas tendências opostas, uma segundo a qual a vida tende a se multiplicar, a se organizar harmonicamente e a se expandir, enquanto que Tanathos é a tendência de autoaniquilação. Estão em constante combate. Expressão dessa confusão entre Tanathos e Eros nós encontramos em dois belíssimos versos de Drummond: "Sob a vontade de existir, outra vontade mais pura. Vontade de anular a criatura." Vontade de existir, vontade de permanecer do ser, vontade de se integrar com outrem por debaixo do princípio guerreiro de agressividade, de destruição do outro mas sobretudo de destruição de si mesmo. A idéia de amor significa essencialmente a integração, a auto-afirmação, essencialmente isso, mas não ás custas de outrem. "
transcrição de fala do filósofo Bento Prado Júnior em entrevista para nós no documentário Poético "Nu Intante" - direção de Daniela Gomes 2003

O melhor de mim

O melhor de mim é aquilo que não posso declarar.
Aquilo de que não se fala e o que não é visível.
O melhor de mim não pode ser tocado.
Um sopro dentro do outro
Como num engenho perpétuo qualquer
Tentei me aproximar daquele monstro
Sem nenhum ranço
Ou vestígio de mágoa possível
(...)
Apenas com a ternura que me restou
(...)

rotinas

Todo ano: planos
Todo mês: aluguel
Toda semana: igreja
Todo dia: trabalho
Toda hora: fome
uma fome indescritível
de tudo que falta

vida voadeira








Semente alada na mão de minha mãe







Ferida de árvore

Nas plantas tudo cicatriza demorado.